A eleição acabou e, como costuma acontecer quando o eleitor resolve falar de verdade, muita coisa que parecia enorme até sábado amanheceu menor nesta segunda-feira. Cargo, padrinho, estrutura, tempo de televisão, pesquisa, articulação, palanque e expectativa ajudam durante meses, mas perdem boa parte da serventia quando a urna fecha e começa outra contagem, a do poder que cada um efetivamente levou para casa.
Sergio Moro acorda governador eleito do Paraná, Ratinho Junior continua grande, mas não fez o sucessor, Sandro Alex e Requião Filho voltam para reorganizar seus caminhos, Filipe Barros chega ao Senado, Deltan Dallagnol recebeu votos para chegar também, embora ainda tenha uma eleição particular para resolver no TSE, e Alexandre Curi, presidente da Assembleia e candidato de uma estrutura política respeitável, ficou sem a cadeira que disputava.
A urna não concedeu entrevista, não explicou suas razões e tampouco pediu licença. Apenas reorganizou a fila.
50,11%. ACABOU
Sergio Moro chegou aos 50,11% dos votos válidos e resolveu a eleição no primeiro turno, enquanto Sandro Alex terminou com 25,35% e Requião Filho com 23,48%. Depois de uma campanha inteira discutindo ausência em debate, padrinhos, estrutura, rejeição, alianças e pesquisas que enxergaram vários Paranás diferentes nas últimas semanas, o Paraná real apareceu no domingo e dispensou a segunda rodada.
Não foi uma avalanche, nem precisava ser. Moro atravessou a linha por pouco, mas eleição majoritária tem uma matemática especialmente desagradável para quem fica do outro lado: depois dos 50% mais um, não adianta pedir margem de erro.
RATINHO DESCOBRIU O LIMITE DA TRANSFERÊNCIA
A derrota de Sandro Alex não cabe apenas nos 25,35% que recebeu. Ratinho Junior chega ao fim de oito anos de governo com popularidade, estrutura municipal, aliados espalhados pelo Paraná e presença nacional, mas não conseguiu transformar esse patrimônio na eleição do sucessor que escolheu. Isso não apequena Ratinho nem elimina o tamanho político que acumulou, porém acrescenta uma informação nova ao seu currículo: o governador construiu uma força eleitoral própria, mas encontrou o limite dela quando tentou entregá-la a outro nome.
Popularidade ajuda muito numa campanha. Transferência de voto, ao contrário da bancária, não vem acompanhada de comprovante.
REQUIÃO FICOU PERTO. E FICOU
Requião Filho terminou com 23,48%, menos de dois pontos atrás de Sandro, preservando algo que já conhecíamos: existe um eleitorado que é dele e permanece com ele mesmo diante de estruturas maiores. O problema está justamente na outra metade dessa constatação. Requião voltou a demonstrar capacidade para permanecer competitivo, mas não conseguiu romper a fronteira entre participar da disputa e comandá-la.
Durante a campanha repetiu argumentos, adversários e uma narrativa que lhe garantiu espaço, porém não produziu a expansão necessária. Ficou perto de Sandro. E ficou.
O ORGANOGRAMA NÃO VOTA
A derrota governista não parou em Sandro Alex. Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa, também ficou fora das duas vagas ao Senado. Tinha prefeitos, deputados, lideranças municipais, capilaridade e a estrutura política construída em torno do governo Ratinho Junior, uma lista respeitável de ativos que funcionaria muito bem numa apresentação de PowerPoint. A urna escolheu Filipe Barros e Deltan Dallagnol.
Curi descobriu no domingo uma das pequenas crueldades da eleição: urna eletrônica não lê organograma.
O SENADO FOI PARA OUTRO LADO
Filipe Barros e Deltan Dallagnol foram os dois nomes escolhidos pelo eleitor paranaense para as vagas em disputa no Senado, embora a situação jurídica de Deltan continue aberta. Somada à saída de Moro para assumir o governo e à consequente chegada de seu suplente, a representação paranaense ganha uma configuração ainda mais identificada com a direita e com o campo político que transformou a relação com o Supremo em assunto de campanha. Filipe nunca escondeu suas posições sobre a Corte, Deltan muito menos.
O eleitor não escreveu uma resolução institucional na urna, mas escolheu quem terá caneta e voto para participar dessa conversa.
DELTAN GANHOU NA URNA. FALTA O TSE
Deltan Dallagnol recebeu votos suficientes para ocupar uma das cadeiras do Paraná no Senado e aparece entre os eleitos no resultado divulgado pelo TRE-PR, mas domingo resolveu apenas uma parte da história. Na noite de sábado, Floriano de Azevedo Marques havia indeferido monocraticamente seu registro; poucas horas antes da votação, Nunes Marques suspendeu a decisão, restabeleceu a situação de registro deferido com recurso e determinou que seus votos fossem contabilizados. O mérito ainda terá de ser enfrentado pelo plenário do TSE.
Deltan passou por milhões de eleitores. Agora começa uma eleição bem menor em número de votantes, mas igualmente decisiva para o mandato: são sete, todos ministros.
14 A 13. E AGORA É CONVERSAR
Moro ganhou o governo, mas não recebeu junto uma Assembleia pronta para colocar debaixo do braço. O PL elegeu 14 deputados estaduais e terá a maior bancada da Casa; o PSD, partido de Ratinho Junior, vem imediatamente atrás, com 13. A Federação PT/PCdoB/PV terá oito cadeiras, PP/União seis, Novo quatro, Podemos e Republicanos três cada, MDB duas e PDT uma. É uma composição que oferece ao governador eleito sua primeira aula prática fora da campanha. Para ganhar no primeiro turno, bastou chegar a 50,11%. Para governar com maioria na Assembleia serão necessários 28 votos. Os outros 14 não estavam disponíveis no mesmo botão da urna.
A URNA NÃO OBEDECEU A UMA ÚNICA ONDA
O resultado proporcional ajuda a complicar qualquer tentativa de resumir o Paraná numa única frase. A direita saiu fortalecida, evidentemente, mas a Assembleia que começa em 2027 também terá oito deputados da Federação PT/PCdoB/PV, seis de PP/União e uma distribuição partidária que obrigará qualquer governo a negociar. Na Câmara Federal, o Novo colocou Jeffrey Chiquini no topo da votação paranaense e também elegeu Guilherme Kilter entre os nomes de maior votação, enquanto diferentes partidos garantiram representação.
O mesmo eleitor que foi bastante objetivo ao escolher o governador resolveu distribuir melhor as fichas quando chegou aos deputados. Ainda bem que a urna não lê análise política antes de abrir.
O SUPREMO FOI CANDIDATO SEM FAZER CAMPANHA
Nenhum ministro do Supremo precisou pedir voto, distribuir santinho, gravar programa eleitoral ou enfrentar urna neste domingo. Ainda assim, poucos personagens não candidatos participaram tanto da eleição. A nova composição do Senado brasileiro deslocou a Casa para a direita e vários dos eleitos fizeram da crítica ao STF, da limitação das decisões individuais e até da possibilidade de impeachment de ministros parte explícita de suas campanhas. Seria exagerado afirmar que milhões de brasileiros votaram por uma única razão, mas seria igualmente cômodo fingir que o assunto não chegou às urnas.
Depois de anos de tensão entre Congresso e Supremo, o Senado que saiu da eleição parece menos disposto a assistir à discussão da arquibancada.
O PLANALTO FICOU PARA DEPOIS
O Brasil resolveu governos estaduais, Senado, Câmara e assembleias neste domingo, mas deixou a Presidência para uma segunda conversa. Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno em 25 de outubro e começam agora uma campanha diferente daquela que terminou. Sai de cena a possibilidade de falar quase exclusivamente para os próprios e entra a obrigação de procurar quem votou em outros candidatos, anulou, deixou em branco ou nem apareceu. E os dois terão um pequeno detalhe adicional para administrar: o país político no qual um deles governará já mudou antes de sabermos quem será o presidente.
A cadeira do Planalto ficou para depois. As cadeiras ao redor dela, não.
A SEGUNDA-FEIRA COMEÇOU NO DOMINGO
Talvez seja essa a melhor maneira de olhar para o que aconteceu. A eleição não produziu apenas uma lista de eleitos; mudou a posição das peças. Moro deixa de ser senador e adversário do governo para se tornar governador eleito. Ratinho não fez o sucessor, mas conserva um PSD enorme dentro da Assembleia. A esquerda não chegou perto do Palácio Iguaçu, porém preservou presença relevante no Legislativo. Filipe Barros chega ao Senado, Deltan depende do TSE, Curi ficou de fora e a Presidência continua em disputa.
O eleitor distribuiu poder sem entregá-lo inteiro a ninguém e fez tudo isso sem precisar explicar suas razões. Durante meses, políticos, institutos, marqueteiros, jornalistas e analistas tentaram interpretar o que ele faria. No domingo foi a vez de ele responder. Levou poucos minutos diante da urna e deixou serviço para todo mundo na segunda-feira.
