Brasília – O presidente do PSDB, José Serra, disse ontem que a decisão da base aliada e do presidente do Senado, José Sarney, de não indicar os integrantes da CPI dos bingos, tira da minoria no Congresso o direito de instalar uma comissão parlamentar de inquérito.

Segundo ele, a decisão desrespeita direito garantido na Constituição, que determina que uma CPI deve ser instalada quando um terço dos parlamentares de uma das Casas do Congresso assina o requerimento de instalação. Segundo José Serra, partindo do princípio adotado pelo governo, nunca mais haverá uma CPI no país.

“A Constituição assegura que pelo menos um terço dos deputados ou senadores tem esse direito. Na medida em que se dá a interpretação de que a maioria pode impedir isso, não tem mais CPI no Brasil e o PSDB é contrário a essa interpretação”, afirmou. Perguntado se Sarney estava cumprindo a Constituição, Serra limitou-se a responder: “A maioria do governo e a mesa do Senado”.

Segundo o presidente do PSDB, a nota divulgada pelo PT na semana passada foi mais uma demonstração de inabilidade política do partido. Serra disse que o PT segue a experiência da ditadura militar e culpa a oposição e a imprensa pela repercussão do caso Waldomiro Diniz, ex-assessor do Palácio do Planalto. “Seguindo a experiência da ditadura, põe a culpa de tudo o que está acontecendo na imprensa e na oposição. A imprensa e a oposição é que são culpadas pelo episódio Waldomiro e outros, não é o PT, e o próprio Waldomiro e as próprias pessoas que a ele delegaram tanta confiança. Essa é uma maneira de encarar as coisas que a gente estava acostumada na ditadura, e não na democracia. Em segundo lugar, o que parece é que há uma vontade de substituir a crise política pela crise econômica, na medida em que se procura desviar a atenção da crise política a partir de observações que do ângulo do governo só desestabilizam mais a economia”, afirmou.

Perguntado se o PSDB se sente atingido com a expressão “a oposição namora com o perigo”, dita pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, em entrevista à revista Veja, Serra disse que a declaração é absurda e que a tentativa de culpar a oposição pelas denúncias envolvendo Waldomiro é patética.

O presidente do PT, José Genoino, reagiu ainda ontem à nota divulgada pela Executiva do PSDB, que critica a estratégia do governo para barrar a CPI dos bingos e afirma que o direito constitucional da minoria estaria sendo desrespeitado pela decisão da base aliada de não indicar seus representantes na CPI.

Waldomiro andava cheio de dinheiro

Brasília – O ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz negociou em 2002 a compra do apartamento de quatro quartos onde mora com a família, na Asa Sul, em Brasília, e pagou em dinheiro vivo. Segundo O Globo, ao vendedor do apartamento disse que estava negociando em nome da sogra, Maria do Carmo de Camargo Ciucci. O advogado Carlos Norberto de Souza Lambach, que vendeu o imóvel, contou que o negócio foi fechado em março de 2002 por R$ 290 mil. Segundo Lambach, Waldomiro, que, na época, presidia a Loterj, pediu para pagar em três vezes. Até ontem o imóvel não foi passado para o nome de Maria do Carmo. Ela tem apenas uma procuração, registrada em cartório, que lhe permite cuidar do imóvel em favor dos dois netos.

A Polícia Federal (PF) ouvirá hoje uma testemunha considerada importante nas investigações em torno da suposta relação entre o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz com o suposto bicheiro Carlos Augusto Ramos, o “Carlinhos Cachoeira”. Amanhã, a PF ouvirá o diretor de Marketing da Gtech, Marcelo Rovai, e o ex-presidente da empresa Antônio Carlos Rocha Lino, sobre a renegociação do contrato feito com a Caixa Econômica Federal (CEF) para o fornecimento de equipamentos de loterias. A suposta intermediação de Diniz na negociação em favor da Gtech é mais uma linha de apuraçãoda PF dentro da investigação que, apesar de ter sido aberta há quase um mês, está quase parado.

Desde a semana passada, o delegado Antônio César Nunes, que preside o inquérito, tinha certeza de que não teria avanços na apuração do caso e, por isso, mudou o direcionamento da apuração. O foco das investigações voltou-se para os autores das gravações, feitas em 20 de maio de 2002, e para a renegociação do contrato da Caixa com a Gtech.