Foto: Chuniti Kawamura

Queima de drogas apreendidas. Para polícia, ciclo de violência tem origem no tráfico, já que País se transformou em rota para transporte.

O jovem Fabrício (nome fictício), de 18 anos, está tratando a sua dependência química em uma clínica especializada de Curitiba. Antes disso, quando ainda estava no ?olho do furacão?, uma das atitudes que tomou para conseguir dinheiro e comprar drogas foi a fabricação de buchas falsas de cocaína. O que elas continham era bicarbonato de sódio. ?Não dava para vender sempre porque queimava o filme. O pior que fiz foi isso?, garante. Hoje, Fabrício têm consciência de que as drogas estavam levando a sua vida para o fundo do poço. Mas e se isso não tivesse acontecido? Fabrício poderia ter cometido outros crimes para conseguir dinheiro?

É exatamente isso o que pode ocorrer com quem é dependente químico. Se tornou cada vez mais comum a ligação das drogas com diversos tipos de crime, além do tráfico de entorpecentes. Assaltos, roubos, homicídios, ataques contra o patrimônio, entre outros, podem ter as drogas como pano de fundo. Uma pesquisa da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), do governo federal, mostra exatamente isso. O levantamento, divulgado recentemente, aponta que 86% dos adolescentes brasileiros internados por terem cometido algum tipo de crime são usuários de drogas.

O delegado-chefe da Divisão de Narcóticos do Paraná (Dinarc), Osmar Antônio Dechiche, explica que as drogas são ?ingredientes? de uma percentagem expressiva dos crimes contra o patrimônio e contra a vida. O caminho do usuário de entorpecentes quase sempre é o mesmo. Começa com a subtração de pertences dentro da própria casa para pagar a droga ou transformá-los em dinheiro para esse mesmo objetivo. Quando a fonte esgota, o usuário parte para os pequenos furtos. Pode ser levado para os assaltos ou para o tráfico. Depois disso, aparecem os crimes contra a vida. ?Esse tipo de crime não acontece necessariamente por causa das alterações que as substâncias provocam nas pessoas. É a conseqüência da cadeia do tráfico de drogas. Existe um lema: se não pagar, morre?, afirma Dechiche. Segundo o delegado, o usuário que precisa do dinheiro pode ser até obrigado a cometer um crime como forma de pagamento pela droga.

Os usuários acabam virando escravos do sistema e não têm mais como sair disso. Senão, sofrem as conseqüências. ?O traficante só visa o lucro?, lembra o delegado. O envolvimento com drogas atinge em maior escala os jovens, que viram instrumento de manobra dos traficantes. E com um detalhe: são fiéis.

Todo esse ciclo vicioso está deixando os brasileiros aterrorizados. A conseqüência de tudo isso é o aumento da violência. O ciclo tem origem no tráfico de drogas. O assunto é muito delicado, especialmente no Brasil, pois o País se transformou em rota para o transporte. ?O Brasil não produz maconha nem cocaína. A maior parte da cocaína consumida no mundo (82%) é produzida na Colômbia. Além desse país, Bolívia e Paraguai são distribuidores. Eles usam o território brasileiro para fazer a remessa ao exterior. O Brasil é um país de fácil acesso e com um sistema aeroportuário muito bom. Por isso dentro do País o tráfico é bem movimentado, além do consumo?, esclarece Dechiche.

Família desestruturada pode levar ao vício

Foto: João de Noronha

Osmar Antônio Dechiche.

O jovem Fabrício, citado no início desta reportagem, é um exemplo da cadeia da droga. Tudo começou quando experimentou maconha aos 15 anos. Depois, partiu para o ecstasy e o LSD. Nesse meio-tempo conheceu sua namorada, que consumia cocaína. Fabrício usava cocaína e crack com ela.

Fabrício possui uma família desestruturada, cheia de desavenças. Os pais são separados, mas isso não representa um fator preponderante nessa situação toda. ?A minha família não era uma família. Era cada um para um lado?, conta. Ele tinha brigas freqüentes com os pais. ?Meu pai falava que queria me matar?, relembra. Chegou a morar um pouco com cada um, como se estivesse sem rumo.

Fabrício começou a cuidar de carros para conseguir dinheiro. Começava às 19h e terminava às 3h. Tudo o que juntava – cerca de R$ 80 por noite – era gasto com drogas, compradas logo depois da ?jornada de trabalho?. Voltava para casa antes que a mãe percebesse. Dormia o dia inteiro, comia e iniciava outro dia de trabalho. ?Nunca roubei. Nunca trafiquei. O pior que fiz foi a bucha falsa?, fala.

Esse mundo levou Fabrício a ser procurado pela polícia. Tudo devido aos ?rolos? causados pela droga. Teve que sair da cidade onde morava para poder recuperar o tempo perdido. ?Hoje, eu me arrependo de tudo. Iniciei o tratamento e já fiz as pazes com o meu pai, com quem tinha brigado muito feio. Estou há pouco tempo em tratamento, mas já enxerguei que eu estava indo para o fundo do poço?, revela Fabrício.

A vida dele poderia ser mais uma das que foram perdidas em função da droga. Mas a ajuda veio antes de Fabrício se envolver ainda mais do que já estava envolvido. Mas é preciso ressaltar um ponto: dependência química é uma doença e pode ser apenas controlada. Não tem cura. Fabrício vai ter que se cuidar sempre.

Álcool contribui para aumento de estatísticas negativas

Foto: João de Noronha

Aracélis Copedê Filha: população brasileira está usando e abusando das bebidas alcoólicas.

Não são somente as drogas ilícitas que causam este fenômeno. O álcool, por ser uma substância legalizada, normalmente é esquecido. Já foi comprovado que o aumento da violência nos finais de semana está diretamente relacionado com o abuso do álcool. Especialmente perto de bares e outros estabelecimentos que comercializam o produto. ?A nossa população está usando e abusando das bebidas alcoólicas. Quando existe um controle sobre isso, como o fechamento de bares em determinados horários, o índice de violência diminui?, ressalta Aracélis Copedê Filha, coordenadora da Clínica Nova Esperança, que faz tratamento para alcoolismo e drogadição.

Por causa disso, Aracélis defende o estabelecimento de limites sobre o uso do álcool pela sociedade, principalmente porque se transformou em facilitadora para o consumo dessa substância. De acordo com Aracélis, a saída não é proibir. Mas do jeito que está não dá para ficar.

O álcool, em muitas vezes, é o companheiro de outras drogas. Todas essas substâncias geram alterações em quem as consome. O uso indiscriminado acaba fazendo com que a pessoa perca os seus valores. ?A pessoa sob efeito do crack, por exemplo, tem a sensação de poder. O crack mina todos os recursos de crítica. Acha que vai estar invulnerável e, por isso, não tem medo de nada. Acaba fazendo coisas sem pensar nas conseqüências?, comenta a coordenadora da clínica.

As drogas não são exclusivas de alguma classe social. Os problemas em relação ao consumo também não o são. Os usuários que partem para os crimes podem ser de qualquer classe, podem viver em qualquer lugar. ?O uso e abuso de drogas pode facilitar o aparecimento de patologias mentais, que muitas vezes estavam escondidas, esperando um processo que desencadeie tudo isso. A droga age, altera o comportamento, agrava os transtornos de personalidade?, conta Aracélis.

Além de todo esse ciclo, existem outros fatores que podem influenciar uma pessoa a se tornar usuária ou uma dependente química. Um deles é a decadência da família, que está cada vez mais desestruturada. ?A família tem um papel importantíssimo. A família tem que proteger e ensinar valores. Antes de ser amigo, pai e mãe tem que ser pai e mãe. Hoje, não vemos limites nos filhos. E isso faz uma grande diferença?, analisa Aracélis.