Um dos maiores hinos não oficiais da história do futebol voltou a campo na Copa da Rússia. “Three Lions”, música-símbolo da seleção inglesa, é ouvida entre torcedores e também na programação oficial da Fifa nos estádios antes dos jogos da equipe.

Composta em 1996 pela banda Lightning Seeds e uma dupla de humoristas no auge do britpop, ela pegava carona na onda nacionalista daquele movimento musical em plena disputa da Eurocopa em solo inglês.

Daí o grudento refrão, “Football is coming home” (o futebol está voltando para casa), referência ao fato de a Inglaterra ser o berço do esporte –os três leões do título estão no escudo da equipe.

Mas a patriotada para por aí. A letra, assinada por uma dupla famosa de comediantes, exala autoironia, especialidade inglesa. Fala sobre os incontáveis tropeços do time desde o solitário título mundial de 1966, ganho em casa.

Numa vira-latice exemplar, fala sobre “30 anos de dor”, trecho que, na nova versão, virou “sem mais anos de dor”.

“Three Lions” se conecta a uma subcultura própria das ilhas Britânicas, que preconiza o futebol como uma religião cultuada nos altares dos pubs por uma desiludida classe trabalhadora. E ouvindo rock. O britpop no qual a música nasceu trabalhava esses elementos. Oasis e Blur, seus expoentes, eram bandas associadas a bebedeiras e jogos de futebol.

Havia também o componente político, que foi a apropriação desse clima pelo Novo Trabalhismo de Tony Blair, na época da Euro-96 um promissor “primeiro-ministro em espera”. Os anos passaram e a decadência inevitável veio para todos, o britpop e Blair. E o futebol do “English Team” seguiu sem títulos.

Mas “Three Lions” sobreviveu, ganhando duas versões modificadas ao longo dos anos até ressurgir na Rússia. Segundo a Fifa, ele foi parar no telão dos estádios por “representar o time”. A música deu filhotes. “Together Stronger”, da banda galesa Manic Street Preachers, bebeu na fonte do derrotismo fatalista para exaltar os feitos da seleção de Gareth Bale que chegou a ser semifinalista da Euro-2016.

O rock costuma estar associado ao futebol na Europa.

A Fifa se rendeu a um clássico dos estádios do continente e introduziu um trecho de “Seven Nations Army”, do White Stripes, na entrada dos times em campo. 

Não que manifestações musicais de outras tradições inexistam na Copa, pelo contrário. Os uruguaios, empolgados pela ida às quartas, cantam incessantemente sobre ser campeão “como na primeira vez” —o time foi o primeiro a ganhar um Mundial, em 1930 (repetiria a dose 20 anos depois, no Maracanã.)

Também esteve presente no canto dos “hinchas”, os torcedores argentinos antes da eliminação de sua equipe, na adaptação de uma cúmbia —ritmo popularesco do interior do país.

A provocação aos brasileiros da última Copa (“Brasil, decime qué se siente…”) deu lugar a um canto nacionalista de exaltação dos dois gênios do futebol do país, Messi e Maradona. A resposta brasileira, assim como aquela dos “Mil Gols” de 2014, veio numa adaptação de uma música da banda Ara Ketu na qual são ironizados Lionel Messi, Zinedine Zidane e até Andrés Iniesta.

O jornal britânico The Independent, lamentando não ser alvo de provocações no canto brasileiro, até deu o caminho das pedras. Afinal, o técnico inglês, Gareth Southgate, perdeu o pênalti decisivo contra a Alemanha na semifinal da mesma Euro-96 que inspirou “Three Lions”.

A depender do resultado do jogo entre ingleses e colombianos nesta terça (3), ainda haverá tempo.