Ana Cristina Cesar era uma estudante da PUC-Rio, e Armando Freitas Filho, 12 anos mais velho, foi ao seu encontro nos pilotis da universidade. Os dois poetas logo se reconheceram um no outro, e a amizade só foi interrompida pela morte trágica dela, aos 31 anos, uma década depois.

Naquele 29 de outubro de trinta anos atrás, eles se falaram pelo telefone às 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha havia se jogado da janela. Dentro de alguns dias, ela levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão impregnadas de Ana C..

“Ana dizia que, se algo acontecesse, o material deveria ficar comigo. Quando ela morreu, levei mais de dois anos até ter coragem de mexer naquilo”, lembra o poeta, transformado em curador da produção da amiga.

Os cadernos com poemas e frases soltas, anotações e redações de escola abrigados nas caixas somam mil itens que estão desde 1998 sob custódia do Instituto Moreira Salles. Todo esse material já deu origem, desde 1985, a cinco livros organizados por Freitas Filho: Inéditos e Dispersos (1985), Escritos na Inglaterra (1988), Escritos no Rio (1993), Correspondência Incompleta (1999) e Novas Seletas (2004). Dos mesmos guardados saiu ainda Antigos e Soltos (2008), a cargo da professora da USP Viviana Bosi.

Mais um fruto está previsto para sair no próximo dia 25 pela Companhia das Letras: Poética reúne, além desses títulos, os quatro volumes lançados por Ana em vida, os independentes Cenas de Abril (1979), Correspondência Completa (1979) e Luvas de Pelica (1980), e A Teus Pés (1982), o primeiro lançado por editora (Brasiliense). Desses, é possível encontrar apenas o último no mercado, afora poemas espalhados por coletâneas que jogam luzes sobre a chamada poesia marginal dos anos 70.

Poética tem ainda uma seção de inéditos, com escritos da adolescência ao fim da vida. É Ana C. por inteiro, “despetaladamente pelada”, como nos versos de Instruções de Bordo, dos anos 70.

“Novos e velhos leitores verão que Ana sempre foi uma pessoa de muita coesão, aplicada. Desde pequena, mostrava o que poderia ser – ditava poemas para a mãe antes de aprender a escrever”, diz Freitas Filho.

POÉTICA – Autora: Ana Cristina Cesar. Editora: Companhia das Letras (469 págs., R$ 48). Lançamento: 25/11.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.