Perdemos a prática de distinguir juros nominais dos reais. Com correção monetária ou sem ela. Mas a correção, não obstante escondida, existe. É o caso da taxa de juros, que, quando nominal, inclui essa correção, ou seja, o valor para cobrir a inflação. E quando real, a exclui, mostrando um número menor e, sem dúvida, mais desejável. O ministro-chefe da Casa Civil, todo-poderoso José Dirceu, disse que uma taxa civilizada de juros reais (descontada a inflação), seria de 3% a 6%. “O problema – disse ele – é muito simples, infelizmente, e trágico. Arrecadar R$ 405 bilhões em impostos, que são 33% do PIB, é uma barbaridade. Nós temos de pagar juros da dívida interna. Para resolver o problema do superávit fiscal, nós temos de reduzir os juros cada vez mais, até entrar em um juro real civilizado, que é um juro de 3%, 4%, 5%, 6%, dependendo das condições internacionais e da força do País.” E explicou que “a busca de um juro real de 6% a 8%, para liberar os recursos orçamentários, a fim de dar condições de o País crescer, e toda a construção que estamos fazendo para reorganizar o sistema previdenciário e tributário, e para regular os setores de infra-estrutura, são fundamentais”. O Brasil, na opinião dele, viciou uma camada importante da população em viver de renda, com taxas de juros (reais) de 13%, 15%.

Ele anuncia mais uma queda de juros ainda para este mês de dezembro e, depois de alguns raciocínios sobre a urgência das mudanças econômicas, disse que “as necessidades sociais não são compatíveis com as restrições econômicas”.

Como notícia, a de que haverá nova queda de juros neste mês, é excelente. Dirceu lembra que quando o PT assumiu os juros estavam em 25% ao ano. Subiram para 26,5% e agora estão em 17,5%. “E ainda devem baixar em novembro e dezembro, quando teremos reuniões do Copom”, declarou equivocadamente, pois novembro já passou e naquele mês houve uma queda de 1,5%. Só nos resta dezembro, com reunião do Copom, e lembremo-nos que na última os juros baixaram, mas sem viés de baixa. Se cai de novo, é uma incógnita.

Mas algo trabalha contra mais uma nova baixa dos juros básicos, neste final de ano. É a inflação, controlada talvez, mas ainda viva e acima do que foi acordado com o FMI. A inflação em novembro, medida pelo IPCA, foi de 0,34%. Em outubro tinha sido menor, de 0,29%.

No ano, o IPCA acumula alta de 8,74%, superando a meta ajustada do Banco Central para a inflação anual, de 8,5%. E ainda não terminamos 2003. Trata-se do terceiro ano seguido que o País não consegue cumprir a meta. Nos últimos doze meses o IPCA chegou a 11,02%. Assim, os juros de 17,5%, já ditados pelo Copom, descontada a inflação contabilizada até novembro, de 8,74%, revela juros reais de 8,76%. Como nada indica que não haverá inflação em dezembro e, antes pelo contrário, que neste último mês do ano ela tende a elevar-se, parece que estouraremos a meta acordada com o FMI, teremos juros reais acima dos 8,76% e juros básicos nominais, aqueles que consideramos e nos incomodam, provavelmente iguais ou acima dos 17,5%.

Isso nos desespera, quando ouvimos falar em juros de 1% ou pouco mais ao ano nos países desenvolvidos. E que eles crescem… e nossa economia encolhe.