Foto: Ciciro Back/Tribuna

Mulheres e crianças ciganas estão amedrontadas com a reação de vizinhos.

O desenrolar das investigações do assassinato de Giovanna dos Reis Costa, 9 anos, está trazendo conseqüências violentas à comunidade cigana, instalada em Curitiba e em municípios da Região Metropolitana. Membros dessa comunidade, dizendo-se vítimas de preconceito, garantem que têm sido obrigados a mudar até mesmo a rotina de seus acampamentos após a decretação da prisão de Pero Petrovitch Theodoro Vichi, 18 anos, e sua mulher, uma adolescente de 15 anos.

De acordo com Maurício de Castro Cristo, presidente da Federação Nacional dos Ciganos do Brasil (Fenadruci), desde que a família Petrovitch foi acusada de participar do crime, os filhos de vários ciganos estão com medo até mesmo de ir à escola. "As minhas filhas estudam no mesmo colégio há cinco anos e todos sabem que elas são ciganas. Agora elas estão amedrontadas", disse Maurício.

Segundo o presidente Fenadruci, um acampamento em São José dos Pinhais foi apedrejado no último fim de semana. Ele explica que nestes locais eles costumam pedir aos moradores da região que cedam água e luz. "Depois das notícias divulgadas sobre os Petrovitch, estas pessoas estão fechando os portões para o nosso povo e fazendo generalizações errôneas. Estão dizendo até mesmo que nós bebemos sangue, o que é um absurdo", disse Maurício.

Cultura

Tanto o presidente da Fenadruci quanto Cláudio Domingos Iovanovitchi, presidente da Associação de Preservação da Cultura Cigana e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, lutam para divulgar a cultura dos ciganos. Da mesma forma como afirmam que "se os Petrovitch cometeram o crime deverão pagar por ele", Maurício e Claúdio garantem que rituais macabros não fazem parte da cultura deste povo. "O fato de os acusados serem ciganos não quer dizer que este ritual seja uma tradição entre nós", esclarece Cláudio.

O antropólogo e ciganólogo Frans Moonen, que fez estudos sobre a história e os costumes dos ciganos baseados em literatura internacional, garante que os rituais macabros não são praticados por esta comunidade. "Durante todo meu trabalho nunca ouvi falar que esses rituais são praticados por eles. Esse tipo de coisa pode ser feita em qualquer região do País, por qualquer pessoa que tenha má índole, independente de sua cultura ou religião. Quem diz que ciganos fazem rituais de magia negra é quem realmente não entende do assunto", garantiu Moonen. Toda a pesquisa feita pelo antropólogo está disponível no site www.dhnet.org.br.

Suspeitas

Antes de ser decretado segredo de Justiça sobre as investigações, a delegada Margarth Alferes Motta, que comandou todas as investigações sobre a morte de Giovanna, disse que não desconfiou dos Petrovitch pelo fato deles serem ciganos e praticarem a cartomancia.

As suspeitas só recaíram sobre a família depois que ela deixou a cidade às pressas e que as roupas da menina foram encontradas ao lado da casa que ocupava.

Dias após o crime, foi expedido um mandado de busca e apreensão coletivo, e várias casas de Quatro Barras foram vistoriadas. A residência dos Petrovitch foi arrombada porque eles não estavam no município e a polícia não conseguiu localizá-los.

Na moradia, outros elementos que indicavam o provável envolvimento deles no assassinato foram apurados.

Suspeitos continuam foragidos

Reprodução

Pero, principal acusado.

Pero Theodoro Vich Petrovitch, 18 anos, e sua mulher,15, suspeitos de terem participado do assassinado de Giovanna dos Reis Costa, 9 anos, continuam foragidos. O advogado do casal, Samir Mattar Assad, afirmou ontem que só apresentará seus clientes quando tiver a cópia de todo o processo e examinar as possíveis provas que há contra eles. O processo corre em segredo de Justiça.

Além dos materiais apreendidos na casa dos Petrovitch, como imagens e velas, e dos depoimentos prestados por moradores da região, que indicam a participação dos ciganos no crime, um dos indícios mais concretos que polícia tem contra eles é o sangue encontrado no carro de Pero. No Instituto de Criminalística foi comprovado que as amostras eram de sangue humano. Os vestígios foram coletados e encaminhados ao Laboratório de Genética Molecular Forense, na tentativa de se descobrir de quem era o sangue deixado nas maçanetas, no painel e nas portas do veículo. O perito criminal Hemerson Bertassoni Alves disse que trabalha na tentativa de extrair o DNA das amostras, e até o final desta semana deverá entregar o laudo oficial à polícia. Outras investigações estão sendo feitas, mas por enquanto são mantidas em sigilo.

Perseguição ao longo da história

Ligia Martoni

Foto: Ciciro Back/Tribuna
Cláudio: "preconceito cultural".

Os ciganos têm explicação para o medo que ainda sentem surgir nas pessoas ao se depararem com suas vestes típicas e dentes de ouro. Para eles, o preconceito ainda existe porque vem com a educação. "Desde cedo as crianças aprendem que ciganos as roubam. E nos livros de escola também somos colocados como ladrões e vândalos", exemplifica Cláudio Iovanovitch. A perseguição a este povo demonstra ser cultural. Queimados nas fogueiras da inquisição, além de banidos junto aos judeus no genocídio de Hitler, eles passaram a ser vistos como amaldiçoados, justamente pela mística que carregam nas veias.

Para Cláudio, a quiromancia (leitura das mãos) é um dom que vem da observação da natureza somada à experiência histórica. Do mesmo modo são as pragas ciganas, que eles garantem ser poderosas. "Nós as difundimos como forma de proteção. Não temos cercas ou guardas para nos defender", diz Cláudio. A filha dele, Tatiane Iovanovitch, prefere simplesmente dizer que há coisas dos ciganos para as quais não se tem explicação. "São dons". Como produtora de cinema, no entanto, ela pretende mostrar à sociedade quem são eles e, assim, desmistificar em forma de arte os mitos preservados ao longo de tantas gerações.