Uma nuvem de gafanhotos que já atingiu lavouras no Paraguai e Argentina na terça-feira (23) pode chegar ao território brasileiro, ameaçando plantações e pastagens do Sul do país. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), o risco dos insetos chegarem até o Paraná é mínimo. Seria preciso ocorrer uma mudança muito brusca na rota dos gafanhotos. Atualmente, eles seguem em direção ao Uruguai e, no Brasil, seria mais provável uma passagem pelo Rio Grande do Sul. 

O pesquisador da área de entomologia do IDR-PR, Rodolfo Bianco, explica que as nuvens de gafanhotos se formam porque esses insetos costumam ficar juntos. “É comum a convivência com eles e há métodos de controle satisfatórios para evitar prejuízo nas lavouras. Dessa vez, por ocorrências do clima que favoreceram a multiplicação, houve um evento que chamou a atenção de todos, pela grande concentração. Mas, já desmentindo as fake news, não há nenhum castigo divino em andamento”, brinca o pesquisador.

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Bianco também aponta que já há um monitoramento no Rio Grande Sul e, dificilmente, os gafanhotos deixarão algum estrago se chegarem ao país. “Não creio que haja muita resistência dessa espécie aos agrotóxicos. Geralmente, são produtos de baixa concentração que já resolvem o problema, caso haja algum ataque às plantações”, disse. No entanto, ainda de acordo com o pesquisador, o melhor combate não são os pesticidas, mas o controle antecipado, quando os gafanhotos são jovens e ainda não voam. “Poderia ter ocorrido no Paraguai. Porém, é difícil prever que esse tipo de evento ocorreria”, apontou.

O professor Ângelo Parise Pinto, do Departamento de Zoologia da UFPR, explica que essa espécie causadora da imensa nuvem de insetos é a do gafanhoto migratório sul-americano (também Lagosta ou Langosta na adaptação para o espanhol do nome científico). Ao todo, no mundo, há seis mil espécies de gafanhotos, 20 delas com a característica migratória, com duas dessas últimas habitando a América Latina. “A explosão dessas nuvens acontece, com relativa frequência, no continente africano. Eles se alimentam de vegetais. Comem de tudo. Por isso, uma lavoura se torna um prato cheio”, revela o professor.

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Quanto a possíveis ataques aos seres humanos, Parise diz que a espécie não carrega doenças, não pica e não se alimenta de carne, por exemplo. “As nuvens não oferecem risco direto ao ser humano. Somente o indireto, com um possível impacto financeiro que os produtores possam sofrer. Mas, geralmente, é algo controlável”, afirma, lembrando que o convívio das pessoas com insetos é inevitável. “Os insetos são os mais bem sucedidos no planeta. De todas as espécies que vivem no mundo, 70% são espécies de insetos”, finaliza Parise.

Veja um dos vídeos da invasão


O gafanhoto conhecido como sul-americano tem como hábito a formação de massas migratórias e pode viajar até 100 km por dia. O monitoramento da terça-feira (23) apontava que os animais se concentravam na região argentina de Santa Fé, a 250 km da fronteira com o Rio Grande do Sul. A proximidade alertou autoridades brasileiras pelo Senasa (Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina).

Um mapa divulgado pelo serviço argentino mostrou áreas em que a nuvem poderia chegar. A fronteira oeste do Rio Grande do Sul foi demarcada como zona de perigo; parte da divisa entre o estado gaúcho e Santa Catarina e áreas do Paraguai que fazem divisa com Paraná são consideradas regiões de precaução.

O grupo destaca, porém, que a direção dos ventos e as condições climáticas favorecem o Brasil e levam a crer que a nuvem está se deslocando para o sul da Argentina e para o Uruguai. Técnicos do governo argentino detectaram que os insetos, de até 15 cm de envergadura, entraram no país pelo Paraguai, nas províncias de Formosa e Chaco, onde há produção de mandioca, milho e cana-de-açúcar.

Em uma das áreas, a nuvem de gafanhotos chegou a 10 km de extensão. Um quilômetro quadrado da nuvem comporta ao menos 40 milhões de bichos. Eles podem comer pastagens em apenas um dia: o equivalente ao alimento de 2 mil vacas.


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