Em sua última reunião antes do primeiro turno das eleições presidenciais, o Comitê de Política Monetária manteve a taxa básica de juros em 18% ao ano e, diante “de um quadro de volatilidade e incertezas”, optou por retirar o viés de baixa ? instrumento que permitiria um corte antes do próximo encontro. A decisão, anunciada logo após o encontro, ontem, foi unânime.

Analistas já esperavam a manutenção do juro, frente à pressão cambial e ao repasse da alta do dólar para os preços, mas a expectativa era de que o colegiado do Banco Central conservasse o viés de baixa adotado na reunião anterior. “Acho que o viés neutro é um sinal de que eles (Copom) estão vendo uma situação um pouco mais grave do que viam na reunião passada”, comentou Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Banco Fator. “Além disso, ocorreu ainda a turbulência do cenário externo.”

Pesquisa feita na semana passada mostrou que 21 de 22 economistas apostavam que a Selic ficaria inalterada esta semana. Apesar disso, 15 dos profissionais consultados acreditavam que o Copom sustentaria o viés de baixa. O argumento era de que o BC poderia esperar uma estabilidade do câmbio no curto prazo.

Na terça-feira, a vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anne Krueger, atribuiu os altos juros brasileiros às incertezas eleitorais, acrescentando que as taxas deveriam cair “para níveis normais” após as eleições.

A próxima reunião do Copom ocorre nos dias 22 e 23 de outubro, entre o primeiro e um eventual segundo turno das eleições ? momento pouco propício para mudanças na taxa, segundo economistas.

“Um risco-país alto e o real se depreciando acabam inviabilizando uma redução hoje. A próxima reunião será entre o primeiro e segundo turnos e esperamos que ele manterá os juros em outubro. A partir de novembro reveremos nossa visão”, observou o economista-chefe do Banco Schahin, Cristiano Oliveira.

Fiep tece críticas

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) criticou ontem a decisão do Copom, de manter a Selic em 18% ao ano e retirar o viés de baixa e avaliou que o Banco Central (BC) deu mais peso ao curto prazo, em que a indefinição eleitoral sugere conservadorismo da política monetária, do que ao longo prazo, no qual deveria prevalecer uma trajetória descendente dos juros para o incentivo ao consumo e ao aumento da produção. A análise é da diretora do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), Clarice Messer, para quem houve “surpresa zero” na decisão.

“O que a gente viu é que o curto prazo, de indefinição política e eleitoral, predominou. Essa indefinição, se houver segundo turno, vai até o final dele. A situação já estava ruim para a indústria e vai continuar ruim”, afirmou. Ela disse que o momento atual do setor produtivo se assemelha aos vividos durante as mais graves crises. “Vai haver uma pequena melhora no Natal porque sempre há, mas nada que consiga repor as perdas de agosto a outubro”, antecipou. Na opinião de Clarice, outro fator que atrapalha muito o empresário industrial é a volatilidade do câmbio.

Analistas dizem que decisão foi “sensata”

O economista-chefe e estrategista da ABN Amro Asset Management, Hugo Penteado, acredita que essa foi uma decisão sensata, já que, até a próxima reunião do Copom, todas as incertezas atuais se manterão. “As eleições acontecem logo no início de outubro, o cenário internacional, com um possível conflito entre os Estados Unidos e o Iraque, ainda gera muitas incertezas, e os índices de inflação continuam pressionados. Não há segurança nenhuma para reduzir juros nesse momento. Portanto, retirar o viés foi uma decisão também acertada”, afirma Penteado.

O consultor José Estevam de Almeida Prado também acredita que retirar o viés foi uma decisão acertada do comitê. “Não dá para ficar criando expectativas falsas. Se os juros não serão cortados até a próxima reunião, manter o viés de baixa não faz sentido. Pior do que isso, cria uma falta de credibilidade em relação ao viés, que deve ser visto como uma sinalização para o mercado”, afirma.

Penteado completa que uma redução da Selic nesse momento poderia ser interpretada como uma estratégia política, já que corte de juros sempre é visto como uma medida popular. Nesse caso, afirma Penteado, o comitê do Banco Central (BC) estaria indo contra o principal objetivo da política monetária atual, que é o controle da inflação.

Neste ano, a meta é de 3,5%, com margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para a meta de inflação, já está em 4,85% no acumulado do ano, até agosto.

É certo que qualquer redução dos juros nesse momento teria reflexos sobre a inflação em 2003, pois as alterações nas taxas levam de quatro a seis meses para provocar impactos na economia. Porém, no próximo ano, a meta também é apertada, de 4% com margem de tolerância de 2,5 pontos percentuais para cima ou para baixo.

Impacto da Selic na economia e no mercado

Quando o Banco Central baixa os juros de um país ele devolve o dinheiro que estava parado em títulos da dívida pública do governo para movimentar a economia. Ou seja, como oferece um rendimento menor para quem aplica em sua dívida, acaba estimulando o investidor a pensar em formas alternativas – sempre mais trabalhosas e arriscadas – para ganhar dinheiro.

Os empresários então voltam a pensar em contratar pessoal para aumentar a linha de produção. O comércio e o setor de serviços faz o mesmo para oferecer novos produtos e aumentar assim a possibilidade de ganhos.

Os novos contratados passam a ter renda e podem, assim, consumir mais, aumentando a demanda.

Mas se a queda dos juros têm efeitos tão bons para a economia, por que o governo não reduziu antes a taxa? A pergunta tem três respostas básicas:

1) medo da inflação; com juro alto, o investidor deixa de consumir para guardar dinheiro;

2) necessidade de atrair dinheiro para financiar a rolagem da dívida pública – se não oferecer um bom juro quem vai querer emprestar dinheiro para o governo?

3) necessidade de atrair dinheiro estrangeiro; a política econômica brasileira sempre manteve juros altos para conter a fuga de divisas, como a que aconteceu pouco antes da desvalorização do real, no final de 1998. Com juro alto aqui, o ganho dos estrangeiros no Brasil se torna maior do que o obtido no exterior.

Mercados

Antes, porém, de afetar a economia real de um país, o corte de juros tem impacto imediato no mercado financeiro. Os principais são: derrubam os investimentos em títulos públicos (pois estão pagando menos); os papéis ficam mais baratos e o investidor pode ter inclusive rendimento negativo em suas aplicações; estimulam a procura por mais risco – e retorno -, como a bolsa e o mercado de câmbio.

Juros ao consumidor vão continuar elevados

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic – taxa básica referencial de juros da economia -, em 18% ao ano, porém sem o viés de baixa, não provocará alteração nas taxas de juros pagas pelo consumidor aos bancos, financeiras e lojas com vendas a prazo.

Especialistas do setor de crédito acreditam que haveria espaço para redução da Selic, o que sinalizaria a confiança do Banco Central (BC) na economia e ajudaria a reverter o quadro de recessão. Em relação às taxas das financeiras, embora a Selic tenha importância, os juros futuros são o fator determinante, explica o vice-presidente da Associação Brasileira de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), José Arthur Assunção.

Prova disso é que a queda da Selic em meses anteriores não se refletiu nos juros, uma vez que as instituições financeiras permaneceram com uma postura conservadora e não reduziram suas taxas. “Para a redução, o mercado futuro precisa aceitar a queda, não ocorre uma redução automática em função da decisão do Copom”, afirma Assunção.

As incertezas com o cenário eleitoral e a pressão sobre o dólar também são responsáveis pela postura conservadora das instituições financeiras.

Nos últimos dois meses, o custo médio do financiamento aumentou – de 8,08% em julho para 8,14% em agosto – e houve redução de prazos no crediário, de acordo com dados da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) . “O prazo no crediário diminuiu em um terço e os juros subiram, o que encareceu as prestações e afastou o consumidor”, afirma o vice-presidente, Miguel de Oliveira.

Para Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), como a economia está em recessão e o comércio não tem mais como reduzir margens, uma queda seria necessária para estimular a dilatação de prazo no crediário e incentivar o consumo. “Do contrário, os juros continuarão elevados e os prazos, muito curtos.”