Exatamente um ano após a confirmação da ocorrência dos focos de febre aftosa no município de Eldorado (RS), o Brasil ainda sofre a restrição nas importações de carnes por parte de 57 países, entre os quais os 25 membros da União Européia (UE). A maior parte desses importadores não relaxou as restrições. A Rússia, maior comprador da carne brasileira, só voltou a comprar carne do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, São Paulo e Goiás. A UE mantém embargos contra São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul e já deu a entender que não voltará a comprar carne desses Estados tão cedo.

O comissário para Saúde Animal e Proteção ao Consumidor da UE, o grego Markos Kyprianou, que nesta semana visitou autoridades sanitárias em Brasília, exigiu que o Brasil melhore ações, como a rastreabilidade do gado bovino, até março de 2007. No início do próximo ano, os rebanhos e frigoríficos brasileiros passarão por novas inspeções de técnicos europeus. Se o Brasil não provar o cumprimento das normas, as exportações para o bloco estarão sujeitas a novas barreiras.

Embora as vendas de carne bovina tenham crescido em receita e volume neste ano, é consenso entre produtores e indústria que o resultado teria sido muito melhor sem a aftosa. "Houve retrocesso nas negociações com países importantes, como os Estados Unidos, para onde se pretendia exportar carne in natura" afirma Geide Figueiredo, da FNP Consultoria. Os Estados Unidos são os maiores compradores de carne industrializada do Brasil, mas não compram carne in natura.

Projeção da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) indica que a receita das exportações do produto deverá crescer 14,35% para US$ 3,6 bilhões neste ano, ante US$ 3 148 bilhões em 2005. Entre 2004 e 2005, o crescimento da receita foi bem maior: 26%. "Os embargos frearam o crescimento das exportações brasileiras", afirma Figueiredo. Ele observa que, sob certa perspectiva, o Brasil teve "sorte" porque a aftosa ocorreu no momento em que os principais concorrentes restringiam suas exportações e havia forte demanda pelo produto no mercado internacional.

Os Estados Unidos enfrentam embargos por causa de dois casos de vaca louca, a Argentina restringiu as exportações para controlar a inflação e a Austrália teve forte redução do rebanho bovino provocada pela estiagem. Uruguai e Paraguai não têm oferta suficiente para abastecer o mercado. A falta de fornecedores fez subir os preços da carne bovina, o que se traduziu em crescimento de 17,58% na receita das exportações brasileiras de janeiro a setembro, para US$ 2,79 bilhões, segundo a Abiec.

Aos poucos, alguns países têm flexibilizado o embargo, como é o caso da Rússia. Em abril, o governo russo autorizou as importações de carne bovina do Rio Grande do Sul, em agosto foi a vez de Mato Grosso e, no último dia 5, liberou as compras de São Paulo e Goiás.

As vendas para aquele país podem aumentar ainda mais até o fim do ano por causa da redistribuição de parte das cotas de exportação da UE. De acordo com o diretor-executivo da Abiec, Antonio Camardelli, os europeus não terão condições de exportar carne bovina para a Rússia este ano e devolveram cotas no total de 238 mil toneladas. Para Camardelli, o Brasil tem boas chances de ficar com a maior parte do volume porque Austrália, Argentina e EUA estão praticamente fora de cogitação. "Os importadores terão de usar as cotas até o fim do ano sob o risco de vê-las diminuídas em 2007.