Que o Brasil é um país potencialmente rico e verdadeiramente pobre só não sabem os patriotas ufanistas. Mas nos dias de hoje os patriotas ufanistas rareiam. Sendo pobre, sofre os males da falta de recursos. A população de baixa renda é maioria e, por não dispor de suficientes instrumentos de orientação e ser predisposta à enganação política, acaba eternizando a expectativa de que um dia a riqueza em potencial se transforme em realidade.

Este jornal publicou dias atrás matéria cujo título era “Universidades privadas têm 42% de vagas ociosas”.

O Censo de Educação Superior 2003 mostra que o País tinha 2.887.771 estudantes universitários no ano passado. Este número significava um aumento de 11,7% sobre o número de matrículas realizadas em 2002. Houve um crescimento maior no setor privado, de 13,2%, contra 8,1% no setor público. Um raciocínio simples mostra que é mais fácil adquirir conhecimentos superiores nas escolas particulares pagas que nas públicas, gratuitas e teoricamente mais abertas aos estudantes pobres.

Esse levantamento constatou um índice de ociosidade de nada menos que 42% nas vagas abertas no ano passado em instituições de ensino superior privadas. As escolas particulares estão praticamente com a metade dos estudantes que podem abrigar e ensinar.

O motivo seria, segundo o Ministério de Educação, a concentração da oferta em regiões, cidades e em determinadas áreas de conhecimento. A ociosidade nas universidades federais, gratuitas, foi de apenas 0,7%. Deveria ser de zero, pois há estudante à beça por aí tentando entrar numa faculdade, quanto mais se for gratuita.

Pela primeira vez houve menos estudantes que concluíram o ensino médio que vagas nas universidades para abrigá-los. Há mais vagas para entrar numa faculdade que candidatos com curso médio, o que parece um absurdo, que as várias teorias explicativas acabam embrulhando o cérebro de qualquer analista. O que se mostra claro é que as universidades privadas cresceram demais porque o ensino pago é um bom negócio.

Mas a verdade mais aceitável e contundente é do próprio ministro da Educação, Tarso Genro, que disse que o empobrecimento da população pode ter contribuído para diminuir o ritmo de crescimento na expansão do número de alunos nos cursos superiores. E, certamente, é causa da diminuição, seja em escolas particulares ou públicas. Se os candidatos àquelas podem pagar as mensalidades (e não são todos), para estudar têm outras despesas que não cabem nos seus orçamentos. Se os que se habilitam às escolas gratuitas públicas conseguem passar nos vestibulares, apesar da precariedade do ensino médio que freqüentaram, falta-lhes não poucas vezes o dinheiro do lanche, da condução e há a imposição de trabalhar e estudar. Não raro, com incompatibilidade de horários e sacrifícios insuportáveis.

Por isso, ousamos o título “pobreza e burrice”, certos de que a pobreza é um fato inquestionável e a burrice apenas uma expressão que nada tem a ver com o cociente de inteligência dos estudantes, mas com a obstrução do seu acesso ao ensino superior, em razão da pobreza.

A renda per capita baixa dos brasileiros e a constatação de que atinge a maioria nos levam à conclusão de que a falta de desenvolvimento econômico com justa distribuição de riquezas está na raiz de quase todos os problemas. Inclusive do ensino e do emburrecimento.