Um minuto de silêncio seguido de palmas marcou o final da sessão solene conduzida pela Comissão das Relações Exteriores da Câmara dos Deputados em homenagem a Sérgio Vieira de Mello, embaixador brasileiro nas Nações Unidas morto no ataque à sede da organização no Iraque nesta terça-feira.

O encontro da comissão, em que seria discutida a posição brasileira na reunião de setembro da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi adiado para o dia 28. Em vez de discussões acaloradas, o ministro das Relações Exteriores, ainda abatido pelo impacto da morte do amigo, discorreu sobre a sua trajetória e ressaltou a característica pacifista de Vieira Mello.

Para Amorim, Vieira de Mello foi um herói que lutou por ideais muito brasileiros: ?Ele procurou paz, reconciliação, respeito ao direito internacional e aos direitos humanos?, disse em seu depoimento. Lembrando a vida universitária do embaixador morto, Amorim lembrou que ele viveu de perto as inquietações da década de 60 na França, quando estudava filosofia. ?E levou para a prática o que aprendeu na universidade, atuando em causas da humanidade sem preocupação com o risco que corria. O temor pela própria segurança nunca foi empecilho para suas ações?, contou Celso Amorim.

O chanceler brasileiro ainda considera prematura qualquer avaliação sobre as possíveis falhas de segurança no prédio da ONU, parcialmente destruído pela bomba que explodiu abaixo da janela de Vieira de Mello. ?O que temos visto na imprensa internacional é que a ONU não tinha segurança tão presente e ostensiva como a de outras entidades, personalidades ou forças que lá estão?, disse.

O ministro avaliou a suposta falta de aparatos de segurança no prédio como uma possível tentativa da ONU de se aproximar da população iraquiana. ?Pode ser que eles quisessem deixar clara a diferença entre uma força de ocupação e uma força de reconstrução. Conhecendo o Sérgio, acredito que a atitude dele seria a de procurar estar junto do povo?, considerou.

Durante a sessão, o ministro das Relações Exteriores ressaltou o importante trabalho do amigo à frente de conflitos como os de Camboja, Kosovo, Bósnia, Timor Leste e Iraque. Segundo Amorim, o embaixador era um dos homens da maior confiança do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan e tinha extrema dedicação ao bem-estar das populações, razões que o levaram a ser o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. ?A necessidade de preservar a neutralidade em todas as missões da ONU relacionadas a questões humanitárias sempre foi uma preocupação do Vieira de Mello?, classificou o ministro.

Amorim disse que ele, por telegrama, o embaixador havia pedido ao Itamaraty que continuasse a lutar para que o papel da ONU fosse o maior possível na reconstrução do Iraque. ?É trágico ver que esse pedido tenha terminado de maneira tão brutal e incompreensível?, lamentou.

Na Comissão da ONU sobre Direitos Humanitários no Iraque, há alguns anos, Vieira de Mello teve importante participação em um relatório independente que mostrou o efeito devastador das sanções internacionais sobre a população do Iraque. ?O documento não agradou plenamente alguns dos membros permanentes do Conselho de Segurança até pela franqueza com que o problema foi abordado por ele?, lembrou.

Celso Amorim destacou que Vieira de Mello era o brasileiro de posição mais alta nas Nações Unidas. ?Possivelmente era também, junto com o secretário-geral, o de mais popularidade entre todos os funcionários da ONU pelo seu carisma e sua capacidade de liderança?, comparou o chanceler brasileiro.

Classificando o amigo como herói nacional e internacional, ele terminou seu discurso dizendo que hoje não é um dia de luto apenas para o Brasil, mas para as Nações Unidas e para todo o sistema internacional. “Perdemos um herói mundial”, disse Celso Amorim, que acredita que, apesar de a maior parte da família de Vieira de Mello morar no Rio de Janeiro, cidade natal do embaixador, ele pode ser enterrado na França, lugar onde viveu boa parte da vida e onde moram seus filhos.