Brasília (AE) – Foi uma polêmica só. Até mesmo no governo as afirmações do novo presidente do PT, Ricardo Berzoini recomendando o fim da hipocrisia quando o assunto é caixa 2 de campanhas eleitorais, provocaram reações nervosas. "Eu acho que é um exagero dizer que a prática do caixa 2 não acaba enquanto não houver financiamento público de campanha", disse o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Jaques Wagner, filiado ao PT. "Essas coisas não se contrapõem."

Em entrevista distribuída ontem (12) pela AGÊNCIA ESTADO Berzoini afirmou que se os políticos não enfrentarem esse problema, recursos "não-contabilizados" continuarão a abastecer a próxima eleição, tanto no PT como em outros partidos. No seu diagnóstico, somente quando as regras do jogo forem mudadas – e for adotado o financiamento público, com voto em lista para formar as bancadas parlamentares -, o caixa 2 deixará de ser prática comum.

Na tarde de hoje (13), em sua primeira coletiva como presidente do PT, Berzoini voltou ao assunto: defendeu a aprovação do financiamento público ainda este ano, para valer na disputa de 2006. "O ideal seria um acordo no Congresso", insistiu o deputado. Berzoini definiu o caixa 2 como uma ilegalidade "relativamente simples" de ser praticada e cobrou maior aparelhamento da Justiça para fiscalizar as prestações de contas dos candidatos.

Jaques Wagner lembrou, porém, que não há consenso para aprovar agora uma ampla reforma eleitoral. "O máximo que se pode conseguir hoje é a limitação de gastos de campanha", argumentou. O ministro disse também ser favorável ao tipo de financiamento defendido por Berzoini porque, na sua avaliação, diminuiria a desigualdade entre os concorrentes. Ressalvou, no entanto, que se o sistema de fiscalização não for aprimorado, não se deve alimentar ilusões.

"Mudar a Lei Eleitoral e dificultar a circulação de dinheiro não declarado é uma necessidade que se impõe", observou Wagner. "Mas não devemos depender disso para acabar com o caixa 2, até porque quem quer driblar a lei pode fazer caixa 2 com financiamento público também."

Nas fileiras da oposição, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse que o governo e o PT preparam o caminho para que os deputados petistas envolvidos no escândalo do ‘mensalão’ renunciem ao mandato e saiam candidatos em 2006. Virgílio criticou a defesa que Berzoini faz dos companheiros ao declarar que "não há provas" de que eles embolsaram o dinheiro supostamente arrecadado para as campanhas.

"A Comissão de Ética do PT entrou em recesso. O PT agora admite tudo: de estupro a assalto a banco", provocou Arthur Virgílio. O líder do PSDB repetiu ainda que os petistas estão tentando confundir a opinião pública sobre as investigações para transformar o caso em pizza. "Querem a pizza para proteger o chefe de tudo, que é o presidente Lula", afirmou.

Para o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), Berzoini deveria se preocupar em recompor o PT ao invés de partir para o bombardeio. "O PT não pode achar que essa estratégia de dizer que o ‘mensalão’ é caixa 2 vai funcionar", comentou Paes. "Não sei o que precisamos encontrar mais: o empresário Marcos Valério é agenciador, o tesoureiro Delúbio é amigo do presidente e distribuidor de recursos e há parlamentares envolvidos. Precisa mais?".