Ele tinha chegado à final de sete campeonatos pelo Brasil. Ele tinha vencido os títulos estaduais de Santa Catarina e Paraná, foi vice-campeão paulista com o Botafogo de Ribeirão Preto e vice-campeão Brasileiro da Série B com o Coritiba, levando o time do Alto da Glória de volta à primeira divisão nacional. No exterior acumulou taças na Arábia e por pouco não classificou os Emirados Árabes para a Copa do Mundo na França. Mas depois de rodar o Brasil e o mundo, o técnico Lori Paulo Sandri, com 22 anos de carreira, tinha mais um desafio à sua frente em 1998. Fazer do Juventude Esporte Clube, de Caxias do Sul, campeão gaúcho e quebrar escrita de 59 anos mantida pelos times da capital, principalmente por Grêmio e Internacional.

Era a chance deste gaúcho de Encantado firmar no estado em que nasceu, embora as suas carreiras de jogador e de técnico tenham nascido em Curitiba – mais precisamente em Vila Guaíra, primeiro no Água Verde e depois no Pinheiros. Apesar desta forte presença paranaense em sua vida, ele confessou para um jornal do Rio Grande: “Seria uma realização em termos profissionais ser campeão gaúcho. Meu coração sempre esteve aqui”. E depois de duas partidas disputadas nos dias 31 de maio e 7 de junho, dois domingos, o Juventude era campeão gaúcho. No primeiro jogo venceu por 3 a 1 em Caxias do Sul e no segundo segurou o empate sem gols no Beira-Rio. Sem contar que o time terminou a competição invicto. Quando o juiz Carlos Simon apitou o fim da segunda partida, diante de 35 mil pagantes, Lori Sandri entrou também para a história do futebol do estado em que nasceu.

Descansando na poltrona de sua casa em um agradável condomínio na Rua Comendador Franco, convalescendo de uma cirurgia delicada que salvou a sua vida, Lori Sandri se lembra daquela decisão. “Aquilo foi uma guerra. O zagueiro Lúcio, hoje no Palmeiras, deu um soco em Sotilli, que afundou a cara do atacante, coisa truculenta”, diz ele. Lori guarda as cenas do jogo com nitidez. Depois que tudo passou, ele contabilizou aquele título como mais um episódio na longa carreira de técnico. Uma carreira que começou de forma precoce com 26 anos no Esporte Clube Pinheiros, em 1976, quando o técnico Joubert resolveu largar o time e voltar para o Rio de Janeiro. O time estava mal. E não tinha dinheiro. A diretoria chamou o goleiro Célio, que era experiente e entregou a ele a tarefa de dirigir o time. Célio sugeriu que pegassem Lori Sandri, um dos veteranos do time ao lado do goleiro. Célio disse que ajudava o companheiro. E foi assim que tudo começou.

“O Célio disse para mim que queria continuar jogando no gol e que achava bom eu pegar o time”, lembra Lori Sandri. Ele pegou, recuperou o time, e ainda muito jovem estreou na carreira de técnico – ao mesmo tempo em que pendurava as chuteiras como jogador. Daquele longínquo ano até aqui, Lori Sandri dirigiu mais de 35 equipes, incluindo várias da Arábia Saudita, onde esteve em oito ocasiões, uma do Japão no Verdy Tokio e a seleção dos emirados árabes. No Paraná, ele dirigiu os três da capital – Coritiba, Atlético e Paraná, além de Toledo e o Grêmio de Maringá. “Alguns times eu dirigi várias vezes”, recorda. Um destes é o Criciúma, pelo qual passou seis vezes.

O rei da Arábia

Arquivo pessoal

“Vou te contar uma coisa: o Telê Santana, o Felipão, o Parreira, o Didi e o Luxemburgo, todos estiveram no Oriente Médio. Mas nenhum ganhou mais títulos que eu por lá”, diz Lori Sandri. Foram ao todo seis títulos. Destaque para a passagem pela seleção dos Emirados Árabes nas eliminatórias da Copa 98.

Uma festa

Lori Sandri conta que um dos choques que o brasileiro tem ao trabalhar nos, países árabes é a fartura de dinheiro. ‘Quando o nosso time ganhava algum campeonato, os dirigentes fechavam as boates e pagavam tudo. A despesas era ilimitada. Era uma festa’, conta ele.

Cereja do bolo

Arquivo pessoal

Dos seis títulos conquistados na Arábia, Lori Sandri considera a Copa do Rei de 92/93 o mais importante. Ele venceu a competição dirigindo o Al Shabab.

Patrulha

‘Quando eu fui trabalhar no Atlético como treinador, eu tive que adaptar o meu carro – era uma Belina -, para recolher os jogadores que saiam para a balada. Chegou uma hora que eu sabia onde estava um e outro. Então de noite eu saia e ia recolhendo um por um. Era o único jeito de ter alguém no dia seguinte. Mas não foi apenas essa mudança que aconteceu. Como eu ia fazer treino de manhã? Chegava na fisioterapia e um monte estava dormindo. Eu fui empurrando os treinos cada vez para mais tarde’, conta Lori Sandri. O problema não era exclusivo do Atlético. Balada é o inimigo número 1 do técnico.

Porrada

‘Quando eu treinava o Guarani, eu fui agredido de forma tão violenta, que meu maxilar deslocou. Fiquei seis meses parado. Pior é que deixei o time arrumadinho para o técnico seguinte que se deu bem’, diz Lori Sandri.

A caderneta que tudo sabe

Arquivo pessoal

Toda a carreira do jogador Lori está numa pequena carteira emitida pela FPF – da estreia no Agua Verde, da Vila Guaíra, ao final no Pinheiros.