Muitos livros foram escritos sobre o período de 1900 a 1925 na França, conhecido por Era da Geração Perdida – termo cunhado pela escritora norte-americana Gertude Stein para designar um numeroso contingente de escritores, poetas, artistas e músicos de todas as partes do mundo que se encontraram em Paris, porque, de repente, todos estavam indo para lá.

O certo é que num determinado momento, especialmente depois da grande guerra, todo artista tinha um bom motivo para ir a Paris. Os americanos, endinheirados, queriam fugir de uma sociedade extremamente puritana, os ingleses não tinham aonde ir, os franceses estavam em casa, os russos comunistas ou não fugiam dos comunistas, os japoneses buscavam contato com a arte ocidental e os demais não queriam nem saber, iam porque todo mundo que contava estava em Paris.

Uns se alojavam em Montmartre, outros nos arrabaldes e boa parte em Montparnasse, onde as coisas aconteciam. A certa altura a cidade contava com centenas de escritores, centenas de pintores, centenas de poetas, dezenas de editores independentes e pessoas que simplesmente queriam estar junto desta gente, porque era uma gente do balacobaco, acontecia e fazia acontecer.

O livro mais celebrado do período talvez seja o de Ernest Hemingway – A moveable feast, traduzido no Brasil como Paris é uma festa porque além de jogar charme no período, o descreve como algo que nunca mais se repetirá.

O livro é o testemunho ocular sobre a época, com relatos pessoais saborosos, como a compra de um quadro de Miró, transportado sobre a capota de um taxi pelas ruas da cidade.

O livro é pessoal, vale por isso, às vezes decepciona por isso. Hemingway fornece a atmosfera do período e confessa: “Éramos muitos pobres e muito felizes”. Ele, justamente ele, que ficou muito rico e muito infeliz.

Talvez por isso, por depoimentos marcantes como o dele, quando aparece um livro novo sobre o assunto, a primeira reação é de ir sem sede ao pote, porque quem muito leu sobre aqueles anos, não vai encontrar segredo algum em lugar algum.

O que faltou em Hemingway, dezenas de outros acadêmicos e jornalistas trataram de escarafunchar e entupiram os leitores com detalhes sem fim. No entanto, a impressão de tédio se dissipa quando se pega o livro Os exilados de Montparnasse, de Jean-Paul Caracalla (294 páginas, R$ 40,00, editora Record).

Vamos começar pelo óbvio: o livro não traz nada de novo. Ele apenas traz o velho de uma forma nova, leve, suave, fresca como uma brisa, como fosse o diário de alguém que esteve lá, ao lado de todos aqueles personagens, e acordasse para contar a história que viu, que é a mesma que todos conhecem, mas com certo frescor, sem desmerecer ninguém, sem entrar em méritos literários de fulano ou sicrano. Faz um relato simples como uma reportagem.

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Scott Fitzgerald também foi um dos artistas que marcaram uma época.

A impressão que se tem é a de que Caracalla se propôs a reescrever o livro de Hemingway com mais leveza, estilo coloquial, sem afetação, sem nenhuma intenção de fazer literatura ou sustentar um estilo, sem dar trela a sujeitos que não tiveram importância, como faz Hemingway, e dando um pouco mais de espaço àqueles que tiveram. E acerta em cheio, embora fique gente de fora, o que é natural. O importante é que o essencial está lá.

Se tomarmos por base o livro de Hemingway, vamos encontrar mais informações, o que já é um acréscimo, mesmo porque nem passou pela cabeça do escritor norte-americano esgotar o assunto.

E Caracalla, ao contrário de Hemingway, não tem a necessidade de colocar personagens importantes em segundo plano e menores em primeiro, para confundir um pouco a cena, e ficar de ator principal da história.

Os personagens do, período têm no livro de Caracalla espaço merecido, sem episódios definitivos e tampouco depreciativos, como a conversa de Hemingway com Fitzgerald no banheiro sobre tamanho de falos de um e de outro.

Esta passagem é até hoje considerada deprimente e que se justifica porque no período em que Paris é uma festa foi escrito, o prestígio de Fitzgerald estava em plena recuperação e o de Hemingway em declínio.

Se tomarmos por base outros livros que fuçam o período como arqueólogos, querendo levantar todos os pormenores e entupir o leitor com narrativas detalhistas, longas e maçantes, Os exilados de Montparnasse ganha de braçadas, porque é um livro leve, que se pode ler como se come bolachas no café da manhã -uma de cada vez e sem pressa.

Os personagens do período -Gertrude Stein, Alice B Toklas, Sylvia Beach, William Bird, Ernest Hemingway, James Joyce, Ezra Pound, Pablo Picasso, Henry Miller e muitos outros -não brigam por espaço e são apresentados não como mitos, mas como pessoas normais que por uma escolha pessoal decidiram ir a Paris na hora certa, no lugar certo, para fazer as coisas que acharam certas.

E, alguns intencionalmente e outros nem tanto, escreveram e pintaram talvez uma das páginas mais glamourosas da cultura e produziram uma arte tão intensa quanto o período que viveram.