O futebol está cada vez mais profissional e até a nomenclatura de uma das funções mais famosas e míticas do esporte bretão mudou. O tradicional e folclórico olheiro passou a ser observador técnico, dando um tom mais sério e profissional à coisa.

A função, porém, ainda é a mesma. O trabalho também. O que mudou e ganhou um pouco mais de critério foi a avaliação, que passou a exigir novos critérios, como parte fisiológica e até mesmo um histórico disciplinar. Mas a técnica e a tática ainda são o que mandam e realmente definem se temos um futuro craque ou apenas mais um boleiro no mundo.

Os clubes continuam na busca de craques espalhados nos quatro cantos do Brasil, cada qual com o seu método de busca. ‘Cada clube tem estratégias próprias e planos de ações para chegar aos lugares mais absurdos que se possa imaginar. Aquele cara que joga bola em uma fazenda e tem talento, temos que chegar nele. Então tem todo um planejamento. Cada clube tem um’, explica Klauss Câmara, coordenador da captação do Cruzeiro, e um observador da nova safra no mercado, já que tem apenas 31 anos.

Mas a velha guarda, dos folclóricos olheiros, ainda está por aí. E que o diga Arzemiro Bueno, o professor Miro. ‘A única coisa que mudou foi o futebol. Hoje em dia é mais dinâmico. Mas para observar você precisa ter um olho bom. E isso é de cada um e nunca muda’, afirma ele que hoje tem 72 anos de idade e 44 de profissão, sendo responsável pela descoberta de jogadores como o craque Alex, ex-Coritiba, atualmente no Fenerbahçe da Turquia.
Com a evolução do futebol, a profissão também ganhou novos recursos. Atualmente os olheiros, na maioria dos casos, são ligados ao clube, recebendo um salário fixo, como todos os funcionários, para exercer sua função. Ao contrário do que diz o mito, a própria participação financeira nos direitos econômicos dos atletas indicados passou a ser cada dia mais rara.

Uma ferramenta que auxilia o trabalho é o DVD produzido pelos empresários dos atletas. ‘O DVD mudou muito o trabalho. Ele não é a melhor forma de você fazer a observação, porque no vídeo, só são colocados os melhores momentos do atleta. Só tem as coisas boas que ele faz. Mas, em contrapartida, é um auxilio e um filtro muito bom’, comenta Klauss.

Mas velhos hábitos nunca saem de moda. ‘A primeira coisa que eu vejo é a categoria do jogador, domínio e passe. O cara que fala que sabe se o menino é craque só pela batida é um mito. Depois observamos se ele tem boa movimentação, se já finaliza com categoria, tem meninos de 10 anos que já tiram do goleiro. Tem que avaliar a qualidade, a habilidade’, avalia professor Miro.

E a voz da experiência dá algumas dicas. ‘Hoje em dia é fácil. O jogador muitas vezes vem até você. Mas o gostoso é você descobrir. Ir atrás e achar o craque. E para isso tem que correr atrás. Tem que ter calma e trabalhar muito. Uma boa dica são campeonatos voltados para a categoria dente de leite.

Têm vários. Alguns contam com times de diversas regiões e lá sempre surge alguma coisa boa. Mas tem que ir atrás’, concluiu Miro, que inclusive já deixou um sucessor na carreira: Aramis Bueno, 37 anos, que apesar de novo na profissão chegou a revelar talentos como Lucas Piazon, hoje no Chelsea da Inglaterra.