Foto: PM/Divulgação

Balões presos à cadeira onde estava padre Adelir (em destaque) foram encontrados em SC.

Um corpo que pode ser o do padre Adelir Antônio de Carli, desaparecido há 74 dias, foi encontrado por volta das 16h da última quinta-feira, a 100 quilômetros da costa de Maricá, no litoral do Rio de Janeiro (RJ).

O padre desapareceu no dia 20 de abril após sair de Paranaguá, no litoral do Paraná, com o objetivo de bater o recorde de vôo com balões de festa.

O corpo foi achado por um barco rebocador da Petrobrás e encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) da cidade de Macaé, no norte do RJ.

Segundo informações do local, foram encontrados apenas os membros inferiores do corpo, mas os indícios de que ele pode ser do padre são que havia roupas e um tênis semelhantes ao que ele usava no dia do acidente.

Dessa forma, para saber se o corpo é mesmo do padre Adelir será necessário um exame de DNA. O irmão do padre, Marcos de Carli, informou que a família deve seguir para o Rio hoje ou amanhã para realizar o exame.

?Ainda não sabemos se vamos fazer o exame aqui e levar, ou fazer lá mesmo. Mas queremos estar no Rio já na segunda-feira?, contou. Marcos disse ainda que ficou sabendo do corpo – que supostamente possa ser de seu irmão – pelo rádio e que tudo que a família quer saber agora é se é ou não de Adelir. ?Sabemos que há outros corpos desaparecidos no Rio, então estamos com muita dúvida. Mas esperamos que seja mesmo do meu irmão, pois a nossa agonia é muito grande. Se houver confirmação, poderemos pelo menos dar um funeral digno para ele?, concluiu.

O outro corpo ao qual Marcos se refere – e que continua desaparecido – é o de um piloto de um helicóptero que caiu em Paraty, na região sul fluminense, na noite da última quarta-feira.

O trabalho de resgate nessa ocorrência foi suspenso na noite de ontem por conta do mal tempo, mas deve ser retomado hoje pela manhã. No helicóptero havia duas pessoas e o corpo da segunda pessoa foi resgatado na noite do acidente.

O padre Adelir atuava na Paróquia São Cristovão, em Paranaguá, no litoral paranaense. No local, o clima era de surpresa e comoção, ontem. Para o bispo diocesano da cidade, dom João Alves dos Santos, a notícia de que o corpo pode ser do padre foi recebida com espanto.

?Eu estava em outra cidade e voltei para Paranaguá assim que fiquei sabendo?, disse. O padre Joaquim Parron, do Santuário de Nossa Senhora do Rocio, em Paranaguá, afirmou que a notícia de um possível corpo foi, de certa forma, um alívio. ?Ainda não sabemos se o corpo é dele, mas se for confirmado, vai acabar essa agonia?, declarou.

Aventura que não acabou bem

A intenção do padre Adelir era sair de Paranaguá e pousar em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Mas por conta dos ventos, ele acabou sendo desviado de seu percurso. Durante quatro dias, uma equipe da 2.ª Companhia de Aviação da Polícia Militar de Santa Catarina fez buscas ao padre de São Francisco do Sul a Florianópolis. A Marinha e a Aeronáutica o procuraram por cerca de uma semana. Mas para surpresa de todos, o possível corpo do padre foi encontrado no Rio de Janeiro.

O comandante da 2.ª Cia, capitão Nelson Coelho, porém, disse que não se surpreendeu com o local que o corpo foi encontrado. Ele explicou que as coordenadas indicavam que o padre, ainda vivo, poderia estar de 30 a 40 quilômetros afastado da Ilha de Tamboretes, em São Francisco, e por isso as buscas foram concentradas por lá.

?As correntes marítimas da época eram as correntes de profundidade, chamadas popularmente de correntes de mar azul. Então, se ele estivesse com vida, ele estaria na superfície. Mas passaram-se mais de dois meses, as correntes mudam. As buscas a uma pessoa com vida são de uma forma, as buscas a um cadáver são diferentes. Em Santa Catarina, as buscas a um cadáver seriam impossíveis?, disse o capitão.

Já sobre o exame de DNA, o médico geneticista Rui Pilotto, afirma que é perfeitamente possível realizá-lo, mesmo com o corpo em alto estado de putrefação. Segundo ele, no caso de haver apenas a parte de baixo do corpo, coleta-se o material do fêmur, preferencialmente.

?Com esse material pode-se fazer a genotipagem de DNA?, explicou. Para saber se o corpo é realmente do padre, é preciso fazer o exame em um dos familiares próximos, por meio do sangue periférico. ?Compara-se os dois exames e confere-se o compartilhamento?, afirmou. Para a realização do exame no corpo será preciso mais ou menos uma semana.

Resistência à decomposição

Mara Cornelsen

Para o legista e professor de Medicina Legal da Universidade Federal do Paraná, Francisco Moraes Silva, 69 anos – que durante mais de 45 anos trabalhou no IML do Paraná -, são grandes as chances do corpo encontrado no litoral fluminense ser do padre Adelir Antônio de Carli, que estava desaparecido há 74 dias. De acordo com o especialista, a água do mar, por ser salgada, possibilita uma melhor conservação do cadáver.

Segundo Moraes Silva, não existe uma estimativa de tempo para que um corpo humano resista à decomposição no mar. ?Ele pode durar até 120 dias, conforme o caso?, afirmou. As condições climáticas, a temperatura da água e até o comportamento das marés influenciam, assegurou. O legista garante que um exame de DNA pode confirmar a identidade da vítima.