No dia seguinte ao desaparecimento do filho, Marineusa Rodrigues iniciou uma romaria para encontrar o seu paradeiro ou informação sobre o seu corpo. Até hoje não encontrou nem um, nem outro. Ela não sabe se ele está pelas ruas ou num cemitério clandestino ou mesmo numa vala comum num terreno baldio. A procura começou por todos os lugares do bairro em que mora, nos pontos de ônibus de Piraquara e depois em Curitiba. Ela foi aos hospitais, foi ao IML e nem sinal. Ela o procura até hoje. “Eu cheguei a procurar meu filho entre os mendigos de Curitiba, porque diziam que ele poderia estar entre eles e não achei. Cheguei a ir até a Morretes, porque um motorista disse que tinha visto alguém parecido com ele. Mas nada. Acho que meu filho morreu, mas não posso aceitar isso enquanto não ver o corpo dele. Porque todo morto tem um corpo. Enquanto não ver o corpo, para mim o meu filho está vivo”, disse ela.

Na realidade, o que existe de Edenilson Murilo Rodrigues é a lembrança dele numa velha foto desbotada e a esperança de que se ele estiver morto, tenha pelo menos um enterro decente. Enquanto isso, a mãe vai vivendo de lembranças. “Ele não tinha pai. Ele era o homem da casa. Ele ajudou a construir a nossa casa. A cerâmica do chão foi ele quem escolheu. Ele sempre me ajudava. Ia ao mercado e trazia a compra para casa. Ele gostava de cozinhar. Ele fazia torta de frango. Era um bom filho. Nunca tirou nada de casa. Quando começou a viver com aquela moça, eu comecei a desconfiar de alguma coisa. Eu não sabia do envolvimento com drogas, mas vivendo com aquela mulher (Marilucia de Freitas), eu fiquei desconfiada. Eu queria que ele viesse para casa. Aconteceu aquilo. Disseram que ele tinha fugido. Eu tenho muitas perguntas. Bastante. Eu acho que eles (os policiais) foram lá, não encontraram nada e fizeram uma covardia”, relata a mãe.

“Embora tudo leve a crer que ele esteja morto, eu ainda tenho esperança. Eu acredito que ele esteja vivo. Eu quero acreditar que a polícia não foi tão violenta ao ponto de tirar a vida dele. Mas o problema é que ninguém dá resposta. Deixa tudo mais difícil, complica mais o fato de que os policiais são suspeitos. Eles fazem tudo para não esclarecer nada. Eles disseram que não puseram a mão no meu filho. Mas as testemunhas dizem que eles ficaram na casa duas horas com ele. O que ficaram fazendo, então? Meu filho não era de briga. Ele não brigava nem com cachorro. Eu me lembro de quando nasceu a filha dele, ele ficou feliz. Aonde eu vou, eu procuro por ele. Era o meu único filho”, diz a mãe com uma máscara de dor no rosto.

“Eu fico pensando. Por que não levou todo mundo para a delegacia? Se estava fazendo coisa errada, que fosse preso. Mas não precisava judiar. Não precisava matar. Tinha mais gente na casa. Todo mundo ficou quietinho, não sofreu nenhum arranhão, só ele. Por que só ele? A gente se põe no lugar dele e fica pensando o que ele sofreu nesta hora. Houve um boato de que ele estava perambulando como mendigo na Praça Manoel Eufrásio, na Rodoferroviária. Eu fui lá para ver se ele estava vivo e perdido por aí. Fui ao lugar onde recolhem meninos. Eu mostrei a foto dele. E perguntei: Vocês não viram este piá por aí?”

“Você está com essa?”

“Ele estava dois anos com a Marilucia. Quando eu perguntava com quem ele estava, ele dizia que era uma mulher aí. Ele nunca contava. Quando eu a vi eu não acreditei. Você está com essa aí? Era o tipo de mulher que dormia de dia e saia à noite. Ele respondeu, ah, mãe, nada a ver. Eu acho que a polícia chegou nele através dela. Eu fiquei sabendo que ele usava drogas quando eu fui procurar ele no IML. Quando ele vinha em casa, ele vinha perfeito. E nem sabia o que era, se era maconha ou outra coisa. Foi o Edenilson Barreto que levou a polícia lá.”

“O outro só assinou”

“O Edenilson Barreto só foi na delegacia se apresentar para assinar o termo circunstanciado. Ele foi solto na mesma noite. Me dá uma revolta quando eu leio as reportagens sobre a morte de meu filho. Ele deixou uma filha cha,mada Eloá, que na época tinha três anos. Ele teve a filha com uma menina, a Jéssica dos Santos. Quando ele começou a se envolver com esta outra moça, a Jéssica se assustou e queria fazer logo o divórcio. Tudo isto começou porque o Edenilson Barreto, que era mudo, estava com droga. E a mãe dele viu e chamou a polícia.”

“Tenho medo”, diz mãe de Edenilson.

Marilucia diz que não viu

Marilucia de Freitas disse à época que jogava baralho com dois amigos de Edenilson (Ricardinho e Leonardo), quando a polícia apareceu. “Ele saiu correndo e não vi mais nada. Só ouvi policiais gritando ‘canil’”, disse. Ela sugeriu que Edenilson teria pulado o muro dos fundos da chácara. Ela não sabe se ele foi capturado pelos policiais alegando que “eles me colocaram em um cômodo com a minha filha e não sei se meu marido foi apanhado. Só ouvi alguns policiais do lado de fora conversando entre eles e rindo”. Esta versão, no entanto, é colocada em dúvida pela mãe do rapaz.

“Eu tenho medo”

“Tem cinquenta testemunhas e os policiais nem foram ouvidos. Só vou acalmar meu coração no dia em que eu tiver uma resposta. Alguém tem que abrir a boca. Por que a menininha viu e ninguém mais viu? Mas às vezes eu tenho medo que façam alguma coisa comigo. Às vezes eu atendo o telefone, penso que é meu filho, mas ninguém fala nada, é só uma respiração do outro lado. Mas até onde a história chegou, eu tenho que ir em frente, eu tenho que botar a boca no trombone. É um direito meu. É meu filho. Até hoje quando eu vou ao mercado, as pessoas me perguntam se eu tenho notícias. Eu tenho muita saudade dele. Eu ligava todos os dias para ele. Ele era uma pessoa que estava precisando de ajuda e não de tortura. Depois que tudo isto aconteceu, a gente fica fora da casinha. Não tem mais aquela alegria. Um dia a resposta vai vir para nós. No final das contas, a gente acaba sendo torturada também. É uma tortura muito grande na vida da gente”.

Leia a primeira parte da reportagem: A longa espera!

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