Nova York – Quando criança, o brasiliense Marílson Gomes dos Santos, de 29 anos, 1,74m e 57kg, não imaginava que um dia pudesse ?correr tão rápido uma maratona?.
Mas aos poucos o sonho do garoto franzino de ajudar a mudar a história de sua família humilde com triunfos no esporte foi se tornando realidade. Deixou a casa dos pais aos 15 anos, em Ceilândia, um dos distritos mais pobres de Brasília, para treinar em São Paulo já que em sua cidade faltava infra-estrutura. Ao cruzar a linha de chegada no Central Park, domingo, em primeiro lugar da Maratona de Nova York, deixando para trás favoritos como o recordista mundial Paul Tergat e o campeão olímpico Stefano Baldini, Marílson teve a certeza que ?todo sacrifício valeu a pena?.

Agência Estado – Quando sentiu que dava para ganhar a prova?
Marílson Gomes do Santos – Desde o começo senti que dava para ganhar. Fiz uma preparação muito boa e estava confiante com o meu físico e com a parte psicológica. Fiz a minha prova e cumpri a estratégia que tinha planejado com meu técnico, de não me distanciar do pelotão de elite e tentar crescer no quilômetro 30.

AE – Não teve medo de forçar muito e ?quebrar??
Marílson – Na prova de maratona você não pode pensar que não vai dar, que você não vai conseguir. O tempo todo acreditei em mim, na vitória.

AE – Qual momento da prova não sai da sua cabeça?
Marílson – Quando assumi a liderança da prova no quilômetro 30 e consegui manter uma distância dos adversários. Aquele momento foi maravilhoso. Eu pensava: ?Os melhores corredores do mundo ficaram para trás.? Não há sensação melhor que liderar e vencer uma prova tão famosa.

AE – O que pensou ao cruzar a linha de chegada?
Marílson – Foi emocionante. Passou um filme na cabeça, lembrei de tudo o que eu fiz para chegar até aqui, das coisas que tive de abrir mão, da infância difícil em Ceilândia, da minha família deixando de fazer compras para comprar tênis para mim. Hoje sou feliz pelo apoio que me deram quando saí de casa. Consegui tirar meus pais de Ceilândia, comprando um apartamento para eles em Águas Claras.

AE – Como vai gastar o prêmio que recebeu (R$ 278 mil)?
Marílson – Não planejei ainda o que vou fazer com o dinheiro. No momento, só penso em aproveitar essa fase, curtir cada segundo.

AE – Sua mulher, Juliana, cobra uma nova lua-de-mel pelo aniversário de casamento (completam quatro anos na quinta-feira)…
Marílson – Vou ter de pensar em alguma coisa (risos) para a gente fazer, uma viagem, um jantar. Este ano não tivemos muito tempo para nós dois. Fiquei um mês treinando em Campos do Jordão antes de vir para Nova York. Com certeza, faremos alguma coisa diferente.