No dia 1º de março de 2005, os presidentes dos Conselhos Administrativo e Deliberativo do Athletico, João Augusto Fleury da Rocha e Mario Celso Petraglia, respectivamente, assistiram à uma simbólica homenagem na Câmara Municipal de Curitiba. Em uma sessão repleta de políticos e autoridades, o presidente da Conmebol, o paraguaio Nicolás Leoz, recebeu o título de cidadão honorário.

À noite, o cartola-chefe do futebol sul-americano assistiria à partida do Libertad, clube que comandou por dois mandatos e que cujo estádio leva seu nome, contra o Furacão. O duelo, válido pela segunda rodada da Copa Libertadores, seria na Arena da Baixada – inaugurada apenas seis anos antes.

Os donos da casa venceram por um magro 1 a 0, placar que contrastou com os vastos elogios de Leoz e sua comitiva ao estádio. O septuagenário dirigente afirmou que se o Brasil recebesse uma Copa do Mundo, a Arena “certamente seria uma das sedes”.

Paparicado pelos dirigentes rubro-negros numa óbvia tentativa de aproximação da cúpula da Conmebol, Leoz conheceu também o CT do Caju. A iniciativa de convidá-lo a Curitiba realmente parecia ter surtido efeito. Pouco tempo depois, a revista da entidade estampou a Baixada na capa. Elogios não faltaram à gestão do então vice-campeão brasileiro e sua moderna casa. 

“Elogiaram a Arena, disseram que nosso estádio era referência para os demais times da América do Sul. A partir desse tratamento que recebemos da Conmebol, ficamos tranquilos em relação a isso. Até porque ninguém inicia uma Libertadores dizendo que vai disputar a final em casa”, recorda Fleury.

Em março, portanto, a capacidade de público abaixo do exigido em regulamento para jogar a decisão (40 mil lugares) não era uma preocupação. Mas apenas quatro meses depois, em julho, esse “detalhe” se tornaria muito maior do que qualquer lobby ou pressão fosse capaz de resolver.

Leoz, ao centro, com Petraglia na Câmara de Curitiba. Foto: Divulgação

Conmebol rejeita a Arena

A campanha do Furacão na Libertadores 2005 quase parou na primeira fase. A classificação veio após uma bizarra combinação na última rodada do grupo A: derrota por 4 a 0 em casa para o Independiente Medellín e vitória do lanterna Libertad, de Leoz, diante do América de Cali, na Colômbia.

Depois, o time ainda passou por Cerro Porteño (nos pênaltis) nas oitavas; desbancou o favorito Santos nas quartas; e despachou o mexicano Chivas Guadalajara nas semifinais. Na decisão, a primeira entre times do mesmo país na história do torneio, os paranaenses teriam o bicampeão São Paulo pela frente. 

Foi nesse momento que a diretoria do Athletico percebeu que a aproximação política feita meses atrás era ínfima perto da influência que o rival poderia exercer na Conmebol.

“O São Paulo estava na dele. Foi lá e exigiu da Conmebol: ‘olha, o regulamento diz isso’. E pelo acesso que tinha, foi ouvido. Não imaginávamos que houvesse tamanha pressão para que a Conmebol voltasse atrás no que tinha dito sobre nosso estádio – e havia muitos precedentes de finais em locais com menos de 40 mil lugares. Então, a partir daí foi aquele corre-corre”, lembra Fleury.

O primeiro jogo da final seria numa quarta-feira, dia 6 de julho. Na sexta anterior, dia 1º, o clube começou as obras para aumentar temporariamente a capacidade da Baixada e assim poder receber o duelo.

Ao mesmo tempo, o clube montou uma operação de guerra, enviando representantes ao Paraguai, para mostrar documentos e tentar pressionar a Conmebol, que ainda não havia se posicionado oficialmente sobre o local do primeiro encontro.

O plano B já havia falhado. Dias antes, o presidente do Coritiba, Giovani Gionédis, enviou documento para a Conmebol dizendo que o Couto Pereira não teria capacidade de público necessária para eventualmente receber o jogo decisivo. Procurado, Gionédis não respondeu às mensagens da reportagem.

“Ninguém perguntou nada para o Giovani, que deveria estar desagradado com o Petraglia e pressionado pela própria torcida, então resolveu fazer isso”, lamenta Fleury.

No fim da tarde de sábado, dia 2 de julho, o destino já estava selado. Enquanto centenas de torcedores faziam fila para comprar ingressos nas bilheterias da Arena, a Conmebol publicou comunicado em seu site oficial.

“Com o propósito de promover uma boa organização e evitar conjecturas negativas, resolveu que o jogo se dispute no Beira-Rio”, dizia nota da entidade.

Torcida fez fila para comprar ingresso sem saber o local do jogo. Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo

Última tentativa

Para o Athletico, estava claro que o Tricolor havia pressionado de alguma maneira a confederação sul-americana. E que a ligação de Leoz – que viveu na capital paulista entre 1962 e 1968 e nunca escondeu a admiração pelo time do Morumbi – pesou na opção por mandar a partida para Porto Alegre.

Mesmo assim, a diretoria insistiu em terminar as arquibancadas tubulares para jogar em casa. O valor pago pela construção foi de R$ 1,5 milhão, com adiantamento de 50%.

O clube se mexeu politicamente. Buscou apoio do governador Roberto Requião. Mobilizou o presidente em exercício da CBF, Nabi Abi Chedid, e o presidente da Federação Paranaense de Futebol, Onaireves Moura. O próprio Fleury voou duas vezes para Assunção em menos de uma semana. Tudo em vão.

A obra ficou pronta na segunda-feira. No fim da manhã, o Corpo de Bombeiros concedeu o alvará de liberação. O jogo seria na quarta. Mas Conmebol não voltaria atrás.

“Logo depois de conseguirmos o aval dos bombeiros, me entregam um celular. Era o secretário-executivo Francisco Figueiredo dizendo que o jogo seria em Porto Alegre e que só estava me ligando por cortesia”, relata o ex-presidente do Athetico, que garante que o clube conseguiu, dentro do prazo, todas as liberações necessárias para realizar a final na Baixada.

Athletico completou a estrutura tubular, mas não jogou na Arena. Foto: Pedro Serápio/Arquivo Gazeta do Povo

Regulamento embaixo do braço

Na visão do então superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, a guerra de bastidores envolvendo a final da Libertadores de 2005 tem um motivo simples: o Athletico tentava burlar o regulamento para mandar o jogo em casa.

“Era preciso ter um estádio com capacidade para 40 mil pessoas e a Arena da Baixada, que ainda tinha sido não finalizada, não tinha. Isso gerou muita controvérsia, muita animosidade. Mas não era nada além de cumprir o que estava escrito”, afirma.

“Nós sabíamos que era líquido e certo que o estádio do Athletico não seria aprovado para a final – e eles também sabiam disso. O que tentaram foi reverter de última hora”, completa Cunha.

O dirigente são-paulino aponta a questão logística, de organização de um grande evento esportivo, como um dos motivos pelos quais a Conmebol marcou o jogo para o Beira-Rio já no sábado, cinco dias antes do confronto. O outro ponto citado foi a segurança.

Cunha, aliás, acredita que o Furacão teria mais chances de jogar em Curitiba caso tivesse se preparado com antecedência.

“Por que o Athletico não fez todas essa execução de obras antes do jogo do México? Por que não preveniu isso antes, sabendo que teria grandes chances de passar pra final? Se tivesse viabilizado tudo antes, poderia até não conseguir, mas a chance seria maior”, aponta.

Na época, o superintendente ironizou a construção das arquibancadas tubulares no Joaquim Américo, as quais chamou de ‘puxadinho’. “E os caras ficaram bravos com o termo”, lembra.

Quando questionado sobre o motivo de os dirigentes do Rubro-Negro, mesmo 15 anos depois da final, ainda culparem o São Paulo pela mudança de local da primeira partida, Cunha não poderia ser mais enfático.

“Porque perderam o jogo. Perderam a final de 4 a 0. E isso é bem pesado… O São Paulo não usou força política, usou a força do regulamento. E se impôs”.

São Paulo conquistou o título com goleada. Foto: Valterci Santos/Arquivo Gazeta do Povo

Sem pressão no Beira-Rio

Longe de casa, o Athletico empatou com o São Paulo por 1 a 1 nos primeiros 90 minutos da final continental. O centroavante Aloísio Chulapa colocou o Furacão em vantagem no primeiro tempo, de cabeça. Em um lance de pura infelicidade do zagueiro Durval, o Tricolor empatou se valeu de um gol contra para igualar o marcador na etapa final.

Segundo Fleury, diretoria e comissão técnica tentaram evitar ao máximo que a disputa de bastidores afetasse o elenco. Mas a frustração por estar longe de casa foi impossível de não ser notada.

“Foi uma crueldade o que fizeram conosco. Em meio a tudo isso, tentamos com o técnico Antônio Lopes neutralizar o efeito nefasto dessa decisão no moral jogadores. Mas foi como ver uma espécie de balão esvaziando”, compara.

“Não tem como falar que isso não mexeu conosco. Lógico que mexeu. A gente contava muito com a torcida. Na época, a Arena lotada tinha 24 mil pessoas. No Beira-Rio foram 25 mil, mas parecia que estava vazio. Não era a mesma pressão, não era a mesma coisa. Era um campo neutro. O maior beneficiado foi o São Paulo”, opina o lateral-esquerdo Marcão, que diz ter uma lembrança nítida da final, apesar dos 15 anos que se passaram.

Para Aloísio, se o primeiro jogo fosse na Baixada, a situação seria outra para o duelo no Morumbi. “Jogar na Arena era totalmente diferente do que foi em Porto Alegre. A gente poderia ter perdido o título, sim, mas em casa a situação era outra. Com certeza estaríamos mais confiantes com o apoio da torcida. Estávamos sendo imbatíveis na Arena. Poderíamos ter ganhado o jogo”, crava.

“Levaríamos uma vantagem para São Paulo. Não sei se conseguiríamos mantê-la, mas a história seria outra. Não sei qual o final, mas seria outra história”, reforça Marcão.

Aloísio Chulapa fez o gol do Athletico no Beira-Rio. Foto: Rodolfo Bührer/Arquivo Gazeta do Povo

Brigas, pênalti e a pá de cal

Não é loucura dizer que o segundo jogo da decisão acabou aos 47 minutos do primeiro tempo. O Tricolor vencia por 1×0, quando o árbitro argentino Horacio Elizondo apitou. Era 14 de julho de 2005, exatamente 15 anos atrás.

“Sofri o pênalti. Uma pena o Fabrício ter perdido. Acabaria o primeiro tempo 1×1. Aquilo ali deu uma abalada na equipe. Quando voltou o jogo, o São Paulo aproveitou as oportunidades e fez os gols”, lamenta Aloísio, que deixaria o Athletico em litígio para ser campeão mundial com o Tricolor em dezembro.

“A história seria outra no segundo tempo. Quando tomamos o segundo, saíamos para o tudo ou nada. E o São Paulo era muito forte”, admite Marcão. “Foi o fim, a pá de cal na nossa pretensão de ser campeão”, resume Fleury, que assistiu ao jogo em um local improvisado de última hora, já que o São Paulo não reservou um espaço para a diretoria atleticana no Morumbi.

Na partida de ida, por outro lado, com os ânimos exacerbados, houve até vias de fato entre dirigentes dos dois clubes por causa da ocupação de um camarote.

“Chegamos no Beira-Rio e a diretoria do São Paulo estava instalada no camarote do mandante. Saiu briga entre os diretores”, recorda o ex-presidente, sem citar os envolvidos.

Antes do confronto no Morumbi houve outro momento de indisposição entre os clubes. Os cartolas atleticanos não compareceram a um evento da patrocinadora oficial do torneio. “Me lembro que o Athletico não se representou em represália. Cada um faz o que quer, mas não foi uma atitude inteligente porque se criou uma certa animosidade. Era uma formalidade pré-jogo”, conta Marco Aurélio Cunha.

No vestiário, depois da goleada por 4 a 0 e da confirmação do tricampeonato do São Paulo, o Athletico chegou a se recusar a voltar ao gramado para receber as medalhas do vice. Por pouco tempo, no entanto.

“Eu fiz uma malcriação e disse que não iríamos. Passou uns cinco minutos o representante da Conmebol voltou e avisou que até poderíamos não ir, mas não jogaríamos mais nem campeonato de par ou ímpar. Voltamos, pegamos as medalhas e fomos embora”, confessa Fleury.

Nicolás Leoz seguiu no comando da entidade máxima do futebol sul-americano até 2013. Dois anos depois, foi acusado de diversos casos de corrupção no Fifagate, em 2015. Com problemas de saúde, passou os últimos anos em prisão domiciliar até morrer em agosto de 2019.

Desde então, o Athletico nunca mais chegou à uma final de Libertadores. Disputou o torneio mais quatro vezes, incluindo a edição de 2020, paralisada pela pandemia do novo coronavírus. O torneio continua sendo o grande sonho da torcida.

“No fundo, no fundo, perdemos pela politicagem. Para sermos campeões, teríamos de passar por cima de tudo isso aí”, diz o lateral Marcão, um dos símbolos da raça daquele time de 2005.

Pênalti cobrado por Fabrício acertou a trave. Foto: Rodolfo Bührer/Arquivo Gazeta do Povo

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