Boicote à Coca-Cola e ao Mac Donalds para quebrar a máquina de guerra americana. Na visão do movimento pacifista, franquias da indústria alimentícia e tanques são conseqüência e causa da guerra no Iraque. A maconha e a violência urbana não têm nenhuma relação. As marchas pela paz que tomaram conta das grandes cidades brasileiras, em sua imensa bondade, também choram as vítimas iraquianas e em um raciocínio bastante esperto pedem a resistência do povo iraquiano e de seu líder contra os americanos e ingleses. Certo. Eles que estão na frente dos tanques e marines bem armados , tomando bomba na cabeça que resistam. Nós, que estamos aqui, aplaudimos os heróis. Pensando assim, os civis que recepcionaram as tropas da coalizão e faziam questão de destruir tudo que lembrasse o regime deposto são traidores de Saddam. Fracos que se renderam e não lutaram até o fim contra o monstro imperialista. O time do pela paz também só parece entrar em campo quando tem americano no jogo. Os interesses econômicos e políticos nas balcãs mataram 200 mil pessoas e deixaram mais um milhão de refugiados depois da segunda guerra mundial. A intervenção russa na Chechênia fez 30 mil vítimas em dois anos de conflito e, no melhor estilo Stálin de lutar, o exército de Yeltisn soltou bomba em cima de rebeldes e de civis, sem muita distinção. Um dia de batalha tribal no Congo fez mais de mil mortos e um sem número de feridos segundo agências internacionais. O conflito já teria matado mais de 50 mil pessoas e promovido o deslocamento e fuga de outras 500 mil que estão fadadas a morrer nos campos de refugiados de disenteria, aids, ebola e toda sorte de doenças. O assassinato de centenas é um crime. O assassinato de um só também o é. Mas, em tempos de contagem de corpos, a matemática é desigual. Entre mil e mil e quinhentos civis morreram no Iraque durante 20 dias de guerra. Um só dia de briga do Congo fez o mesmo estrago. Isso sem falar de Ruanda e Uganda, onde o extermínio tribal não é menor. ONU, chefes de Estado e aí se inclui Bush, Blair, Chirac, Putin, Schröder e Lula e até a maioria da imprensa não costumam comentar o assunto. Croácia, Bósnia, Chechênia e Congo. Sem mídia e sem bandeiras para queimar, pedir paz não tem a mínima graça.

Em tempo: Até o nobel José Saramago se manifestou enquanto mídia e governo brasileiro praticamente silenciaram sobre o extermínio de opositores ao regime de Fidel em Cuba. Exceção ao ilustre professor Emir Sader, mestre e doutor em Ciência Política pela USP, articulista de Caros Amigos e da Agência Carta Maior. Pacifista de carteirinha, Sader mostrou-se surpreso com a indignação de Saramago. “A atitude de Saramago dá a impressão que fosse algo novo no comportamento do governo cubano. Pode-se perfeitamente discutir e condenar, mas não considerar que seja um elemento novo, que justificasse uma mudança de atitude em relação a Cuba, porque nesse aspecto o governo cubano foi sempre coerente com sua atitude.” Certo. Nenhuma surpresa, o comandante fuzila mesmo sem dó nem piedade, com o amém das pombinhas da paz.

Guilherme Voitch é repórter de O Estado (guilherme@pron.com.br)