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Contruído há mais de duas décadas,
o terminal do Alto Maracanã, em Colombo, nunca passou por reformas.

Quem precisa se deslocar de cidades da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) para capital e depende do transporte coletivo enfrenta muitas dificuldades no dia-a-dia. Os terminais quase sempre estão lotados e as linhas de ônibus não são suficientes para atender a demanda em determinados horários. Filas e longas esperas fazem parte da rotina.

Aliado a esses problemas, os usuários convivem com estruturas deterioradas. O terminal do Alto Maracanã, em Colombo, por exemplo, foi construído há mais de vinte anos e nunca passou por uma reforma. Segundo o prefeito do município, J. Camargo, nesse período a população se multiplicou e o terminal não acompanhou esse crescimento. Ele acredita que dos 220 mil habitantes de Colombo, 80 mil utilizam o transporte coletivo, "porém o terminal tem capacidade para atender somente 20 mil".

O vigilante Saulo José Tranquino sabe bem o que é isso. Ele utiliza o sistema de transporte, no mínimo, duas vezes por dia, e sempre encontra o terminal lotado. "A qualquer hora do dia esse terminal está sempre cheio. Faz muito tempo que já esgotou sua capacidade", comentou. A cozinheira Neiva de Paula Bolis começa a trabalhar às 7h, mas para conseguir chegar no emprego no horário precisa ir ao terminal de ônibus com muita antecedência. "Eu chego aqui por volta das 6h20 para disputar um ônibus, que são poucos, e estão sempre lotados", reclamou. Ela comenta que no final da tarde a situação é semelhante.

Outro problema relatado pelo prefeito de Colombo é que não existe integração do Alto Maracanã com outros terminais no município, o que obriga o usuário a pagar duas passagens para se locomover. J. Camargo comenta que a intenção é construir dois novos terminais no município – em Guaraituba e Roça Grande -, que serão interligados com o Alto Maracanã. Para isso, depende da conclusão de um projeto do governo do Estado, através da Coordenação da Região Metropolitana (Comec), que iniciou em 2004, mas foi suspenso por problemas na licitação da obra.

São José

Situação semelhante à Colombo acontece em São José dos Pinhais, com um agravante: o terminal de ônibus fica no centro da cidade. Além de não oferecer estrutura, o local está mal cuidado, e os usuários convivem com lixo espalhado pelos corredores. Outro problema é a falta de segurança. A cabeleireira Jussara da Silva comenta que já viu rapaz ser esfaqueado no terminal. "Isso aconteceu à noite e não tinha nenhum segurança por aqui", falou. Ela reclama também que não existe integração com outros terminais, e precisa pagar três passagens por dia para ir trabalhar.

A servente Rita Santos também reclama da falta de integração, e comenta que para ir de São José dos Pinhais até a localidade de Barro Preto, onde mora, precisa pagar quatro passagens. Além disso, reclama da demora e conta que já chegou a esperar mais de uma hora para pegar o ônibus. A demora também é a reclamação do promotor de vendas Cláudio Luiz. "Eu perco muito tempo no terminal esperando ônibus e isso interfere nos meus resultados no trabalho", falou.

Guadalupe

Em Curitiba, a demora é apenas uma das inúmeras reclamações dos usuários do terminal do Guadalupe. A atendente Adriana Andrade comenta que espera mais de meia hora para conseguir apanhar um ônibus até São José dos Pinhais. "Deveria ter mais opções de horários para a gente não perder tanto tempo", comentou. Adriane também relatou que falta segurança no local, e que sempre fica apreensiva quando tem que permanecer muito tempo no terminal. "Aqui chega gente de todas as partes e as ocorrências de assalto são diversas", disse.

Há dois meses os comerciantes instalados no terminal se mobilizaram para cobrar mais segurança no local. A informação de que o único posto da Polícia Militar seria retirado dali deixou os trabalhadores revoltados. "Com o posto já aconteceu até homicídio no terminal, imagine se os policiais saírem", relatam. O comando da PM negou a informação e prometeu mais policiamento na região.

Crescimento da região é o maior do País

De acordo com dados da Coordenação da Região Metropolitana (Comec), nas décadas de 70 e 80, a Região Metropolitana de Curitiba (RMC) teve o maior crescimento populacional do País. Isso está intimamente ligado a instalação de indústrias na região. Em 1996, a população total da RMC – composta por 26 municípios – era de 2,4 milhões de habitantes. Hoje esse número saltou para 3,2 milhões de habitantes. A taxa de crescimento anual é de 2,87%. No entanto, alguns municípios possuem uma taxa maior que a média.

O município de Piraquara tem um crescimento de 8,56%, e Fazenda Rio Grande, 8,54%. Já São José dos Pinhais tem uma taxa de 4,85%, enquanto Rio Branco do Sul cresce anualmente 6,3%, e Araucária, 5,29%. Um dos fatores desse crescimento é que esses municípios se tornaram as chamadas "cidades dormitório" – as pessoas trabalham em outra cidade e retornam para casa apenas para pernoitar. Essa situação acontece pela diferença do preço dos imóveis com a capital.

Segundo o presidente da Comec, Alcidino Bitencourt Pereira, a RMC foi criada na década de 70, e passaram a integrar a rede os municípios com maior concentração de trabalhadores. Porém a sua finalidade acabou sendo desviada, pois deveria ser integrada com cidades com semelhanças. "Com o passar dos anos vários políticos foram incorporando municípios que nada têm a ver com função de uma região metropolitana", falou. Dos 26 municípios que fazem parte da RMC, apenas 13 tem relação funcional com Curitiba.

Outra diferença gritante são as distâncias e número de habitantes. Enquanto São José dos Pinhais e Colombo têm uma população média de 230 mil habitantes, Adrianópolis e Agudos do Sul possuem 7 mil habitantes cada uma. Em Tunas do Paraná, o número de moradores não passa de 4 mil habitantes.

E o crescimento populacional e a distância entre os municípios foram os fatores que levaram ao estrangulamento do setor de transporte coletivo na RMC. Hoje, dos 26 municípios, 20 possuem transporte, e desses, 11 estão integrados com Curitiba – Rio Branco do Sul, Itaperuçu, Campo Magro, Colombo, Almirante Tamandaré, Campo Largo, Araucária, Fazenda Rio Grande, São José dos Pinhais, Piraquara e Pinhais. A demanda de passageiros do sistema integrado é de 5 mil de pessoas, e do não integrado é 3,5 mil. A média de passageiros transportados por mês é de 8 milhões de pessoas nos dois sistemas. (RO)

Comec investe R$ 120 milhões

Para tentar atender essa demanda, a Comec está investindo R$ 120 milhões no Programa de Integração de Transporte da Região Metropolitana de Curitiba. Dos recursos, R$ 80 milhões serão financiados junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e o governo do Estado entrará com a contrapartida de R$ 20 milhões. O programa tem prazo de execução de três anos.

O coordenador do programa junto a Comec, Valter Fanini, diz que esse será o primeiro grande investimento na área desde 1984. "O programa é voltado para a consolidação dos sistemas de transportes, criando corredores e novos terminais com estrutura para atender a demanda", explicou. O diretor de transporte, Jarbas Filho, e o coordenador de transporte da Comec, Hilnon Silva Júnior, explicaram alguns projetos que já estão em andamento.

Como o terminal do Alto Maracanã, em Colombo, não tem condições de expansão, serão construídos dois outros terminais que servirão de alimentadores. A previsão é que as obras iniciem no mês de março. Em Fazenda Rio Grande, um outro terminal deverá ser construído, em uma área em frente ao atual terminal. Também fazem parte dos estudos construção de mini terminais em Contenda e Adrianópolis. O terminal de Cachoeira, em Almirante Tamandaré, será ampliado, e em Campo Largo e Piraquara estão sendo levantadas possíveis áreas para a construção de novos terminais.

Guadalupe

O projeto para o terminal do Guadalupe, em Curitiba, é a transferência dele para outro local. A informação é do presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Clodualdo Pinheiro Júnior. Segundo ele, a área será revitalizada e transformada em um local para a realização de eventos e concentrações. Um espaço para os mais de 100 ambulantes, que estão espalhados no centro da capital, também será criado. O presidente do Ippuc entende que o local está saturado para transporte coletivo, "e como a idéia é integrar todos os municípios da RMC com a capital, o Guadalupe não tem condições de absorver essa demanda". (RO)