É o fim da picada. Enquanto o mundo tentava mais uma vez entender o que leva o ser humano a se atirar em um caminho de destruição, aqui no Brasil se rezava uma missa em homenagem a um traficante. No mesmo 11 de setembro que fez o planeta se revoltar contra qualquer tipo de terrorismo, por aqui cada vez mais entrávamos no vale da insensatez. E parece que não vamos sair dele tão cedo.

Aconteceu no Rio, onde a bandidagem tem o controle do aparelho do Estado, ao contrário do normal, lá o poder público é o poder paralelo. A Igreja da Candelária, que já viveu momentos dramáticos em sua história, como as missas em homenagem aos estudantes mortos em 68 e as celebrações pelas almas dos menores chacinados em 93, agora se curvava ao poder do tráfico. Suas portas foram abertas para a missa de um ano da morte de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê.

Para tentar salvar a cidade do caos, a Polícia Civil reunira um contingente impressionante. Valho-me do registro de O Globo: “Duas viaturas do 13.º BPM (Praça Tiradentes) estavam reforçando o policiamento na Praça Pio X, no centro do Rio, junto à Igreja da Candelária. Em toda a cidade, quatro mil homens das polícias Civil e Militar reforçaram a segurança em frente a prédios públicos, consulados, presídios, principais vias expressas e nos acessos a favelas desde a madrugada”.

Havia também a preocupação com o “11 de setembro” carioca, que aconteceu no ano passado. Naquela data, o grupo de Fernandinho Beira-Mar promoveu o caos na penitenciária de Bangu I, matando quatro pessoas. Volta O Globo a me socorrer: “Durante 23 horas de rebelião, o bando de Beira-Mar, de posse das chaves dos portões do presídio, chegou a manter oito pessoas reféns, cinco agentes penitenciários e três operários, e invadiu a galeria vizinha, onde matou Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê. Pelo telefone, Beira-Mar teria dito à polícia que só deixaria a galeria após terminar o serviço”.

E estava tudo certo, da mesma forma que estavam certos os “amigos” de Uê, que tiraram os jornalistas da Candelária aos socos e pontapés. “Respeitem a família”, diziam eles. E as nossas famílias, quem respeita? Com certeza não são eles. Vivemos em um país doente, sem soluções governamentais suficientes para aplacar a miséria disseminada, a fome congênita, a desesperança contagiosa.

Está tudo certo, devem pensar os criminosos. Tanto que eles se divertem nos presídios, locais onde deveria ser tentada a recuperação dos maus elementos. Mas não: lá eles podem fumar maconha sem problemas, com mais liberdade que aqui fora. Lá eles podem usar o telefone celular por horas sucessivas, sem que precisem ser coagidos ou mesmo pagar a conta. Quem paga? Eu, você, nós, e principalmente o coitado que teve o aparelho clonado.

E se a polícia toma atitudes enérgicas, correm as entidades de direitos humanos a protegê-los. E quem protege a população? Com certeza, não são os ?direitos humanos?. Esse mergulho na insensatez permite que daqui a pouco apareça alguém sugerindo pena de morte. E vai ter gente achando bem legal.

Cristian Toledo

(globalizacao@pron.com.br) é repórter de Esportes em O Estado.