Da boca à bexiga, passando por pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, útero e rim. Os efeitos do tabagismo passeiam pelo corpo de homens e mulheres e elevam os riscos de surgimento de diversos tipos de câncer.

Que o fumante tem mais risco de ter câncer de pulmão quase todo mundo tem conhecimento. Mas o que muita gente não sabe é que o tabagismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), problemas nos dentes e gengivas, úlceras, hipertensão arterial e, até, osteoporose.

Quando o assunto é câncer, o fumo está relacionado ao surgimento de quase 40% dos tumores malignos, sendo responsável por 30% das mortes em razão da doença. O alerta é do cirurgião oncológico Jefferson Luiz Gross.

O cigarro é o causador de 80% a 90% dos tumores malignos pulmonares e é o maior responsável pelos cânceres de boca, laringe, faringe e esôfago, além de estar diretamente associado aos tumores de rim, bexiga, pâncreas e colo do útero.

De acordo com o especialista, o cigarro contém cerca de cinco mil substâncias químicas, entre elas, mais de 40 cancerígenas e o contato repetido do tabaco agride as células e prejudica o organismo de diversas formas.

“O processo de dependência é iniciado quando as células e os tecidos dos órgãos entram em contato com a fumaça inalada, absorvendo as substâncias tóxicas”, observa Gross.

No caso dos portadores de DPOC, o primeiro passo para retomar a saúde é abandonar o vício.

A próxima etapa para reduzir a progressão da doença é iniciar o tratamento, estruturado em quatro pilares: reabilitação pulmonar, terapia medicamentosa, oxigenioterapia e suplementação alimentar, dependendo do estágio da doença.

Voltar a respirar

Cerca de 90% dos portadores da doença são fumantes e, se continuarem fumando, pouco serão beneficiados pelo tratamento. “Por esse motivo, é importantíssimo que o paciente tenha consciência do mal que o cigarro faz e procure ajuda, se necessário, para abandonar o vício”, alerta o pneumologista Sérgio Ricardo Santos.

A pesquisa Revelar, feita com 229 pessoas com diagnóstico confirmado da doença em quatro capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre), indicou que 91% dos pacientes deixaram de fumar somente após saberem que eram portadores de DPOC.

Desse total, 87% nunca procurou um médico para abandonar o vício. O estudo, o único que mapeou o perfil dos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, mostrou ainda que 99% dos pacientes fumaram, em média, 11 cigarros por dia durante 37 anos.

Os fumantes tendem a achar que as consequências maléficas do cigarro são irreparáveis e, por isso, muitas vezes não param de fumar. “É preciso combater essa crença e lembrar que é possível voltar a respirar, ter capacidade produtiva e resgatar a qualidade de vida com medicamentos específicos para tratar a DPOC”, esclarece o pneumologista.

Sem otimismo

O cigarro afeta também aqueles que não fumam. Basta respirar continuamente a fumaça dos derivados do tabaco para que sejam apresentados sintomas de irritação nasal, dos olhos e garganta, dor de cabeça, vertigem, náuseas, tosse, entre outros.

Além disso, os fumantes passivos apresentam maior risco de desenvolverem as mesmas doenças relacionadas ao consumo de cigarro, como câncer e doenças cardiovasculares.

Jefferson Gross destaca que nem mesmo os bebês estão imunes ao males do tabagismo.

“Quando expostos à fumaça do cigarro dos p,ais, correm 50% mais riscos de desenvolver infecções como a pneumonia”, esclarece.

Atualmente 17,5% da população brasileira adulta é fumante e 200 mil pessoas morrem por ano no país por causa do tabaco. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a instituição, o tabagismo mata cerca de 10 mil pessoas por dia.

Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam uma média de 27 mil casos novos por ano no Brasil de câncer pulmonar. Além disso, a cada ano diminui a distância entre homens e mulheres no que se refere à incidência da doença. Há 10 anos a proporção era de uma mulher para casa 4,5 homens. Hoje a doença atinge as mulheres em quase metade dos casos.

O cardiologista Aristóteles Alencar, do Comitê Antitabaco da Sociedade Brasileira de Cardiologia, diz que do ponto de vista médico, o tabagismo deve ser considerada uma doença pediátrica, pois 90% dos atuais fumantes confessam que aderiram ao vício antes de se tornarem adultos.

Cigarro e seus tumores

Nas mulheres, o cigarro contribui para o aumento da taxa de infertilidade, amplia riscos de câncer do colo do útero, de alterações menstruais e de doenças cardiovasculares.

Nos casos de câncer de colo do útero, o tabagismo apresenta-se como fator associado à infecção pelo vírus HPV em 97% dos casos e diminuição da imunidade.

Durante a gravidez o cigarro pode interferir no acesso de nutrientes pela placenta, o que favorece baixa de peso no bebê e, em casos extremos, causa aborto. “Os riscos para doenças cardiovasculares também são ampliados quando o tabaco está associado ao uso de métodos anticoncepcionais”, afirma o cirurgião Jefferson Gross.

A presença do tabaco como fator de risco é frequente também para tumores de laringe, faringe e boca. Levantamento recente liderado pelo cirurgião oncológico Luiz Paulo Kowalski, aponta que o tabagismo tem ligação com 80% a 90% dos casos, sendo que quem fumou um maço por dia durante 20 anos tem cinco a seis vezes mais chances de desenvolver câncer em relação a quem nunca fumou e para quem fumou dois maços por dia durante 20 a 25 anos. Já o risco de ter câncer é 15 vezes maior se comparado a um não fumante.

Idosos em perigo

Por ser progressiva, a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) geralmente se manifesta após os 40 anos e se não for diagnosticada e tratada em tempo, pode comprometer seriamente ao dia a dia do portador e até incapacitá-lo.

O pneumologista Fernando Lundgren, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) alerta que os pacientes acima de 60 anos que não foram diagnosticados precocemente tendem a apresentar quadros mais graves com crises e internações frequentes.

Embora ainda não tenha cura, a doença pode ser controlada com medicamentos específicos. “O tratamento é capaz de interferir de forma positiva na evolução da doença”, garante o pneumologista.

Os médicos fazem ainda um apelo para que os idosos e também a família não subestimem os sintomas da DPOC, acreditando que a falta de ar ou a tosse são comuns na idade avançada.

“O desafio hoje é saber amadurecer com saúde, assim, com tratamento adequado o paciente se torna mais ativo e independente, preservando sua qualidade de vida”, completa o especialista.

Principais causas da DPOC

* Tabagismo

* Fumo passivo

* Exposição às substâncias químicas nocivas

* Poluição

* Produtos orgânicos no ar ou gases tóxicos

* Fumaça de lenha

* Infecções respiratórias graves na infância

* Problemas respiratórios frequentes