Foto: Aquivo/O Estado

Fenômeno crescente no Brasil e no mundo, a segmentação dos canais de televisão é uma tendência que parece ter vindo para ficar. A especialização dos canais, principalmente os que integram as tevês por assinatura, traz consigo aspectos que, aos poucos, vão mudando a forma de como se vê televisão. Uma das peculiaridades mais nítidas deste fenômeno é a liberdade experimentada pelos profissionais que criam ou atuam nos programas produzidos sem grandes compromissos comerciais ou de audiência. Para o ator Paulo Betti, que apresenta o programa de entrevistas Novos Nomes, no Canal Brasil, uma das grandes conquistas da segmentação é a possibilidade de se produzir programas regionais, que levam ao ar, localmente, as realidades de bairros periféricos ou de cidades do interior. "Isso só é possível porque, sem a preocupação com o Ibope, nós não temos pressão de forma alguma", avalia.

A liberdade das produções voltadas para canais com conteúdos específicos pode se traduzir das mais diferentes maneiras. A começar pelo próprio teor do veículo, a programação com um direcionamento mais focado permite "ousadias" que dificilmente caberiam em emissoras abertas. É o caso, por exemplo, do programa Irritando Fernanda Young, que a roteirista estreou na última semana no GNT. Para Fernanda, um "talk-show" apresentado por ela jamais funcionaria se houvesse algum tipo de preocupação com o linguajar empregado. A escritora acredita que dificilmente a fórmula daria certo numa tevê aberta. "Só se fosse um canal altamente alternativo, num horário bem noturno. O programa precisa de um público mais acostumado a uma linguagem mais anárquica", observa.

As liberdades experimentadas pelos canais por assinatura, contudo, podem ser vistas também na televisão aberta. Se o grande vilão da falta de ousadia das emissoras abertas é o risco de uma baixa audiência, quem não se pauta por questões puramente comerciais pode, ao menos, apostar em uma programação mais criativa. É o caso da TVE Brasil. A rede estatal, à margem de embates pela audiência e por anunciantes, investe em programas culturais e educativos que, por vezes, até caberiam em uma emissora comercial. Foi o que aconteceu com o Matéria-prima, programa comandado por Serginho Groisman, que foi para o SBT como Programa Livre e, mais tarde, adaptado, foi a base para o Altas Horas, da Globo. Para Paulo Dionísio, que dirige o Re[corte] Cultural na TVE Brasil, mesmo com uma linguagem rebuscada, o programa também tem potencial para vôos mais altos. "A gente pensa nisso, mas para tal, o programa deveria ter um auditório e trabalhar uma interação com o público que está em casa", vislumbra.

Assim como a TVE Brasil, outras tevês de sinal aberto trabalham com produtos específicos. Zico Góes, diretor de programação da MTV Brasil, apressa-se em distinguir canal por assinatura de canal segmentado. E, assim como percebe essa divisão, Zico argumenta que a segmentação pode se basear especificamente em um assunto ou em um público. Segundo ele, em ambos os casos, o bom é poder trabalhar com um direcionamento mais preciso. "A liberdade está no conforto de só pensar em uma programação para aquele público em especial. Uma tevê comercial tem uma programação mais ampla, diluída e, portanto, sem foco", destaca.

Nesta linha de raciocínio, enquanto a MTV faz foco em música e em um público jovem, o Sportv mira nos apaixonados por esportes. Nesse caso, já não se trata de um público tão direcionado, mas de um assunto comum a diferentes perfis de telespectadores. Desta forma, o canal pode exibir tanto as partidas do Campeonato Brasileiro de Futebol, que atraem milhões de pessoas, quanto um torneio de surfe ou provas de esportes radicais, com público bem mais restrito. Para Pedro Garcia, diretor de negócios do canal, essa segmentação oferece uma outra vantagem. "Em um canal segmentado, o espaço e o tempo são maiores para se aprofundar em certos assuntos", explica.