O corpo de Márcio foi encontrado na
noite de terça-feira, no Rio Pequeno.

A outrora pacata São José dos Pinhais enfrenta uma onda de violência que poucas vezes se teve notícia. No mês de maio, a cidade de quase 250 mil habitantes registrou o maior número de homicídios da região metropolitana de Curitiba: treze casos. Índice que alarma a polícia e provoca reações na comunidade.

Na noite de terça-feira, alunos e funcionários dos colégios Padre Antônio Vieira e Afonso Pena organizaram uma passeata pelas ruas do bairro Afonso Pena, protestando contra a criminalidade e pedindo mais recursos para a polícia. Era uma resposta indignada ao assassinato de Diógenes Dias de Souza, 19 anos, morto por espancamento na madrugada do último sábado, na saída de uma boate da localidade. “Queremos a punição dos responsáveis pelo crime. Não agüentamos mais tanta violência”, disse a diretora Josiane Dal Moro, da Escola Padre Antônio Vieira, onde Diógenes estudava. O rapaz, pacífico segundo os colegas, foi espancado por cinco pessoas por ter reagido a provocações à namorada dele.

Explosão

Diógenes foi só mais uma entre as várias pessoas assassinadas em diferentes bairros da cidade. O índice de quase um caso a cada dois dias impressiona: Curitiba, com 1,6 milhão de habitantes, teve pouco mais de um assassinato por dia em 2003, segundo dados recentes da Delegacia de Homicídios. A última vítima foi Mário Eloir Persegona, 29 anos, encontrado morto ontem à tarde no Jardim Jurema (veja matéria abaixo).

Nem mesmo a polícia escapa da onda de violência. No último dia 11, os investigadores Emerson Mazza e José Ciro Abdala, da delegacia de São José dos Pinhais, foram baleados pelo assaltante Valmir Pires Correia, de 24 anos, quando o transportavam da delegacia para o hospital. O bandido fugiu e ainda não foi recapturado. Abdala recebeu alta alguns dia depois e Mazza continua internado com risco de ficar tetraplégico. O criminoso estava sendo transportado para o hospital local, quando conseguiu fugir. Baleado dias antes por PMs, ele usava uma bolsa coletora de urina e provavelmente escondeu a arma usada contra os investigadores na própria bolsa. Até agora não se sabe como ele conseguiu o revólver.

Tráfico

Para a Polícia Civil, o aumento da violência está diretamente ligado à disseminação do tráfico de drogas na cidade. “Houve uma explosão demográfica nos últimos anos, que trouxe bolsões de pobreza e, por conseqüência, aumento na criminalidade. A maioria das vítimas não tinha vida regular”, disse a delegada Maritza Haisi, acrescentando que a delegacia autuou em flagrante cinco indivíduos por tráfico de drogas desde a última sexta-feira. Segundo ela, houve “uma ou duas” prisões de acusados de homicídios cometidos em maio.

Desarmamento

Para a Polícia Militar, o panorama em São José dos Pinhais não é diferente do que ocorre no País inteiro. “O fenômeno é global, causado pela exclusão social, desemprego, educação deficiente e outro fatores”, disse o capitão Milton Isack Fadel Júnior, comandante da 1.ª Companhia do 17.º Batalhão da PM, unidade responsável pelo policiamento na cidade.

Em São José dos Pinhais, a PM não promove operações com o fim específico de combater assassinatos. Mesmo as ações conjuntas para promover o desarmamento têm sido deixadas de lado aos poucos. “Pela experiência, sabemos que o patrulhamento normal dá mais resultado em termos de apreensões de armas”, disse Fadel.

Punição

O oficial salienta que o homicídio é um crime difícil de ser prevenido, mas há algumas formas de coibi-lo. A principal delas é a punição dos criminosos. “As pessoas cometem o crime porque se sentem fora do alcance da lei. Se tivéssemos uma Justiça mais ágil e uma polícia com meios de captura mais eficientes, os índices diminuiriam naturalmente”, falou o capitão, que concorda que a redução do número de armas em circulação e a própria participação ativa da comunidade, denunciando homicidas, também renderiam bons frutos.

Enquanto isso, a população, amedrontada, aguarda uma resposta.

Vítimas do tráfico

Clewerson Bregenski

O corpo de outro jovem que estava desaparecido desde o último fim de semana, em São José dos Pinhais, foi localizado na manhã de ontem. Mário Eloir Persegona, 29 anos, mais conhecido por “Alemão”, estava a poucos metros de onde foi encontrado, na noite de terça-feira, o cadáver de Márcio Marcelo de Souza, 24, o “Macaco d? Água”. Os dois eram amigos e haviam sido vistos pela última vez caminhando juntos na localidade de Rio Pequeno, bairro Jardim Jurema, local onde residiam.

Mário foi encontrado boiando no Rio da Curva, com as mãos amarradas e aparentemente sem sinal de perfurações pelo corpo. O pescoço estava envolto por uma corda, mas a causa da morte dele só deverá ser diagnosticada por exames complementares. O Corpo de Bombeiros (Divisão Aquática) foi chamado para a retirada do cadáver.

No IML de Curitiba consta que Márcio foi morto por disparo de arma de fogo. Provavelmente com Mário deve ocorrer o mesmo diagnóstico.

Drogas

A principal suspeita da polícia para a execução dos dois jovens é acerto de contas por envolvimento com drogas. De acordo com o superintendente Everson Haisi, da delegacia de São José dos Pinhais, no bolso de um dos jovens foi encontrada uma pedra de crack e uma marica (cachimbo utilizado para o consumo da droga). Familiares de Mário confirmaram que ele era viciado em crack. A hipótese de que as vítimas foram assassinadas por traficantes ficou evidente quando o corpo de Márcio foi reconhecido por parentes após ser retirado do rio. “Malditos traficantes”, gritavam familiares do jovem, chocados com a morte.