Apesar do maior movimento nas ruas e retomada de várias modalidades de lojas, as vendas no comércio no Paraná ainda patinam e a perspectiva não é das melhores. Segundo o presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP), Camilo Turmina, a categoria segue perseguindo os “30%” e está longe da realidade pré-pandemia. “Quem faturava R$ 100 mil, hoje luta para não perder R$ 30 mil”, diz ele sobre o patamar que estaria se mantendo desde a reabertura do comércio de rua em meados de abril. Segundo boletim mais recente do coronavírus em Curitiba, já são 102 mortos por covid-19 e 2.834 infectados desde o começo da pandemia.

A pesquisa conjuntural da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná (Fecomércio-PR) divulgada nesta sexta-feira (19) mostra o tamanho da retração no mês de abril. A queda das vendas em todo o estado foi de 19,46% em relação a março (que já havia sido impactado) e 31,13% em relação ao mesmo mês do ano passado, portanto, sem pandemia. Regiões de Maringá (-44,83%) e Londrina (-41,11%) tiveram quedas ainda mais expressivas – na Grande Curitiba a queda foi de 24,98%.

De acordo com o diretor de planejamento e gestão da Fecomércio-PR, Rodrigo Rosalem, a análise de Turmina é certeira, pois a região onde a ACP mais atua é o comércio tradicional do Centro da capital, em locais como a Rua XV e arredores, com predominância dos setores mais afetados do varejo pela crise.

Livrarias e papelarias, óticas e lojas de foto e som, de vestuário e tecidos e as de calçados tiveram quedas superiores a 70% não só na capital como também no estado. Em Curitiba, as lojas de roupas tiveram retração de 97,17%, o pior resultado de qualquer setor em todo o Paraná. No estado, o pior desempenho foi o de calçados -85,44%, um ponto percentual pior do que o de vestuários e tecidos.

Apenas o setor de supermercados teve crescimento (6,25%) em relação ao mesmo período do ano passado, mas caiu (7,11%) comparado a março. “Essa queda tem muito reflexo da correria aos mercados no início da pandemia no fim de março com medo do desabastecimento”, explica Rosalem, lembrando do “choque” no fim de março, o início de abril com tudo fechado e reabertura gradual do varejo (não essencial) ao longo do mês, principalmente pelo interior.

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Turmina diz que a retorno dos clientes à normalidade ainda não está no horizonte. Duas das cinco datas mais importantes para o comércio (Dia das Mães e Dia dos Namorados) ficaram aquém do normal e venderam cerca da metade da média. “O que move o sonho de consumo das pessoas é estar sem nenhuma preocupação com renda e trabalho, a confiança que está bem para fazer frente aos compromissos”, fato que atualmente que não é realidade para a maioria da população. “As pessoas estão comprando o essencial, existe a preocupação com o dia de amanhã, a desconfiança, incerteza quanto a sua renda”, completou.

A incerteza da economia gera dor de cabeça entre os comerciantes, que aguardam novas medidas de apoio. “A renegociação da folha precisa ser estendida até dezembro, um socorro para não demitir, não há sobrevivência sem vender. Normalmente 95% do que entra vira contingência para a operação”, resume o presidente da ACP. Uma dessas medidas, de crédito para a folha, está travada na Câmara.

Segundo Turmina, quem não conseguiu renegociar o aluguel está entregando o ponto e muitas lojas de shopping não estão abrindo. “A dificuldade é igual (dentro ou fora de centros comerciais), não há grande distinção. Alguns estão tentando pagar o aluguel proporcional às vendas para que abram”.

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Uma pesquisa da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) divulgada na última quarta-feira (17) apontou que 74% das lojas no país teve queda superior a 90% entre abril e maio (considerando locais que estavam abertos). Em Curitiba, por exemplo, os shoppings só voltaram a funcionar no fim de maio.

A permanência nas lojas, que durava 2 h ou mais na pré-pandemia, agora não passa de 30, 35 minutos, segundo Turmina. “A pessoa faz busca virtualmente antes, já até negocia às vezes e só passa para buscar o produto, não tem mais o entrar para fuçar alguma coisa, tomar o cafezinho”, explica.

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Rosalem concorda que o “entretenimento da compra” não existe no momento e ressalta que o maior movimento na rua não se traduz em compras. “Estar aberto não significa que o cliente está dentro da loja. A maioria não está perambulando por aí sem necessidade. Esse maior movimento nas ruas (a pé, de ônibus e carros) é dos empregados desses locais que reabriram se deslocando ao local de trabalho, além de outros profissionais que voltaram a seus escritórios e empresas”, argumenta.

Recuperação aparece com timidez

Um levantamento do Departamento Econômico do Banco Santander sobre o varejo aponta para uma leve recuperação em maio, após quedas em março e abril. O Paraná teve um aumento de 10,8% nas vendas (acima dos 8,5 a nível nacional) em relação a abril, segundo o índice IGet, que reflete o desempenho do comércio varejista por meio do volume de transações de pagamento das máquinas de cartão da empresa.

O levantamento também diz que na comparação com maio de 2019, contudo, a queda foi de 24,6%. A conclusão é de que “ainda que de maneira tímida, é possível notar os impactos da gradual retomada das atividades econômicas no país”.

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Para o diretor da Fecomercio-PR, o movimento é normal e espera algo semelhante na próxima pesquisa conjuntural paranaense. “Bem natural que em maio aponte um aumento nas vendas em relação a abril até em correlação com a maior quantidade de opções para compras, flexibilização maior, como a abertura dos shoppings. Mas quando for comparar maio e até junho com os do ano passado tenha certeza absoluta que será muito meno. Quanto eu não sei, façam suas apostas, mas não vai voltar aos patamares de 2019 tão cedo”.


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