Manifestação do Greenpeace no porto de
Paranaguá, no final de semana passado.

A discussão sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs) no Brasil está sendo levada para o lado financeiro. A liberação ou não do plantio e comercialização de transgênicos é uma questão ligada diretamente ao dinheiro e ao poder, deixando em segundo plano a questão científica – ou seja, se esses alimentos podem provocar algum tipo de dano ao ser humano ou ao meio ambiente.

Assim pensa o engenheiro ambiental Luiz Eduardo Rodrigues Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que detecta uma guerra midiática entre pessoas que defendem ou condenam os transgênicos, motivadas por algum fator que as favoreça. Ele dá um exemplo: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a elevação do Limite Máximo de Resíduo (LMR) de glifosato (herbicida da Monsanto vendido com o nome comercial Roundup, que é considerado altamente cancerígeno e que causa dano à fertilidade), de 0,2 miligramas por quilo (mg/kg) para 10 miligramas por quilo, no último mês de março. Ou seja, 50 vezes mais.

Carvalho explicou que nessa discussão as pessoas não falam abertamente o que pensam: “No bairro do Leblon há uma discussão entre os moradores que não querem que os bares tenham cadeiras na calçada. Mas na verdade a disputa não é contra as cadeiras e sim contra o barulho que os freqüentadores de bares fazem, mas isso não vem a público. Na questão dos OGMs, favoráveis e contrários usam argumentos científicos para tentar convencer as pessoas de suas teses, mas na verdade só o fazem motivados economicamente”, afirmou.

Para ele, essa divisão está bem clara: de um lado os interessados diretamente em que os transgênicos sejam liberados, como a Embrapa e a Monsanto, que usam seu poder econômico para defendê-los na mídia. “Também se diz que os cientistas são favoráveis. Não são. O apoio se restringe aos geneticistas, que são entusiastas. É como perguntar a quem voa de asa delta se há risco de cair, ele vai dizer que é mínimo”, disse, destacando que muitas instituições favoráveis aos transgênicos acabam pegando cientistas dentro das universidades e os pagando para defender os OGMs: “Criaram o cientista de passeata, que ganha jeton para defender uma causa. Isso é muito ruim, mostra a deficiência que existe em nossas universidades. Esse cientista acaba usando o nome da instituição onde trabalha para defender o que lhe pagam para defender”, criticou. “E isso ocorre também em outros países, onde a máquina não precisa tanto das universidades como aqui.”

O engenheiro afirmou que, com toda essa guerra, sobra muito pouco espaço para idéias independentes. “Se me perguntarem se sou contra ou a favor, vou dizer que sou favorável, afinal é uma fantástica invenção humana. Mas cada situação deve ser analisada individualmente. A produção de insulina ou até mesmo o coalho para se fazer queijo é feita com a modificação de gene, ou seja, é transgênica”, disse.

Pressão

Para ele, a força do poder econômico na discussão dos transgênicos foi claramente exposta quando a Anvisa autorizou o aumento do Limite Máximo de Resíduo de glifosato: “O glifosato foi aumentado em 50 vezes. Quem foi que pediu isso, ou será que a Anvisa decidiu por conta própria?”, questionou. O glifosato é o herbicida mais vendido no País. Uma tese de doutorado da professora doutora Eliane Dallegrave, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, comprovou dano na fertilidade de ratos Wistar que foram expostos ao glifosato.

Carvalho afirmou ainda que o processo para rotular os transgênicos também é puramente político: “Quem começou tudo isso foi o Greenpeace e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), que são favoráveis à rotulagem. Um outro grupo, formado por pessoas ligadas aos OGMs, era totalmente contra, mas ao ver que perderiam na Justiça, resolveram mudar radicalmente de opinião e fazer parte das comissões que discutem a questão”.

Manipulação

E completou: “Hoje eles manipulam para que não aconteça a rotulagem. Armam esquemas para se rotular desde que não se rotule nada. Na idéia deles, o produto não transgênico é que deve levar o rótulo. Afinal, consumidor nenhum vai ao supermercado comprar um produto com rótulo de transgênico”, lembrou. Ele disse que, devido a essa manipulação, produtos com até 4% de material transgênico não precisam ser rotulados no Brasil.

Transgênicos têm o aval da OMS, diz Monsanto

Segundo a Monsanto, detentora dos direitos à soja Roundup Ready (RR), plantada no Brasil, é investido diariamente US$ 1 milhão em pesquisas para avaliar a segurança alimentar e ambiental dos OGMs produzidos pela empresa. A Monsanto garante que todos os transgênicos introduzidos por ela no mercado mundial foram aprovados pela Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) e Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Monsanto estuda OGMs há mais de 20 anos. A soja RR foi criada na década de 80, mas aprovada para plantio nos Estados Unidos em 1995. Hoje, segundo a empresa, mais da metade de toda soja produzida no mundo é RR. Além da soja, nos Estados Unidos e no Canadá, a Monsanto também produz milho, canola e algodão geneticamente modificados. A empresa também se dedica a pesquisas de uma chamada segunda geração, que traria plantas enriquecidas, com mais óleos e vitaminas, ou mais nutritivas. Também estudam-se alterações genéticas que deixem as plantas mais resistentes ao frio.

As grandes vantagens oferecidas ao produtor, segundo a Monsanto, é a economia e a flexibilidade no manejo das plantas daninhas com o uso do glifosato – que para a Monsanto é um herbicida ecologicamente correto. Conforme o Centro de Política Agrícola e Alimentar dos Estados Unidos (NCFAP), os sojicultores norte-americanos aplicam 16 milhões de doses a menos de herbicida em sua soja por ano. Essa redução faz com que tenham uma economia de US$ 220 milhões anuais.

No Brasil, a Monsanto tem acordos com produtores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que pagam R$ 0,60 por saca de soja transgênica produzida à empresa, pelos royalties relativos à propriedade intelectual da soja RR. Essa cobrança é feita na entrega da safra nas cooperativas ou ao exportador.

Quanto à posição do Estado do Paraná, que proíbe o plantio e a exportação de transgênicos em seu território, a empresa informou que respeita, mas lamenta por privar os agricultores paranaenses da biotecnologia. (LM)

Tema acirra disputa entre governador e ministro

A forte influência do fator político na questão dos transgênicos é claramente explicitada no desejo do Estado do Paraná em se tornar livre dos OGMs. Enquanto o governador Roberto Requião (PMDB) garante que tem a anuência do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, desafeto de Requião, informa que como existem produtores paranaenses que assinaram o termo de adesão à produção dos transgênicos, o Paraná não pode ser considerado livre como um todo.

Na visão do governo paranaense, o rótulo de não transgênico funcionaria como o que acontece com a carne do Estado, já há alguns anos livre da febre aftosa. Essas condições especiais trariam preços melhores aos produtos do Paraná no mercado exterior.

Pressionado por produtores de soja transgênica, principalmente gaúchos, além das detentoras das sementes, o governo federal editou a Lei 10.814 que permite, apenas para essa safra, o plantio e a comercialização de grãos geneticamente modificados reservados a partir de 2003. Para poder plantar essa soja, o agricultor teve que assinar um termo de compromisso e responsabilidade.

A maior incidência desses termos acontece na região Sul. No Rio Grande do Sul foram 81.600 agricultores que aderiram aos OGMs. Em Santa Catarina, 557 agricultores. Já no Paraná, 574 produtores assinaram o compromisso. Em todo o Brasil, 15 estados produzem soja. Desses apenas Rondônia, Pará e o Distrito Federal não têm qualquer agricultor que tenha assinado o compromisso. “Segundo a lei, não existe a possibilidade de criação de uma área livre de transgênicos. O que pode acontecer são regiões dentro de um estado que não produzem OGMs”, revelou o fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura, Marcos Coelho. Segundo Coelho, o mercado internacional não vem negociando a soja geneticamente modificada nem com ágio nem com deságio. Conforme o ministério, o Brasil produziu 57,7 milhões de toneladas de soja até abril. A parcela produzida no Paraná corresponde a pouco mais de 10 milhões de toneladas. (LM)

Orgânicos podem ser boa alternativa aos OGMs

Na contramão dos OGMs estão os alimentos produzidos de forma orgânica, sem a utilização de agrotóxicos. O consultor agroecológico Fábio Sampaio Vianna Ramos, uma das maiores autoridades no assunto no Brasil, destacou que a valorização desse tipo de produto é uma tendência no mercado europeu e asiático. “Em 2005 passa a vigorar na União Européia uma lei determinando que todas as fontes de alimentos infantis sejam orgânicas. É a grande oportunidade que o produtor brasileiro tem em exportar cenoura, beterraba, batata e ganhar muito dinheiro”, afirmou.

Conforme o consultor, o mercado europeu vem pagando mais por produtos orgânicos. “A soja orgânica é comprada a um preço 20% maior do que a convencional na Alemanha”, revelou, destacando que pesquisas realizadas nesses mercados negam o interesse do consumidor daqueles países em ingerir OGMs. “Eles pagam pela saúde. O orgânico é melhor e dá essa segurança alimentar. Já no caso do transgênico, ainda não foi definido cientificamente se esses alimentos causam riscos à saúde ou ao meio ambiente”, observou.

Ramos destacou que a história da cadeia agroalimentar passa pelo poder econômico. “Esse poder dita a regra. Tanto no varejo quanto para a indústria, que precisa viver, então produz patentes de sementes, agrotóxicos, etc.”, salientou.

Segundo o consultor, o fiel da balança será o consumidor. “O negócio começa por ele, que tem que se sentir seguro ao consumir. Todavia, há muita imposição de produtos feitos na base do marketing. Para que o consumidor decida o que é ou não bom para si é necessário que a informação seja mais clara.”

Ramos parabenizou o governo do Paraná pela posição adotada contra os transgênicos: “Esse movimento é sensato e corajoso. Temos que ter independência para decidir se vamos plantar ou não os OGMs. Não apenas ficar com medidas provisórias nos obrigando a plantar”.

E também sugere a criação de programas e créditos para quem trabalha com agricultura orgânica. “Essa é uma área que tende a dar lucro. Vai gerar empregos, segurar o homem no campo e diminuir os problemas sociais nos grandes centros.” (LM)

Global Wind atraca sob a proteção da PF

O navio argentino Global Wind, alvo de duas ações do Greenpeace nas últimas semanas, atracou na sexta-feira no Porto de Paranaguá protegido por homens e embarcações da Polícia Federal. Carregado com 30 mil toneladas de soja transgênica, o navio deve receber mais 10 mil toneladas de soja convencional do Paraná.

Para o Greenpeace, a soja exportada pelo porto paranaense deveria ser, na realidade, protegida da contaminação por OGMs, a fim de não pôr a perder todo o esforço feito para mantê-la livre de transgênicos. Por isso, a organização tentou impedir a atracação e o carregamento do navio nos dias 4 e 8 de maio.

Os portos de Paranaguá e Antonina, segundo o Greenpeace, são os únicos do País a realizarem o esforço contra a soja transgênica. “A Polícia Federal, assim como o governo, deveria estar protegendo os direitos dos consumidores e os interesses econômicos brasileiros em manter sua soja livre de transgênicos”, disse Gabriela Vuolo, da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace. “No entanto, o que estamos vendo é exatamente o oposto: as autoridades estão protegendo o carregamento do navio, prejudicando assim as vantagens comerciais brasileiras e permitindo que empresas como a Bunge contaminem a soja brasileira.”

Frente italiana

Enquanto isso, na Itália, trinta ativistas do Greenpeace estão, desde a manhã de ontem, ocupando a planta de processamento de soja da Bunge (Cereol) na cidade de Ancona. O objetivo é impedir que o carregamento de soja não transgênica vindo de Paranaguá (PR) seja contaminado ao ser descarregado no local, e de barrar a contaminação da cadeia de alimentos da Itália com a soja transgênica que já está estocada na unidade.

Alguns manifestantes bloquearam os portões da unidade e outros se acorrentaram a uma estrutura da fábrica. Os ativistas também penduraram uma faixa de 20 metros de comprimento no silo, demandando o fim da comida transgênica. Em Ancona, 1,5 mil toneladas do produto são processadas diariamente na planta da Bunge. “As empresas que desenvolveram os transgênicos estão percebendo que não há mercado para seus produtos”, disse Federica Ferrario, da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace na Itália.

Alimentos modificados não têm ganho nutricional

Consumir um alimento geneticamente modificado não traz qualquer benefício a quem o consome. A opinião é da professora de Engenharia Alimentar da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Elaine Berges da Silva. Ela destacou que, até o momento, as inovações introduzidas pela genética servem apenas para beneficiar o produtor.

No caso da soja, por exemplo, o produtor ganha em produtividade com a aplicação do herbicida. Todavia, fica obrigado a aplicar apenas um único tipo de produto, além de ter que pagar pelas sementes que são geneticamente modificadas e possuem uma detentora de suas patentes. “Nutricionalmente não há qualquer ganho. Tanto a soja transgênica quanto a convencional são rigorosamente idênticas”, relatou.

A engenheira de alimentos destacou que seria interessante para o Brasil diferenciar seu produto, produzindo alimentos convencionais. “Essa é a idéia do governo do Estado. Os mercados externos estão valorizando mais os produtos naturais”, disse, destacando que no tocante à segurança no consumo de transgênicos ainda há muito a se discutir. “A modificação genética acontece na proteína, onde está concentrado o DNA da soja. Há a possibilidade de esse gene diferente causar algum tipo de alergia. Daí a importância em rotular os produtos geneticamente modificados, para que os consumidores saibam o que estão consumindo”, afirmou. O Greenpeace disponibiliza em sua página na internet (www.greenpeace.com.br) uma lista de alimentos que possuem OGMs.

Perigo

Elaine destacou que o perigo dos transgênicos é justamente onde está a proteína. “Na extração do óleo de soja, por exemplo, não entra a proteína. Mas existem alimentos onde estão concentrados protéicos de soja, ou até mesmo toda a soja moída, como no caso de sucos à base do grão”, revelou. Para a engenheira, os transgênicos só seriam úteis caso trouxessem algum benefício nutricional. “Alimentos com quantidade maior de ácidos graxos polinsaturados, da família ômega, podem servir para reduzir o risco de problemas cardiovasculares”, destacou.