Está fazendo um ano que três aviões comerciais de grande porte foram atirados, como bombas vivas, contra os maiores símbolos da maior potência econômica e bélica da atualidade. Não constitui nenhum exagero dizer que aquele 11 de setembro de 2001, com a destruição das duas torres gêmeas de Nova York e a destruição parcial do Pentágono, mudou radicalmente os conceitos, destinos e esperanças da humanidade, que não será nunca mais a mesma. Assim como as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki nos fizeram e nos fazem ainda hoje refletir sobre a guerra, o World Trade Center nos mergulha nesse outro estágio da epopéia humana, dividida em castas, seitas, raças, ódios e vinganças. Um ano depois, as cicatrizes ainda estão abertas. E a guerra ainda mais iminente e crua.

Em vez de um argumento para a paz, o 11 de setembro continua um pretexto para o ataque. Estão aí os Estados Unidos tentando convencer o mundo que é necessário atirar bombas sobre Saddam Hussein, do Iraque, já visto como uma extensão de Osama bin Laden, com quem a humanidade aprendeu lições de geografia mas se aprofundou na intolerância. Justificativas não faltam e são consistentes: revela-se que o ataque de 11 de setembro não foi concluído, pois o quarto alvo seria o Congresso Nacional, enquanto o mundo do terror dá sinais de que não se rendeu, surgem boatos de novos atentados espetaculares, revela-se um realinhamento de forças em torno do que fazer ou deixar de vingar. A coalizão antiterror ? diz que a Rússia ? pode implodir com uma iniciativa ocidental na direção do Iraque, onde o petróleo jorra de terras áridas e imprestáveis.

A humanidade do século XXI é prisioneira do medo. Um ano depois, o medo é ainda maior, pois a ousadia do terror provou que é capaz do inimaginável ? conforme escrevemos ainda no calor da explosão das torres gêmeas. E esse ódio sem limites não escolhe lugar, alcançou também ele as dimensões globais que, no mundo das finanças voláteis, com eficiência e rapidez, destrói economias e distribui a miséria entre povos sem chance alguma de defesa.

Os heróis do século que apenas começou são heróis cheios de ódio. Osama, Saddam, Bush, cada qual apupado pelos seus, investem-se de divinais poderes para a luta contra o mal, versão colorida e teleguiada de um dilema em preto e branco. E na terra onde germinou a mais importante mensagem de paz ? Jerusalém ? ergue-se um novo muro da vergonha a separar gente da mesma raça mas com credos diferentes.

Um ano depois nada ficou melhor, exceto o argumento de cada lado em confronto, o que se pode verificar nessas manifestações comemorativas, algumas ricas e revestidas de pretextos artístico ? culturais, que pipocam em todo o planeta ? aqui para chorar mortos ocidentais; lá para prantear defuntos orientais ?, como se a humanidade fosse ela também dividida por linhas intransponíveis. Um ano depois, o fosso entre o bem e o mal ? mas onde o bem absoluto? ? ficou ainda maior, e a única coisa que cresceu foi esse sentimento de dúvidas e incertezas sobre pelo que vale a pena lutar.

Como numa guerra de verdade, do lugar onde brotavam as torres gêmeas é imperioso erguer-se uma gigantesca bandeira branca. Ela não significaria a rendição de inimigos dizimados na batalha que não terminou. Mas a rendição da humanidade diante dessa encruzilhada que ela própria produziu.