Depois de altos e baixos, o mundo chega ao fim de 2020 com uma sensação em comum, a tal “fadiga da pandemia“. Trata-se de uma desmotivação da população em seguir as medidas recomendadas de proteção de si mesmos e de outros contra o novo coronavírus, de acordo com uma conceituação da Organização Mundial da Saúde (OMS) feita em outubro.

Mas não se trata de uma desmotivação sem razão. A quantidade de fatores estressores durante o ano foi significativa, segundo Ary Gadelha, professor de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

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“Nossas rotinas foram mudadas muito bruscamente, sem termos escolha. Só isso seria um gatilho para dificuldades e uma maior carga de estresse. No entanto, houve ainda todo o peso da pandemia, o medo da contaminação, o isolamento social e o impacto econômico”, descreve o professor, que é um dos autores do Guia de Saúde Mental Pós-Pandemia.

Não é a toa, portanto, que todos, em alguma medida, sintam-se cansados, exauridos ou fatigados. “A incerteza tem sido uma constante. Entramos na pandemia sem entender exatamente a sua extensão e os riscos. E agora vivemos a indefinição de quando esse processo se encerrará”, completa.

O que deveríamos ter feito?

Mesmo sem saber o que nos aguardava, algumas medidas que poderiam ter sido tomadas logo de início ajudariam, agora, a controlarmos melhor a ansiedade em voltarmos a uma vida quase normal, segundo Gadelha. Uma delas seria gerenciar melhor as expectativas.

“No início da pandemia, vi muitas pessoas traçando planos ousados, cumprir metas elevadas para o período. Essas expectativas, ao serem frustradas, causam tristeza, ansiedade e podem levar a um transtorno mental”, explica.

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Todos os fatores que favorecem a sensação de fadiga da pandemia, como a incerteza, o medo, da mudança da rotina, entre outros, favorecem o desenvolvimento de transtornos mentais, segundo o professor.

“A própria sensação de fadiga já aponta um risco aumentado ou pode ser sinal de que se deve procurar ajuda. Toda vez que as emoções deixam de flutuar de acordo com as situações para ficarem fixas e se associam a um alto grau de sofrimento ou prejuízo no desempenho profissional ou acadêmico, deve-se considerar a possibilidade de um transtorno mental e buscar a ajuda de um profissional de saúde, como um psicólogo ou psiquiatra.”

O vírus ainda não se cansou, e agora?

Você pode estar cansado da Covid-19, mas o coronavírus continua ativo, inclusive com aumentos recordes no número de casos. Além de ser uma preocupação individual, os governantes também buscam soluções para motivar os cidadãos.

A OMS reuniu especialistas de 30 países diferentes para compartilharem experiências, e divulgou quatro principais recomendações que poderiam servir de diretrizes:

  • Compreensão da população: coletar e usar evidências para políticas, intervenções e comunicações efetivas e personalizadas;
  • Engajamento da população como parte da solução;
  • Ajudar a população a reduzir o risco enquanto elas fazem atividades que as deixem felizes;
  • Reconhecer e lidar com as dificuldades que a população vivencia, e o impacto que a pandemia teve nas vidas de cada um.

Em um aspecto mais individual, Gadelha cita algumas estratégias para diminuir a sensação de “não aguento mais”, como:

  • Buscar pessoas de confiança para se abrir e falar como se sente;
  • Seguir uma rotina de sono, com horas aproximadamente fixas para dormir e acordar;
  • Fazer atividades físicas;
  • Evitar a ingesta exagerada de álcool;
  • Evitar um tempo excessivo do uso de telas e o consumo de notícias;
  • Sair de casa para ter uma mudança de “ambiente”, desde que seguindo as medidas de proteção do uso da máscara, higienização das mãos, distanciamento de outras pessoas e preferência a ambientes ventilados;
    Se estiver em home office, delimitar as horas de trabalho e de descanso claramente;
  • Buscar fazer reuniões online com amigos e familiares quando não for possível o contato presencial.