Brasília – O pouso de um avião militar francês em solo brasileiro na semana passada acendeu o estopim que pode detonar as relações diplomáticas entre Brasil, Colômbia, França e, eventualmente, os EUA. A revista “Carta Capital” desta semana revela que um Hércules C-130 pousou no aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, com um grupo de militares e diplomatas franceses sem aviso prévio ao governo brasileiro. A revista, apurou que o grupo participava de uma tentativa de resgate da senadora Ingrid Betancourt, candidata a presidente da Colômbia que foi seqüestrada pelos guerrilheiros das Farc em fevereiro de 2002. Ingrid tem cidadania francesa.

O resgate, intermediado pela irmã da senadora, Astrid Betancourt, não se consumou, apesar de uma parte dos franceses ter ido até a fronteira do Brasil com a Colômbia, fretando um táxi-aéreo até São Paulo de Olivença (AM). O governo da França negou a intenção de resgatar a senadora e disse que o avião participava de uma missão humanitária. Mas muitos mistérios permanecem. Ao serem abordados pela Polícia Federal brasileira que queriam inspecionar o avião, os franceses alegaram imunidade diplomática e impediram o acesso dos policiais brasileiros ao interior do Hércules, uma enorme aeronave capaz de transportar centenas de soldados e equipamento militar pesado. Também não há uma explicação de por que o avião pousou em Manaus antes de se dirigir para Caiena, na Guiana Francesa, se esta está mais próxima do ponto de origem da aeronave, a França, do que a cidade brasileira. É mais ou menos como ir de Paris a São Paulo fazendo escala em Buenos Aires. Tampouco há uma explicação convincente para o avião não ter respeitado as convenções e pousado em uma base militar brasileira. Em vez disso, o pouso foi feito em um aeroporto civil, junto ao hangar da Rico Linhas Aéreas, que alugou uma pequena aeronave para os franceses voarem até as proximidades da fronteira brasileira com a Colômbia.

O Congresso brasileiro, através da Comissão de Relações Exteriores do Senado, deve pedir esclarecimentos ao Itamaraty. O presidente da comissão, senador Eduardo Suplicy (PT-SP), disse que há que se considerar o lado humanitário, que envolve a eventual libertação de uma pessoa seqüestrada há um ano e meio. Porém há um problema de soberania. O Brasil pode ter entrado nessa história como Uganda no resgate por soldados israelenses em Entebe na década de 70.

Por fim, se a hipótese de resgate se confirmar, resta uma questão espinhosa em aberto: o que a Farc exigiu para libertar a senadora que seria tão volumoso e/ou perigoso para ser transportado em um avião militar do porte de um Hércules C-130? A resposta pode desagradar o governo colombiano, mas, principalmente, os EUA, determinados a combater o narcotráfico e os guerrilheiros das Farc.