Em 2015, Vincent Lindon foi melhor ator no Festival de Cannes por seu papel em A Lei do Mercado. Em 2018, o diretor Stéphane Brizé e ele voltaram à competição com Em Guerra, que agora estreia no Brasil. O filme foi lançado na França há um ano e meio, durante o próprio festival. Provocou uma discussão que ultrapassou os limites das páginas de artes e espetáculos dos grandes jornais e revistas. Quando eclodiu o fenômeno dos gilets jaunes (coletes amarelos), a França deu-se conta de que Brizé já antecipara a agitação social. Numa entrevista por telefone, o diretor conta que não teve nenhuma bola de cristal. “O filme captou o que nem os analistas de mercado nem os políticos quiseram ver.”

E ele conta: “Não sei se o caso repercutiu no Brasil, mas há alguns anos toda a mídia e as redes sociais não falaram de outra coisa na França. Uma rodada de negociação entre patrões e empregados terminou com um dos representantes deixando a sala com a roupa rasgada. Já havíamos feito, Vincent e eu, A Lei do Mercado. Resolvi avançar na discussão. A fábrica anuncia que vai fechar e abrir outra unidade num país da antiga Cortina de Ferro, onde salários e encargos sociais custam menos. As conversações não avançam. Os patrões declaram-se decepcionados. A cólera dos trabalhadores aumenta. Em Guerra nasceu do desejo de legitimar essa revolta. É um filme sobre o novo léxico que domina as relações sociais”.

Ou seja: “Existe uma nova gramática, não sei as palavras no Brasil, mas hoje em dia competitividade substitui lucro. É a nova lei do mercado, ser competitivo. Em geral, isso significa diminuir custos, o que repercute nos salários dos trabalhadores. Os dirigentes continuam com seu privilégios. O filme nasceu do nosso desejo, de Vincent e meu, de tentar refletir um pouco sobre isso. Sei que o governo brasileiro está comprometido com a aprovação da reforma da Previdência e que o presidente Bolsonaro se envolveu num bate-boca com (Emmanuel) Macron (presidente da França) sobre a Amazônia. Bolsonaro ofendeu a primeira-dama Brigitte, o que na linguagem diplomática não é só grosseiro, ‘mais je m’en fous’ (estou me lixando) para o baixo nível dessa discussão. O problema é que, em todo o mundo, o neoliberalismo econômico e seu braço político, o fascismo, estão querendo destruir a civilização para salvar a economia”.

Em Guerra é sobre o porta-voz dos trabalhadores da Perrin Industries. Apesar dos lucros, obtidos à custa de sacrifícios do pessoal, a direção resolve fechar a fábrica. Laurent, o porta-voz, negocia até o limite, o que significa – a guerra.
Entre A Lei do Mercado e o novo filme, o diretor fez Uma Vida, adaptado de Guy de Maupassant. Tirando o fato de ser centrado numa mulher, e de a história passar-se no século 19, os três filmes mostram personagens com elevadas noções de ética, mas que são massacrados pelas estruturas sociais em que estão integrados. A destruição desses indivíduos é narrada sempre por Brizé com um realismo próximo do minimalismo. “No começo de nossa conversa falei na imagem fundadora de Em Guerra, que foi um noticiário de TV. O filme é ficção pura, mas a própria trama me permite utilizar o formato – como os personagens são representados na linguagem televisiva. O real midiatizado e a ficção. A forma parece de documentário, mas nunca fui mais ficcional. Assim como a nova linguagem da economia, a forma é essencial e a questão política, tão visceral como o estilo. O que é, afinal, esse realismo tão naturalista? Espero que a forma de Em Guerra também interesse aos brasileiros.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.