Uma das figuras mais célebres dos bastidores do futebol paranaense, Maria Francisca Klosienski, a Chica, é exemplo de superação e profissionalismo por onde passa. Sempre com um sorriso no rosto – independente da dificuldade que enfrenta – e um abraço carinhoso, ela soma quase 50 anos dedicados aos bastidores da imprensa esportiva do estado. Desempenhando sua função nos jogos de Athletico, Coritiba e Paraná Clube e até mesmo da seleção brasileira, ela guarda muitas histórias dos anos que trabalhou na Associação dos Cronistas Esportivos, na Federação Paranaense de Futebol e de suas muitas outras atuações no mundo da bola. Em uma projeção, é possível dizer com tranquilidade que ela já trabalhou em mais de dois mil jogos em toda sua trajetória.

“A minha vida é futebol. Futebol e imprensa. Não tem ninguém desse meio que não me conheça”, disparou. Jogadores, repórteres, fotógrafos, narradores, dirigentes de clubes, familiares de atletas e quem quer que esteja envolvido com o futebol sabe quem é ela.

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Desde muito nova frequentando os estádios por amar o esporte da bola nos pés, foi com 17 anos que Chica conheceu os bastidores da imprensa. Na Rádio Colombo, em 1969, conseguiu seu primeiro emprego na área. Foi amor à primeira vista e depois de algum tempo ela, de fato, passou a atuar na organização do futebol no Paraná.

“Comecei a trabalhar na Rádio Colombo como uma espécie de ’cicerone’, levando as pessoas até uma capelinha de Nossa Senhora que tinha nos fundos. No ano seguinte, foi criada a primeira equipe esportiva da rádio e eu trabalhava auxiliando no departamento artístico”, lembrou.

Mas foi em 1975 que ela iniciou a carreira que segue até hoje. Uma amiga a convidou para trabalhar como secretária na Associação dos Cronistas Esportivos do Paraná, a Acep, que ficava na Praça Osório. Ela aceitou de pronto e foi conversar com o diretor da instituição na época, Firmino Dias Lopes, que em poucos minutos já aprovou a nova funcionária.

“Trocamos meia dúzia de palavras e ele já me deu a chave. Falou que a partir daquele momento era comigo. Eu não sabia absolutamente nada, não tinha ideia do que tinha que fazer”, recordou a situação engraçada. Chica não demorou a se inteirar de como seria seu trabalho e a partir de então, nunca mais largou as burocracias por trás da imprensa esportiva paranaense. Como a associação não tinha registro jurídico, foi necessário aguardar alguns anos para que ela tivesse, na Carteira de Trabalho, a oficialização. Em janeiro de 1978, ela finalmente foi registrada e por lá ficou até 2001.

Chica e membros da imprensa paranaense no Pinheirão. Foto: Arquivo.
Chica e membros da imprensa paranaense no Pinheirão. Foto: Arquivo.

“Eu era tipo faz tudo, a única funcionária. Em 1984, a Acep passou a controlar o acesso da imprensa aos estádios, cabines e gramado, e eu ficava nos portões controlando a entrada”, lembrou. A secretária também trabalhou na Associação de Cronistas Esportivas do Brasil, na Associação Brasileira de Cronistas Esportivos e sindicato dos atletas. Mesmo depois da saída da Acep, ela continuou fazendo o controle da imprensa nos estádios pelos clubes, CBF e pela FPF.

Para ela, todas essas décadas de dedicação não foram sentidas, já que ela se sente feliz por tudo que pode presenciar.
“Fui fazendo amizade com muita gente e todo esse tempo correu maravilhosamente bem”, destacou. Esse longo tempo no futebol do estado fizeram com que Chica pudesse colecionar muitas histórias. Sendo a pessoa que controlava o acesso aos gramados, ela já passou por situações inusitadas.

“O sonho de muitos torcedores e da própria imprensa é assistir a um jogo de dentro do campo. E como é algo muito sério, precisamos barrar os infiltrados. Já me ofereceram dinheiro muitas vezes. Me perguntaram quanto eu queria para liberar a entrada”, falou.

Chica e Ronaldinho Gaúcho, quando o craque passou pelo Flamengo. Foto: Arquivo.
Chica e Ronaldinho Gaúcho, quando o craque passou pelo Flamengo. Foto: Arquivo.

Amizade, respeito e admiração

Se tem um sentimento que Chica valoriza e se orgulha em ter construído ao longo do tempo é a amizade com muitas pessoas que pôde conviver. Os amigos que conserva de longa data ou de pouco tempo, demonstram respeito por ela. Independente de times, ela tem as portas abertas em qualquer clube do Trio de Ferro e do estado.

“Tenho uma grande admiração por ela. A Chica é uma pessoa muito importante para o futebol paranaense, muito mais do que grandes jogadores que passaram por aqui. O nome dela está gravado para sempre”, falou Luiz Carlos Casagrande, ex-presidente do Paraná Clube.

Chica ao lado do ator Nuno Leal Maia, que chegou a ser treinador do Londrina. Foto: Arquivo.
Chica ao lado do ator Nuno Leal Maia, que chegou a ser treinador do Londrina. Foto: Arquivo.

O narrador esportivo da Rádio Banda B, Marcelo Ortiz, também exaltou as qualidades da amiga de décadas. “Ela tem sempre uma palavra de otimismo. Onde ela estiver você sabe que tem uma amiga de verdade e que torce pela gente. Meu filho, Gabriel, sempre diz que ela é a melhor pessoa”, resumiu.

Roberto Karam, ex-dirigente do Athletico, também tem muita convivência com a Chica e falou sobre o bom coração da amiga, que por vezes oferecia lanches para quem não tinha condições de se alimentar. “Tinha uma lanchonete no Centro que costumávamos ir e ela comprava pastel para quem não tinha como pagar e para quem por ali passava e precisava. A Chica é uma guerreira que sempre celebra a vida com muita alegria e esforço exemplar”, relembrou.

A ex-secretária é muito grata às pessoas à sua volta e lembra que além do carinho da imprensa daqui, ela também construiu laços com pessoas internacionalmente renomadas no mundo da bola. “Conheci muita gente importante. O Pelé era muito meu amigo no auge da carreira dele. No Pré-Olímpico de 2000, em Londrina, me aproximei do Ronaldinho Gaúcho, que até hoje se me encontrar me chama de tia. Cheguei a ser uma espécie de secretária pessoal do Vanderlei Luxemburgo, porque a estrutura era muito pequena e eu acabava fazendo de tudo um pouco”, contou.

Com um sorrisão estampado no rosto, Chica é simpatia em pessoa. Foto: Rodrigo Guilherme Cunha.
Com um sorrisão estampado no rosto, Chica é simpatia em pessoa. Foto: Rodrigo Guilherme Cunha.

Luta contra o câncer

Há quatro anos Chica trava uma batalha contra o câncer. Encarando pela terceira vez a doença, ela nunca deixou que os tratamentos agressivos interferissem em seu trabalho. Para ela, aliás, esse é o segredo para seguir firme na luta. “Esses dias perguntaram onde eu conseguia forças para estar na ativa, daí respondi que encontrei no meu trabalho e os amigos. Ficar em casa seria pior. Trabalhando estou entre amigos e recebendo muita força e apoio”, explicou.

A primeira vez que ela lidou com o câncer foi em 2015, quando a doença atingiu o seio esquerdo. Após fazer uma cirurgia e os tratamentos, sua saúde se restabeleceu. Em 2017, descobriu um nódulo no intestino grosso e novamente precisou se submeter a um procedimento cirúrgico e a sessões de quimioterapia. Novamente superando as dificuldades, este ano a terceira ocorrência: atualmente ela encara um câncer de pele.

“Aproveito o Outubro Rosa, que a doença tem mais visibilidade, para falar para as mulheres fazerem o autoexame e procurarem um médico. Além disso, nesse tempo vi casos também de homens com o mesmo câncer. Todos precisam se cuidar”, alertou. Deixando um pouco de seu sentimento de carinho por onde passou, Chica sabe que poderá contar com as pessoas com quem conviveu nessas cinco décadas. “Fica a amizade e o respeito. Sei que qualquer coisa que eu precisar, vou ser amparada”, finalizou.