Kátia Chemim Branco: “A maioria dos
desaparecimentos acontece a partir dos 30 anos”.

O número de pessoas desaparecidas no Paraná é preocupante e não pára de crescer, segundo a Delegacia de Vigilância e Captura (DVC). Atualmente, esse tipo de ocorrência ocupa a 20.ª posição no ranking da Polícia Civil. Entre julho de 2004 e dezoito de março deste ano, havia 1.654 desaparecidos no Estado. São registrados, em média, três casos por dia em Curitiba.

De acordo com os dados da DVC, as mulheres desaparecem mais do que os homens na adolescência. Elas buscam a liberdade em todos os sentidos, inclusive a sexual, e fogem da família que as repreende. Nesse mesmo período, os casos de homens desaparecidos estão relacionados com drogas, crimes e desagregação familiar.

“Antes de assumir a delegacia, achava que os adolescentes sumiam mais. Vi que era o contrário e também me assustei com os números”, comenta Kátia Chemim Branco, delegada titular da DVC. A maioria dos desaparecimentos acontece a partir dos trinta anos de idade (20% entre 30 e 39 anos; 23% entre 40 e 49). O desemprego, o abandono familiar e envolvimentos amorosos são os principais motivos para os homens desaparecerem. “Tivemos vários casos de mulheres que vieram aqui desesperadas atrás de seus maridos ou companheiros e eles estavam com as amantes”, conta Kátia. Para as mulheres, as agressões físicas fazem com que elas deixem para trás os filhos, inclusive. “Isso é reflexo da sociedade conturbada. Dá vontade de se desligar e sumir”, indica a delegada. Outra situação complicada é o sumiço de deficientes mentais e idosos. Eles se perdem e não sabem voltar para casa. “Nós percorremos todos os serviços sociais, mas muitos não conseguimos achar”, explica.

Notificação

A orientação é para que os familiares procurem a delegacia ou os distritos o mais rápido possível para notificar o desaparecimento. “Não existe uma lei dizendo que precisa esperar 24 horas. Esse tipo de investigação precisa ser imediata porque pode estar associada a algum crime”, afirma Kátia. O recolhimento de dados e os depoimentos são feitos na hora da procura, o que dá dinamismo nas investigações. “Já solucionamos casos apenas com um telefonema”, fala. A polícia criou um boletim específico para os desaparecimentos, no qual constam dados sobre as roupas da pessoa, histórico de fugas, envolvimento com drogas, entre outros.

Cerca de 79% dos casos são resolvidos, segundo dados da DVC. Nesse número estão incluídos aqueles que voltam espontaneamente para casa. Apesar de ser um índice alto, a delegacia tem grandes problemas para atender a todos. “São duas delegacias em apenas um local. Nós também precisamos cuidar de 74 mil mandados de prisão que estão cadastrados. Conseguiríamos mais soluções se fossem estruturas separadas, com dedicação de 100% nas duas funções. Fazemos milagre todos os dias”, afirma Kátia. “Porque é um sentimento de muita alegria trazer a pessoa até a delegacia e ver a família reunida novamente”, justifica.

Casos há 12 anos sem solução

Alguns dos casos ainda não solucionados de desaparecimentos de crianças no Paraná completam, em 2004, 12 anos. Leandro Bossi (fevereiro), Edimilton Paula (março), Gislaine Aparecida (novembro), Edson Rodrigo da Silva (abril), Lucinéia Silvéria da Silva (abril) e José Carlos dos Santos (março) sumiram em 1992. Além deles, o desaparecimento de Everton Vidal Ficagna (novembro), em Corbélia, completa dez anos em 2004.

De acordo com o Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), 12 casos anteriores a 1996 – ano da criação do órgão – e cinco depois dessa data ainda estão sem solução. Os dados do serviço indicam que o número de desaparecimentos diminuiu nos últimos anos. Em 1996, 151 crianças desapareceram no Estado. Em 2003, este índice foi de 41 casos. Neste ano, de janeiro até agora, foram detectadas 28 situações deste tipo, todas já solucionadas. Segundo a delegada titular do Sicride, Márcia Tavares dos Santos, o motivo da redução de desaparecimentos é a centralização de todas as apurações da polícia. Isso deu agilidade ao serviço e, consequentemente, otimizou as investigações. O órgão trabalha com duas frentes: a preventiva e a repressiva. A primeira está relacionada com a conscientização das crianças por meio de cartilhas nas escolas e entidades de ensino. Na outra, as unidades do Sicride no Estado são obrigadas a repassar imediatamente o registro. Depois disso, acontece uma mobilização de todas as polícias e serviços para não deixar a criança e os suspeitos saírem do Paraná. “A atuação imediata aumenta a possibilidade de serem autuados em flagrante”, comenta Márcia. Depois de anos sem esclarecimentos, o órgão realiza o envelhecimento digital baseado em fotos da criança. “É uma aproximação de como a criança pode estar. As fotos da época do desaparecimento não ajudam muito, pois hoje já são adolescentes”, afirma. Tanto as imagens antigas como as novas são divulgadas por cartazes em diversos lugares, como rodoviárias e postos de pedágios.

Motivos

A delegada conta que 70% dos casos detectados em 2003 foram fugas de casa, fruto dos relacionamentos entre pais e filhos. Um dos desaparecimentos mais recentes, provavelmente por esta razão, é o dos irmãos Alex e Cláudio Giovani, de Colombo. Segundo o serviço, eles já foram vistos cuidando de carros em Curitiba, mas ainda não foram localizados.

Quando a criança é encontrada e não quer voltar mais para casa, o Sicride faz um trabalho de acompanhamento com psicólogos em toda a família. Em alguns casos, a criança é encaminhada diretamente ao conselho tutelar. Existem, porém, aquelas crianças que fogem porque não foram bem na escola ou não realizaram uma atividade pedida, por exemplo, e sentem medo da reação dos pais. “A gente não pode dizer que é uma situação confortável, pois quando recebemos a denúncia, não sabemos o porquê. Temos que seguir todas as linhas de investigaçaõ”, afirma Márcia. Dos 41 registros no ano passado, 5 eram seqüestros, uma falsa adoção e seis subtrações de incapazes. “Atualmente não existe uma quadrilha de tráfico de crianças, como aconteceu em 1992. São casos isolados”, afirma Márcia. (JC)