A indústria do entretenimento soube transformar a religião do universo percussivo da Bahia em magia da fortuna. Nada mal, todos precisam de diversão, de beijo na boca, viver e tirar o pé do chão. Há muita energia e qualidade na diversão. E essa mesma indústria, de uma forma ou de outra, deu dignidade a muita gente. Mas um desses músicos conseguiu fazer o contrário: Letieres Leite pegou o rito religioso dos tambores do candomblé, dessacralizou-os por meio da técnica, elevando sua música ao mesmo nível sagrado conquistado por gente como Moacir Santos, fazendo muita gente sair do chão sem precisar levantar os pés.

“Quando digo que a música é religião, também quero dizer que, enquanto energia, ela age no tecido do universo. É um tecido básico, por meio do qual todas as matérias estão unidas. É aquele negócio, tudo é a mesma coisa”, define Letieres, em entrevista à Agência Estado por telefone quinta-feira, de Curitiba, cidade onde se apresentou à noite. A música entrou em sua vida como uma “enxurrada”, um “tsunami”. Aprendeu percussão aos 13 anos num projeto que a pesquisadora Emília Biancardi realizou em escolas de Salvador na década de 70, mas foi estudar artes plásticas. Aos 19, na Faculdade de Belas Artes, decidiu tocar uma flauta transversal num encontro com amigos e, desde então, não largou do instrumento, aprendendo também saxofone.

Trabalhou 13 anos como maestro de Ivete Sangalo e fez arranjos para Daniela Mercury, Margareth Menezes, Olodum e Timbalada. No período em que ficou com Ivete, criou a Orkestra Rumpilezz, que leva no nome a fusão do sagrado com o profano: os atabaques do candomblé Rum, Rumpi e Lê ao “jazz”. Jazz como uma palavra vaga, como uma palavra sonora, porque o que essa banda faz é música popular brasileira, ou, propriamente, uma música instrumental brasileira e universal. O que importa é a sonoridade. Aliás, o único representante do país no BMW Jazz Festival, com show hoje, sábado, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Ingressos já esgotados. Mas às 17h30 do domingo, a orquestra abrirá o Festival Natura Musical, em Belo Horizonte, com Milton Nascimento, Maria Gadú, Carlinhos Brown e Roberta Sá. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Maestro, quando se fala na música enquanto uma religião, muitos pensam em ritos de uma instituição. Tem gente que torce o nariz para essa história de a “música salvar”, por exemplo. Como você encara isso?

Letieres Leite – Nos apresentamos no Teatro Rival, no Rio, e tive vontade de dizer isso, e disse: a música salva. Foi tão bonito, no final do show, uma energia fortíssima! O show terminou do jeito que a gente queria, a música tocou o coração das pessoas. E disse ali que a música pode salvar as pessoas.

Mas quando se diz isso, muitos pensam na igreja, no ritual, numa instituição. A música em si é uma religião?

Letieres Leite – Eu vou um pouquinho além. O meu pai era esoterista. Estudou ciências ocultas e eu cresci nesse ambiente, lendo Helena Blavatsky, uma escritora russa. Seu livro mais famoso é “A Doutrina Secreta”. A gente lia. A gente lia não, meu pai lia para gente quando éramos muito jovens. E isso foi despertando uma maneira de olhar o mundo não só para o que o olho está mostrando. A ciência tá provando agora, a física quântica lida com esses assuntos, o acelerador de partículas tá procurando a menor partícula do universo… Eu acompanho isso como acompanho música, com a mesma intensidade e o mesmo interesse. O que acontece num mundo que a gente não consegue explicar. E isso é religião. E quando digo que a música é religião também quero dizer que a música, enquanto energia, age no tecido do universo. É um tecido básico por meio do qual todas as matérias estão unidas. É aquele negócio, tudo é a mesma coisa. A música pra mim é sobre isso. Essa pequena porção que eles estão estudando, na Teoria das Cordas (que tenta unir a Teoria da Relatividade e Teoria Quântica), que tenta unificar a teoria sobre universo, ela fala sobre uma membrana que vibra, tem um som nessa menor partícula possível. Eu acho que quando se toca uma nota, ela se propaga eternamente.

Quando você está tocando, com a orquestra, o que sente? Há uma relação entre imagens e sensações ao som em sua cabeça?

Letieres Leite – O fenômeno de tocar na hora, o “chamamento”, não é exatamente como aquele que acontece num terreiro de candomblé. Não é essa a direção. Mas os tambores em si, só de tocar os toques de um orixá, da maneira correta – porque nós temos tocadores alabês, que são percussionistas criados em terreiros, que são pessoas que tocam em cerimônias mesmo. Lógico que, quando estamos num toque para um orixá, eles tocam como princípio da vida deles. Eles aprenderam isso desde pequeno. Eles tocam isso conectados por esse mundo. Agora, na minha cabeça, além disso, tem a história da ligação do som com as pessoas através desse intramundo. Eu não sei se isso serve para algum músico, ou é uma coisa louca, não sei, mas eu acredito muito nisso e sinto a reação das pessoas. Desde que comecei a tocar eu misturei essa instrução que tive com meu pai, do mundo místico com a música. Eu não consigo ver música fora disso. Não importa a música. Todas elas em algum momento tem isso.

Seria como se a música carregasse, mesmo naqueles que negam esse tipo de relação, algo realmente “invisível”?

Letieres Leite – Sim, é uma identidade ancestral, que quando você toca, você estimula, desperta essa ancestralidade que todo mundo tem. No fundo, a ligação da música afrobrasileira está conectada com todo mundo. Isso tem a ver com a humanidade, com o ser humano.

Qual foi o momento mais intenso que você viveu tocando com a Rumpilezz?

Letieres Leite – A gente foi convidado para tocar dentro de uma igreja chamada Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador, na ladeira do Pelourinho. Essa igreja foi construída pelos negros alforriados com o dinheiro que eles juntaram, para ter uma igreja em que eles pudessem ter acesso. Que tinha toda a questão de o negro não poder entrar nas igrejas tradicionais. Então eles criaram essa igreja e eles administram até hoje uma congregação. Os padres são todos negros, fazem a missa com pessoas do candomblé dentro da igreja, e quando começamos a tocar, aconteceu um negócio esquisito. O som ficou harmonioso de uma maneira muito rápida. Os músicos se olharam, assim, parecia que a gente tinha passado por um túnel. Logo depois, eu toque uma música para Oxossi e aí que foi o grande lance. No meu do solo de flauta, aconteceu que uma nota ficou constante dentro da igreja. Eu parei de tocar, mas ela continuou. Todo mundo percebeu. E eu comecei a chorar nessa hora, virei de costas, e os músicos começaram também a chorar. Ficou difícil voltar a tocar. Eu pedi desculpas para a plateia, disse que sentia algo estranho, que vinha dos meus pés. Foi aí que, terminado o show, conversei com os padres, que conhecem a história desse local, eles me disseram que ali também havia tido candomblé, que havia algo especial. Nesse mesmo lugar. É o sincretismo da Bahia.

Como o senhor avalia essa discussão entre música “boa” e “ruim”? Talvez, sob o ponto de vista comercial, pode se entender julgamentos entre bom e ruim. Mas quando se toca com alguém também há uma relação de amor pela música. E é interessante o fato de o senhor ter sido maestro da Ivete. Porque no fundo, parece existir uma fusão. Existe música para dançar, para curtir, como a Ivete faz, esse negócio de tirar os pés do chão. Mas no coração da banda tinha um maestro como o senhor que, ao mesmo tempo, tem esse lado transcendental da música, da música como arte. Como o senhor vê esse entrosamento?

Letieres Leite – Posso falar de maneira bem categórica, porque eu vivi essa experiência. 13 anos trabalhei com a Ivete, fiz arranjos para a maioria dos grupos de Salvador, da música da Bahia como o Olodum, Timbalada, Margareth Menezes, Daniela Mercury. Fiz arranjos para a maioria desses artistas. E minha observação é a seguinte: o que me atraiu muito a fazer essa trabalho e estar lá fora é de ver que há uma possibilidade real de ter uma sobrevivência digna, de dar escola, plano de saúde, de ter um mercado de trabalho real sem sair de Salvador, e conseguir praticar música e ter uma remuneração para ter uma vida mais digna. E outro detalhe que uni isso muito forte que é o seguinte: todo esse movimento dependeu, a origem dele, saiu da mesma fonte de onde saiu a Rumpilezz, que é o universo percussivo baiano. Se encarar isso como uma árvore, nós somos galhos diferentes de uma mesma árvore. O tronco da árvore vem de dentro dos terreiros. E quando sai para a rua toma uma direção, como tomou a Rumpilezz, assim como a música que eu digo industrial, não comercial, porque a Rumpilezz também é comercial. Eu vendo a orquestra, eu vendo disco, eu sou comercial. Agora, a diferença: eu não sou industrial, em larga escala.

A percussão está ligada à religião. Como conseguir levá-la para o palco?

Letieres Leite – A percussão é fato científico musical. Sua importância não está apenas por causa da mistura. A percussão que os músicos de origem negra criaram na Bahia, que vem de situação financeira não tão digna, eles criaram um sistema de claves musicais muito complexo, rigoroso e seguro. Os críticos musicais do Sul não conseguem entender quando escutam: é um merengue, uma salsa, um funk? Não, eu vou explicar de forma bem simples: não importa a música que você trouxer para Salvador. Se cair no bairro do Curuzu, Amaralina, Pelourinho, ou no Candeal, que são bairros com muitos músicos de percussão, eles a transformam em música local. Eu já fiz testes com isso, trazia um músico de um bairro e de outro. É muito organizado isso. Isso me causou a felicidade de dizer que havia algo de especial nisso. Tem rigor. As pessoas não falam disso, falam só da magia. A indústria se apropriou disso para fazer fortuna que, nós sabemos, é normal a indústria fonográfica, indústria do entretenimento. Esses músicos participaram, de uma maneira coadjuvante, e não são considerados protagonistas como deveriam ser. Eu fiquei com uma coisa assim entalada na garganta: eu preciso dizer as pessoas de que isso é fabuloso. Daí, eu criei a escola de música. Depois, a Orkestra Rumpilezz. Que eu considerado o cartão de visitas de uma ideia, que não é o fim. Eu pretendo fazer muito mais coisas com essa ideia para a educação, fazer com que esse mesmo recurso volte para esse jovem.