Lisboa

– No esforço de garantir a políticos e investidores estrangeiros que o Brasil continuará tendo a partir de janeiro as mesmas condições atuais, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem, em entrevista ao jornal português “Diário de Notícias”, que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, “não é nenhum ferrabrás” (radical, na explicação de FHC; fanfarrão, segundo o “Novo Dicionário Aurélio). Convicção que Fernando Henrique sustenta ter a respeito de Lula e não exatamente em relação ao PT, como deixou claro posteriormente em entrevista a jornalistas brasileiros.

“Eu acho que o instinto básico dele (Lula) nunca foi de ferrabrás. Não diria o mesmo do partido. Mas o dele nunca foi”, disse o presidente, esclarecendo porque acredita que o novo governo não promoverá nenhum tipo de ruptura: “Decorre (minha convicção) de duas coisas. Uma da força das instituições brasileiras. E, outra, do comportamento dele (Lula), não de interpretação minha.

Ele tem tido um comportamento responsável.” O presidente explicou que tem respondido com a mesma convicção a respeito do seu sucessor quando indagado por políticos, empresários ou jornalistas em sua primeira viagem ao exterior depois das eleições no Brasil. “É neste contexto que digo que as declarações que tenho ouvido do Lula não são declarações para assustar aqueles que temem esse tipo de atitude.”

O próprio Fernando Henrique traduziu o que quis dizer ao usar a expressão “ferrabrás”: “Alguém que vai ter uma atitude assim, radical, violenta, que vai tomar decisões mudando tudo de repente, castigando.” Na entrevista aos jornalistas brasileiros, ontem à tarde, antes de participar de mais um ato do setor empresarial em sua homenagem, o presidente Fernando Henrique comentou ainda a promessa do MST de promover novas invasões antes da posse de Lula.

Disse que a eventuais invasões o governo dará o mesmo tratamento que vem dando, mas lembrou: “Eu só tenho um mês de governo. Pobre é quem vai ter mais quatro anos, que vai ter que se haver com o MST e não eu.” O presidente não quis também avaliar se o MST, um aliado tradicional do presidente eleito, ou o próprio PT poderiam prejudicar o novo governo com atos mais radicais. “Não quero prejulgar, não sei como vai ser o comportamento. Por enquanto, quem tem feito declarações é o presidente Lula. Não ouvi declaração, tão pouco do partido, que fosse discrepante das declarações do Lula. Eu tenho que fazer a aposta pelo melhor e não pelo pior.”

Mas recomendou que, no exercício do cargo, o novo presidente faça distinção entre os interesses da sociedade como um todo e os do seu partido. “Eu acho que o presidente precisa se separar, em certas circunstâncias, dos interesses partidários. Quem é eleito presidente, é presidente de todos os brasileiros e não de um segmento”, disse FHC.