Músicos, atores, intelectuais e autoridades negras foram convidados pela Agência Brasil a avaliar o significado do Dia da Consciência Negra para o combate às desigualdades raciais no país.

Eles comentam a situação do negro no Brasil e acreditam que a data ajuda a população afro-descendente a se reconhecer como parte importante da formação e da história do Brasil.

Na opinião do ator Milton Gonçalves, a imprensa e a sociedade não deveriam se preocupar em ouvir o negro somente no dia 20 de novembro mas promover os avanços necessários a esse segmento da população, como por exemplo, o reconhecimento das terras quilombolas, durante o ano todo.

“Eu gostaria que no ano que vem a gente não estivesse tão preocupado com o 20 de novembro, mas que pudéssemos festejar, homenagear algum progresso. Ainda está no Congresso a posse definitiva das terras daqueles que estão nos quilombos, isso vem sendo adiado sempre e não acontece absolutamente nada”

O ator lamentou o fato de que os negros correspondem “a metade da população do Brasil, mas não têm, por correspondência a metade do que é produzido no Brasil” e afirmou estar decepcionado com a falta de mudanças

“Isso me deixa muito angustiado, porque será que eu vou para o “andar de cima” sem poder notar, de maneira nenhuma, alguma uma melhoria na situação do negro? Ultimamente tem-se falado e elogiado muito a eleição do Barack Obama nos Estados Unidos. Lá, o negro representa 12% da população. Aqui, nós somos mais da metade. Onde está o nosso Barack Obama? Essa é a minha dúvida. Não estou amargurado, estou apenas decepcionado porque, entra ano e sai ano, a gente não vê um saldo qualitativo, a gente não vê absolutamente nada”.

Para o cantor Martinho da Vila, o dia 20 de novembro é importante porque homenageia Zumbi dos Palmares, segundo ele, um herói nacional no mesmo nível de Tiradentes e que agora está sendo reverenciado.

“É um dia de reflexão, por isso, fala-se que é o Dia da Consciência Negra. Mas, acima de tudo, é o dia de Zumbi dos Palmares. Eu prefiro até dizer que o 20 de novembro é o dia da consciência racial, porque não é uma causa só dos negros.

Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, considera a data justa. “Num país como o Brasil, que teve 400 anos de escravidão, é lógico que depois de cento e poucos anos o negro está em uma situação pior. Tem pouco acesso a todos os bens, sejam materiais, culturais ou educacionais, então esse dia marca, na vida do Brasil, essa luta do negro para conseguir ter acesso ao que o resto da sociedade tem.”
A atriz Zezé Motta avalia o Dia da Consciência Negra como a expressão máxima da luta do negro no Brasil “pela sua dignidade, pelo seu espaço, pelos seus direitos.”

Para ela, apesar de avanços em algumas áreas, ainda é necessário lutar muito para resolver questões como o salário e e a saúde população negra.

“As pessoas sempre me perguntam se eu acho que as coisas melhoraram desde o início do movimento negro. E da nossa luta para cá as coisas estão mudando devagarinho. Por exemplo, no caso da mídia, a gente já vê no horário nobre a distribuição dos papéis nas novelas, a gente já percebe uma preocupação dos autores em diversificar os papéis dos negros. Então a gente já avançou, já temos conquistas, mas ainda temos muita luta pela frente. A questão do salário do negro que é mais baixo, a questão da atenção de saúde da população negra”.

Ao falar dos avanços, Zezé lembrou de mudanças ocorridas na publicidade contando uma situação vivida por ela na década de 60.

“Hoje você já vê negro fazendo publicidade de produtos diversos que a gente podia nem sonhar em alguns anos atrás em ver um negro fazendo publicidade de celular, de jóias, de tecido. Aliás, há 40 anos atrás eu fiz uma foto para uma loja de tecidos que foi recusada pelo cliente dizendo que a clientela dele era de classe média e não aceitaria sugestões de uma negra.”

Para o ministro do Supremo Tribunal Justiça, Benedito Gonçalves, a data é um modo de unir as pessoas da raça negra e mostrar aos outros “que é possível chegar lá”, desde que eles tenham elevadas a auto-estima e a ousadia. Segundo o magistrado o momento de preservação da dignidade da pessoa humana, de igualdades de direito inaugurado com Constituição de 1988 é um dos fundamentos para que os negros possam pensar “eu posso vencer”.

“Ao deficiente físico falta alguma coisa, falta um braço, uma perna, um olho e ele com a perseverança, com ousadia e auto-estima alta, entra por exemplo naquela cota de concurso e passa. E a questão do negro, o que falta? Ele tem braço, perna, inteligência, olhos. O que falta a ele é exatamente isso ter momentos como esse para sentir a auto-estima elevada, apresentar-se à sociedade”.

Gonçalves fez questão de ressaltar que não é sua posição de destaque que o habilita a pensar dessa forma e defendeu o papel do Estado no combate a desigualdade racial.

“Alguém me disse que para mim é fácil falar isso, porque sou ministro do Superior Tribunal de Justiça, mas eu não comecei pelo teto, comecei pelo piso. É preciso também que haja um incentivo do Estado, que hoje está muito consciente desse papel, seja apoiando os movimentos negros ou colocando na legislação essas proibições de desigualdade”, afirmou o ministro que nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro.