Antes mesmo de falar sobre 45 Anos com o diretor e roteirista Andrew Haigh, o repórter formula uma pergunta, e adverte que quer matar uma curiosidade. Ele viu Cinco Dias num Verão, de Fred Zinnemann, de 1982? “Excuse me?” Haigh não entende a pergunta. O repórter explica. No filme de Zinnemann, Sean Connery faz um guia da montanha. O tempo está passando, ele envelhece e aí ocorre um incidente. Uma escavação na neve eterna revela o corpo de um alpinista que morreu. Sua noiva, na época, para quem o tempo passou e ela envelheceu, é confrontada com seu amor eternamente jovem.

Há uma situação parecida em 45 Anos, o segundo longa de Haigh como diretor, após Weekend, de 2011, e uma expressiva carreira como produtor, incluindo filmes de Ridley Scott (Gladiador e Falcão Negro em Perigo). Às vésperas da festa comemorativa dos 45 anos de seu casamento com Tom Courtenay, a personagem de Charlotte Rampling descobre essa carta que lhe permite entender a perturbação do marido. A mulher que ele amou antes dela – e morreu – é encontrada em circunstâncias parecidas. “Jura que isso é verdade? Conheço Zinnemann, claro, mas por seus clássicos dos anos 1950. Nunca soube da existência desse Cinco Dias de que você fala.

Como nunca ninguém me falou desse filme?” E Andrew Haigh promete que vai correr atrás. “O curioso é que cheguei a pensar em Sean (Connery) para o papel de Tom Courtenay. Nem cheguei a formular o convite, porque, em seguida, fiz minha opção por Tom e ele aceitou.”

Courtenay fez filmes que pertencem à história. Billy Liar, de John Schlesinger, Doutor Jivago, de David Lean, O Fiel Camareiro, de Peter Yates. Charlotte Rampling também fez filmes emblemáticos de grandes diretores – Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, Porteiro da Noite, de Liliana Cavani. “Quando os vi juntos no set, representando sua primeira cena, pensei comigo: ‘Agora é só eu não errar’. Havia neles sinceridade, elegância. A personagem está implodindo, mas Charlotte mantém a fachada”, ele observa. Haigh observa que, embora tenha participado de filmes grandes, e grandes filmes, como o já citado Gladiador, o que o atrai de verdade são as histórias intimistas. “Gosto de filmes que falem de gente. Mesmo Gladiador narra um drama humano numa época histórica de grande convulsão.”

A base da história é real – o escritor David Constantine já contou como estava na França, há muitos anos, e viu na mídia que o cadáver intacto de uma mulher que morrera décadas antes fora encontrado inteirinho na neve. Constantine ficou fantasiando sobre como essa erupção do passado poderia repercutir na vida de uma pessoa, hoje. E foi desenhando o conflito de 45 Anos. Haigh conta que, por se tratar de uma história curta, ele manteve a origem, mas tomou liberdades para dar consistência dramática aos personagens e à situação geral. Há um sótão, na casa, no filme.

Isso é coisa dele? “Creio, para ser honesto, que David (Constantine) faz uma breve referência, en passant, mas eu achei que precisava explorar mais esse lado. Todos temos nossos esqueletos no armário. O sótão é uma metáfora clássica das coisas que acumulamos na mente. Esse é um filme sobre passado, claro.”

E como é trabalhar com atores que têm uma história própria? “Tivemos um período de ensaio, quando pedi a Charlotte e Tom que improvisassem algumas cenas. Eles criaram alguns diálogos que incorporei. No set, raramente improvisávamos. O diálogo vinha naturalmente, porque parte já era deles. Mas um set oferece surpresas que acho importante aproveitar. Por exemplo, a direção de arte colocou um piano na casa. Charlotte me disse que tocava. Dedilhou algumas notas. Pedi-lhe que tocasse de verdade. A cena não estava no roteiro, mas virou uma das minhas preferidas no filme.”

O filme estreou com críticas ótimas na Inglaterra. É filme de Bafta, o Oscar inglês, portanto, pergunta o repórter? “Não vou negar que tenho expectativa. Embora tenha 42 anos e uma carreira como produtor, como diretor estou apenas no meu segundo longa. Um Bafta não é de se desprezar (risos). Mas eu acredito que, se o filme tiver chance, será pelos atores. São fantásticos. Foi um privilégio filmar com Tom e Charlotte.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.