Casa, família, trabalho e bem-estar. Mulher, hoje em dia, é super atarefada e já corre muito para dar conta de tudo isso. Mas, e quando ela acrescenta – por vontade própria – mais uma atividade que exige muita dedicação? É o que acontece diariamente com mulheres que resolveram ser voluntárias. Elas doam parte do tempo que têm para ajudar o próximo por meio de instituições ou iniciativas próprias. As motivações para isto são diversas e vão desde a vocação até a busca por uma forma de se reerguer de uma tragédia. No entanto, as causas não são o mais importante. O que vale é a diferença que estão fazendo na sociedade e como podem inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo.

A mulher, por sua própria natureza e questões culturais, se propõe a ser voluntária com mais facilidade por achar que pode ajudar o próximo, independentemente de sua situação financeira ou social. Exemplo disto está na quantidade de mulheres que participam da palestra informativa do Centro de Ação Voluntária (CAV), de Curitiba, que ajuda na orientação e encaminhamento dos interessados em entrar no voluntariado.

Segundo a analista de projetos da entidade, Daniela Malta, as mulheres representam 75% do total de participantes desta palestra informativa, que é o primeiro passo para conhecer um pouco mais sobre voluntariado. “As mulheres, até pela forma que conseguem se organizar, mesmo com várias tarefas para cumprir, conseguem encaixar nas suas rotinas o voluntariado, que também precisa ser prazeroso, e não pode ser encarado como um peso. Tem que ser algo possível para elas, que sempre estão com muita motivação. As mulheres, de maneira geral, quando entram no voluntariado, é para valer”, comenta Daniela. Conforme dados do CAV, a maior parte delas procura áreas relacionadas à assistência social ou com crianças e adolescentes.

Soraya Simon divide a sua rotina entre trabalhar durante todo o dia, a semana toda, e ainda dar aulas de inglês aos sábados. A folga viria no restante dos finais de semana. Mas Soraya dedica o tempo que seria de descanso para ajudar no resgate de animais maltratados e daqueles bichinhos que estão alojados na Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba (SPAC), instituição da qual é presidente no momento. “Desde criança, eu não podia ver um animal na rua. Sempre foi algo muito forte”, conta Soraya.

Daniel Derevecki

Tanto que ela desistiu de uma carreira na área de Ciências porque seria necessário lidar com testes em animais e isto a incomodava demais. Depois de optar por estudar nos Estados Unidos e concluir um curso na área de Administração, Soraya retornou ao Brasil. “Lá, eu ajudava diversas organizações, de diferentes áreas. Mas não tinha coragem de ir em um abrigo de animais nos Estados Unidos porque eles tinham um sistema de sacrificar o animal se ele não fosse adotado em um determinado período”, lembra.

Soraya voltou para Curitiba em 2001. Neste mesmo ano, ela conheceu a SPAC, quando viu um pedido de doação de ração da entidade. “Foi o meu primeiro contato com a sociedade. Uma cadela, a Brancuda, e uma voluntária me receberam. Não sei explicar como foi a evolução, mas passei a ir nos finais de semana e nos feriados, além de me envolver com outros grupos de proteção animal”, afirma. O início do trabalho foi muito difícil para Soraya, que ficava muito mal ao ver a situação dos animais resgatados e que paravam na SPAC. “Hoje sou diferente. Choro menos e faço mais. Antes, me sentia impotente e agora vejo que há uma solução, que não é de recolher e sacrificar”, avalia.

Soraya relata que muitas pessoas acreditam que a Sociedade Protetora dos Animais tem obrigação de recolher os animais de rua, mas a entidade mudou o foco e hoje atua mais nas emergências, para poder, atender da melhor forma possível. “A gente faz porque quer. Mas as pessoas precisam também entender o papel delas. Não custa fazer o que está em seu alcance e entender até onde a gente consegue fazer. O que compensa tudo isto é quando você consegue ajudar um animal e tirar ele do sofrimento”, salienta Soraya. A SPAC atualmente conta com o trabalho de cerca de 30 voluntários e abriga aproximadamente 900 animais, entre cães, gatos e cavalos.

Reencontrando o sentido da vida

Arquivo Pessoal

O voluntariado foi a forma que Rosilene Vonsovicz encontrou para superar a maior dor de sua vida: perder a filha Débora em um acidente de carro na BR-116, nas proximidades de Mandirituba. Tudo aconteceu há três anos, em um Dia das Mães. “A gente tem duas escolhas neste momento: ou a gente morre junto ou a gente sobrevive. A nossa família escolheu a segunda opção”, conta Rosilene.

Depois da realização de um protesto juntamente com outras famílias que perderam entes queridos na rodovia, surgiu a ideia de fazer uma ação de cidadania para a população carente de Mandirituba, onde mora. O projeto foi chamado de Dia da Esperança e oferece serviços gratuitos como corte de cabelo, lazer e alimentação. “A intenção inicial era fazer uma ação social em uma comunidade pequena. De repente, o projeto foi crescendo. Amigos da Débora ajudaram muito e, no primeiro Dia da Esperança, atendemos 2,5 mil pessoas. No ano seguinte, foram quase cinco mil pessoas”, afirma Rosilene.

A terceira edição do projeto está programada para amanhã, no Parque Municipal de Mandirituba. A organização oferece transporte gratuito das comunidades convidadas a participar até o local do evento. “O Dia da Esperança é totalmente voluntário. Largo tudo para correr atrás do que precisa. Recebemos doação de alimentação, bebidas, produtos. E ninguém paga nada no dia”, ressalta Rosilene. Cerca de 500 voluntários ajudam no Dia da Esperança.

A expectativa é atender cerca de três mil pessoas em um único dia. “Temos dificuldade em encontrar pessoas dispostas a ajudar. Sábado é o dia mais rentável para cabeleireiro, por exemplo. Por isso, é um dos profissionais que mais temos dificuldade. É fácil doar dinheiro. Mas doar tempo é precioso. Precisamos de ajuda para tudo, desde cozinhar até recolher o lixo”, indica Rosilene. Apesar de todo o trabalho, ela diz que vale a pena. “É uma felicidade inexplicável. Além de ser gratificante fazer o bem para o próximo, estamos despertando o voluntariado”, assegura.

Histórias pra animar o dia

Marco Andre Lima

Ouvir uma boa história faz um bem danado. E é por isto que voluntários levam este mundo da imaginação para um público que precisa muito de atenção: os idosos. Entre os chamados contadores de história estão mulheres que se dedicam em levar histórias, carinho, alegria e emoção para pessoas que não conhecem. A psicóloga Elizabete Aparecida Bragatto Abate faz exatamente este trabalho voluntário no Asilo São Vicente de Paulo, por meio de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), a Casa do Contador de História.

Há sete anos, a programação de Elizabete tem a contação de história, além do trabalho e dos cuidados com a família e a casa. Tudo começou quando ela descobriu o curso de contação de histórias. “Faço voluntariado há 15 anos. Pensei que poderia ajudar os outros usando o que eu tenho de melhor, o meu trabalho. Atendia voluntariamente, participava de grupos de terapia. Quando me mudei para Curitiba, queria continuar, mas não sabia como. Foi quando descobri o curso e era algo que eu já tinha interesse. Uni o útil ao agradáv,el”, explica.

Para Elizabete, o seu trabalho como voluntária não consiste apenas em memorizar uma história e repassá-la com a sua interpretação. Ela acredita que contar uma história é levar um algo a mais para este ouvinte. “Não levo apenas as histórias, mas também carinho e alegria para os idosos. Tanto que o que recebo de volta é a coisa mais gratificante. Escuto sempre ‘como é bom ter você aqui’. A gente recebe esta gratidão, desprovida de qualquer obrigação. Quando a gente chega no asilo, já percebe um brilho no olhar diferente, um clima diferente”, revela a psicóloga.

Ela vai às segundas-feiras ao asilo para desenvolver seu trabalho como voluntária. Separa um espaço na agenda para isto. O voluntariado é um compromisso. “Vou segunda-feira e já ganho a minha semana quando vou lá”, garante Elisabete. Além da psicóloga, outras três pessoas contam histórias para os idosos no Asilo São Vicente de Paulo, por uma hora, a cada segunda-feira.

As mulheres do jaleco rosa

Marco Andre Lima

Um “exército” de voluntários anda pelos corredores do Hospital Erasto Gaertner, referência no tratamento contra o câncer. Estas pessoas, em sua maioria mulheres, atuam em diferentes frentes para ajudar nas demandas do hospital, desde preparar curativos (o que representa uma diminuição nos custos) até preparar bazares para a arrecadação de recursos. Cada um ajuda da maneira como pode, mas depois de passar por uma seleção criteriosa para poder vestir o famoso jaleco rosa. “Acho uma glória vestir este jaleco. Não por vaidade, mas por orgulho do que já passei aqui dentro e do que fiz por este hospital”, comenta Walkyria Gaertner Boz, presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer, entidade que atua diretamente no Hospital Erasto Gaertner e que conta com cerca de 400 voluntários.

Marco Andre Lima

Walkyria é voluntária há 45 anos no hospital. “Conseguimos tudo com voluntariado. Somos uma força poderosíssima”, comenta. Além do envolvimento por ser sobrinha do próprio Erasto Gaertner, médico que dá nome à esta instituição de saúde – e de inclusive ter participado da inauguração do hospital -, Walkyria tira forças no voluntariado para superar a morte da própria filha e de outros familiares por causa do câncer. “O que for preciso fazer para frear esta doença, eu vou”, afirma ela, emocionada.

Uma das missões da Rede Feminina é atuar na prevenção do câncer. A entidade conquistou um prêmio de responsabilidade social por fazer um trabalho nesta área. Voluntárias vão para os terminais de ônibus e entregam panfletos com nove sinais de alerta: verificação de mudanças em pintas ou verrugas; alteração dos hábitos intestinais ou urinários; rouquidão ou tosse constante; hemorragia ou corrimento anormal; ferida que sangra ou não cicatriza; nódulo ou rigidez persistente na mama ou em outra parte do corpo; perda acentuada de peso sem causa aparente; e marchas vermelhas no seio. “São 100 mil folhetos por ano, entregues em visitas uma vez por mês em terminais de Curitiba”, conta Walkyria.

Marco Andre Lima

Doando-se ao próximo

Se você buscar o significado da palavra “voluntário” no dicionário, as definições que vai encontrar são as seguintes: 1) Que se faz ou deixa de fazer, sem coação nem imposição de ninguém; que está em nosso poder ou que depende do nosso livre-arbítrio fazer ou deixar de fazer. 2) Feito espontaneamente, por vontade própria, sem constrangimento ou obriga&,ccedil;ão.

De tudo isso, algumas palavras e expressões saltam aos olhos e chamam a atenção, como “sem imposição”, “livre-arbítrio”, “espontaneamente” e “vontade própria”. Ou seja, para ser voluntário, basta querer. O retorno, apesar de não haver remuneração, é a satisfação de estar fazendo o bem a quem precisa, em uma doação ao próximo sem interesses financeiros, políticos ou de outras naturezas.

E tem muita mulher que, mesmo com os seus tradicionais compromissos diários, como trabalho, casa e família, encontram tempo e disposição para o voluntariado. Nesta edição do TDelas, portanto, consultamos algumas mulheres que realizam trabalho voluntário para que elas contassem o que as motiva a destinar boa parte de sua semana para ajudar os outros. O resultado, você confere nas páginas centrais (4 e 5).

Eu, particularmente, tenho uma grande admiração por essas pessoas e acho que o trabalho delas deve ser bastante valorizado! Além disso, mostramos dicas de como consumir moda no supermercado e também tiramos dúvidas sobre métodos contraceptivos. Por último, ainda trazemos informações sobre uma triste realidade que atinge muitas mulheres na atualidade: o aborto espontâneo.