A classe empresarial tem imensa responsabilidade no sentido de contribuir para que a economia brasileira fique imune aos efeitos psicológicos dos temores difundidos na campanha eleitoral e a qualquer prejulgamento do governo do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Resultado das eleições à parte, a situação da economia nacional é, de fato, muito desconfortável. O calcanhar – de aquiles de nossas desventuras expressa-se numa equação de fácil leitura: entre 1994 e 2002, a dívida externa aumentou de US$ 150 bilhões para US$ 240 bilhões. O estoque líquido da dívida pública saltou de 35% para 54% do PIB, desde o lançamento do Plano Real. Quase 30% da dívida federal estão indexados ao dólar, ou seja, há sensível vulnerabilidade ao fluxo de capitais. Ou seja, o governo que termina não realizou política econômica, mas um programa financeiro antiinflacionário.

Com ou sem Lula eleito, essa bomba monetária estaria explodindo no cenário econômico nacional, num atentado contra os setores produtivos. O propalado medo de Lula, porém, pode potencializar os efeitos destrutivos desse artefato de efeito retardado, acrescentando-lhe os agravantes da fuga excessiva de capitais, uma insensata corrida aos bancos, a paralisação de investimentos e a estagnação dos mercados. Assim, é preciso continuar trabalhando firme, mantendo a crença na viabilidade desta terra de dimensões continentais e abundantes dádivas climáticas, minerais e agropecuárias e acreditando que a democracia é o caminho mais adequado para que a humanidade aproxime-se do ideal de desenvolvimento com justiça social.

Caso a classe empresarial brasileira encampe o terrorismo difundido por alguns durante a campanha eleitoral, terá imensa parcela de responsabilidade num eventual processo de naufrágio da economia. É preciso respeitar os resultados das urnas. Na prática, isto também implica manter o compromisso de quem empreende com o sucesso de seu próprio negócio, com o futuro de seus familiares, de seus colaboradores e de seu país. Não se pode encarar o resultado da eleição como se, a partir de janeiro de 2003, o Brasil fosse ingressar num novo regime de governo, sem Constituição, sem leis, normas e o equilíbrio dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Além disso, não se pode prejulgar o governo Lula. Até prova em contrário, o seu programa é o que apresentou à sociedade durante a campanha. E esse programa, em síntese, propõe o crescimento sustentado da economia, a redução da dívida social, a desoneração das atividades produtivas, reformas tributária e fiscal e combate duro à criminalidade. Ou seja, tudo o que os empresários e trabalhadores têm defendido nos últimos anos.

O programa de Lula é semelhante ao de seu adversário no segundo turno, José Serra, a exemplo, aliás, do que apresentaram Ciro Gomes e Garotinho. Os problemas da economia nacional e o cenário da globalização, que exige do Brasil e das nações emergentes implacável aumento de produtividade em todos os setores econômicos, tornam compreensível a convergência da retórica eleitoral que pontuou a campanha à Presidência da República. A coincidência do discurso e as mais inusitadas coligações e apoios políticos, que seriam considerados impossíveis há poucos anos, demonstram que estamos muito distantes de qualquer choque heterodoxo ou social na economia brasileira.

Em síntese, Lula defendeu na campanha, como seus adversários, a redução dos custos da produção, representado especialmente pelo acesso ao capital (pois aqui se paga a mais alta taxa de juro do mundo) e pelos impostos, taxas e encargos. Apenas para conferir: a TJLP, de 10%, e a taxa Selic, de 21% ao ano, são de cinco a dez vezes maiores do que os juros básicos dos Estados Unidos, aquele país ali do Hemisfério Norte, que detém um terço do PIB mundial e com o qual estaremos competindo de peito aberto, a partir de 2006, no âmbito da Alca…

Ou seja, o Brasil e sua classe produtiva (empresários e trabalhadores) não podem dar-se ao luxo do medo e de expectativas preconceituosas com relação ao novo governo. Mais do que nunca, é hora de trabalhar e contribuir para o crescimento econômico e a solução dos problemas nacionais. Promessas de campanha não cumpridas e eventuais medidas negativas não explicitadas no programa de governo são componentes do jogo político entre o governo e a sociedade, que se decide nas urnas a cada quatro anos. Assim é a democracia, único sistema político viável para o avanço material e social da humanidade, considerando-se que as ditaduras, inclusive as do proletariado, sempre tiveram desfecho catastrófico para as nações que atentaram contra os direitos individuais e coletivos de seus cidadãos.

Mário César de Camargo

é empresário gráfico, administrador de empresas e bacharel em Direito, é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica.