Ninguém imaginaria que no governo Lula se falaria em privatizar os bancos comerciais estaduais, mesmo que já sob o guarda-chuva do governo federal, que, há muito tempo, assumiu seus ativos e passivos. A começar pelos passivos, é óbvio. Quando da administração em dose dupla de FHC, e mesmo antes, houve muitos casos de bancos estaduais que, depois de anos se socorrendo nos tesouros dos respectivos estados para não quebrar, acabaram encampados pela União, que passou a geri-los, para uma futura privatização.

O dinheiro do povo, injetado via estados, passou a ser drenado via União, em geral com uma melhoria na gestão, embora isso nem sempre tenha acontecido. É que, enquanto estaduais, os estabelecimentos de crédito ficavam mais sujeitos às interferências políticas e às gestões ruinosas. Já nas mãos da União, o Banco Central funcionava como um órgão regulador mais vigilante e as interferências políticas perdiam força.

Os que sempre se opuseram às privatizações dos bancos públicos foram os mesmos que sempre apoiaram Lula e subiram, com ele, ao poder. Assim, era de se imaginar que, doravante, nenhum outro banco estadual, mesmo os que estão sob o comando da União, como os dos estados de Santa Catarina, do Maranhão, do Ceará e o do Piauí, viessem a ser privatizados. Mesmo porque os próprios governadores desses estados são contra. Esses bancos poderiam voltar às mãos de seus governos e, nelas, seriam poderosas máquinas de manipulação política e de atendimento dos interesses financeiros dos aliados.

Mas parece que vai acontecer o contrário.

Joaquim Levy, secretário do Tesouro Nacional, poucos meses depois de Lula acalmar os governadores ao garantir que não iriam ocorrer privatizações, acaba de dizer que o governo vai vender todos eles. “A privatização desses bancos é boa. O governo federal colocou muito dinheiro nesses bancos, em alguns casos até mais de R$ 1 bilhão. Recuperar um pouco disso é mais do que razoável. Para os estados, é bom porque abate as dívidas deles”, disse.

Enquanto estaduais, os bancos eram mal geridos por incompetência dos gestores designados pelos governadores. Além disso, se tratava de bancos do povo. E dinheiro do povo “é dinheiro de ninguém”. Aquela estória de protestar porque estavam, nas privatizações, vendendo o patrimônio público, era mero jogo de cena. O cidadão comum era dono do banco porque pagava impostos ao governo. E o governo era o acionista majoritário do banco. Se também era acionista minoritário, possuía mais um pedacinho do banco. E nos dois casos, perdia dinheiro e nada ganhava em ser banqueiro via governo.

Não se tem notícia de nenhum banco comercial estadual que de fato tenha tido lucros, mesmo tendo o privilégio de contar com as polpudas contas do próprio governo, da arrecadação de impostos e taxas e outras vantagens. Os bancos comerciais estaduais viviam pendurados em empréstimos no Banco Central. Esses empréstimos, aliás remunerados, a partir de certo montante obrigam a intervenção, o que também acontece com os bancos particulares. As máquinas administrativas dos bancos públicos sempre foram mais pesadas e caras. Afinal de contas, é dinheiro do povo!

Não estranha, pois, que na administração Lula, ele e os que o assessoram tenham descoberto que o governo não precisa ser banqueiro e que os bancos comerciais estaduais, em suas mãos, são um grande abacaxi.