Cerca de 20 mil servidores, segundo
a PM, atacaram o governo de Lula.

Brasília – O ato convocado por servidores públicos contra a reforma da Previdência, que aconteceu ontem em Brasília, reuniu cerca de 20 mil pessoas, segundo cálculos preliminares da Polícia Militar. A organização do evento contabilizou 40 mil manifestantes. Os protestos se dirigiram principalmente contra a taxação de servidores inativos – em 11% sobre o que exceder aposentadorias no valor de R$ 1.058,00 -, o aumento do tempo de serviço para um funcionário se aposentar e a criação de um teto para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), de R$ 2.400,00.

A “Marcha contra a Reforma” – primeiro grande ato contra o governo em Brasília -partiu da Catedral da cidade, seguindo pela Esplanada dos Ministérios, até ao Palácio do Planalto. A organização preparou diversas frases e cantos contra a reforma, ironizando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Ô, Lulinha onde vai você? Foi copiar FHC!”, “Quando eu cantava o Lula-lá nunca pensei que fosse protestar”, “Lula, mude de lado! Escolha o povo e não o capital” e “Não à reforma, queremos nos aposentar vivos!” foram algumas delas. Um dos carros de som também estampava um grande adesivo com a frase “Agora é Luta”, parafraseando o slogan de campanha “Agora é Lula”.

As principais entidades que promoveram o protesto foram a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato dos Servidores da Previdência (SindiPrevi), Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e Federação de Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades de Brasileiros (Fasubra).

Vaiado e cuspido

O líder do PT na Câmara, Nelson Pellegrino (BA), foi vaiado e cuspido durante manifestação organizada pelos servidores públicos contra a reforma da Previdência, enquanto a senador Heloísa Helena (AL) foi exaltada.

Pellegrino tentou em vão levar o seu apoio aos servidores públicos. Ele foi vaiado o tempo todo. “Pelego”, “traidor”, “moleque de ACM”, “você vai usar Armani o resto da vida ou vai defender os nossos direitos?”, foram algumas das agressões dirigidas a Pellegrino por parte dos manifestantes. Alguns chegaram a arremessar garrafas de plásticos contra o petista. “Essa é a primeira vez em 18 anos de atividade sindical que sou vaiado pelos servidores”, disse o parlamentar. “Eu defendo o direito de manifestação”, completou, ao admitir que o movimento só servirá para radicalizar o processo das reformas.

Presidente da CUT

Os servidores também não pouparam o novo presidente da CUT, Luiz Marinho. Ele foi tão vaiado, que praticamente não foi ouvido pela maior parte dos 20 mil manifestantes, tendo de encerrar seu discurso em menos de dois minutos.

Sob gritos de “pelego”, o líder sindical tentou acalmar os ânimos. “Não venho como amigo do Lula”, ressaltou. “Não estou entendendo a posição desses companheiros”, lamentou. Sem conseguir colocar a posição da CUT contra a reforma do governo, Marinho acabou sua fala conclamando que os “companheiros do PSTU” parassem com o comportamento que estavam tendo porque isso “não ajuda a classe trabalhadora”.

Radicais do PT

Os discursos dos quatro radicais do PT – a senadora Heloísa Helena (AL) e os deputados federais João Batista de Araújo, o Babá (PA), João Fontes (SE) e Luciana Genro (RS) – foram ouvidos e bem-recebidos. Heloísa Helena foi a mais aplaudida. Ela mereceu a faixa: “Tem homem com H e tem mulher com dois: Heloísa Helena”.

Segunda a senadora, a reforma “só atende aos gigolôs do FMI, aos parasitas das grandes corporações e aos banqueiros internacionais”. Ela disse que “os filhos da elite econômica” não se importam com a reforma porque não precisam de servidores nos hospitais e escolas públicas.

Genoíno diz que povo entende

Brasília – O presidente do PT, José Genoino, disse que o povo brasileiro está entendendo e concorda com a necessidade de fazer a reforma da Previdência, especialmente para incluir mais de 20 milhões de pessoas no sistema previdenciário. Mas afirmou que há servidores defendendo os seus direitos, um direito legítimo. “Vamos ter conflitos porque não podemos atender a todos as reivindicações dos servidores. É da democracia o conflito.”

Genoino garantiu que tem conversado com servidores e colocado que é legítimo a defesa dos interesses, mas que “não vai permitir agressões ao PT.” “Eu cuido do PT em nível nacional. O importante é o voto do PT para aprovar a reforma na Comissão Especial da Câmara e vamos aprovar no Senado.”

Sindicalistas apontam para greve

Brasília – Na saída do encontro dos sindicalistas com os ministros, o movimento sindical mostrou uma convergência e uma divergência. A convergência é que os representantes dos trabalhadores consideraram a reunião com o governo importante politicamente, porque instaura o diálogo. Mas todos afirmaram que, na prática, esse diálogo não avançou em nada, porque os ministros deixaram claro que a responsabilidade sobre a negociação é do Congresso.

Mas o presidente da CUT, Luiz Marinho, e o vice-presidente da Associação Nacional dos Servidores (Andes), José Domingues Godoy Filho, discordaram sobre a necessidade de os servidores públicos entrarem imediatamente em greve. Sentado ao lado do representante da Andes, Marinho foi enfático ao dizer que considera precipitada tomar uma decisão de greve imediatamente.

Já Godoy disse que no sábado haverá uma plenária dos servidores públicos na qual será decidida a proposta de greve. “São feitas assembléias na base de cada categoria e, se as entidades decidirem fazer a greve, ela será feita independentemente da CUT”.

Proposta permanece inalterada

Brasília

– Mesmo com a ameaça de greve geral dos servidores públicos federais, o governo garante que não haverá alterações nos pontos principais da reforma da Previdência. O secretário-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci, afirmou que alguns pontos, não enumerados por ele, são fundamentais para a “identidade” da reforma e, por isso, não há possibilidade de alterações. “Mudanças que desfiguram as reformas o governo não aceitará”, garantiu. “A decisão do governo de fazer as reformas é inabalável. O governo não teme essa paralisação”, completou.

Por outro lado, a manifestação certamente influenciará em eventuais mudanças no texto da reforma da Previdência Social que tramita na Câmara. A avaliação é do presidente da Casa, João Paulo Cunha. Para ele, qualquer mobilização apresenta uma parcela de cidadãos com idéias e sugestões. “Claro que tem uma certa força, vamos ver qual é o tamanho dela”, afirmou. O presidente da Câmara considerou a manifestação “animada e parte do jogo democrático”.