Brasília – O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci elegeu um vereador do PSDB em Ribeirão Preto, Nicanor Lopes, como seu alvo maior para tentar neutralizar a crise que levou ao seu indiciamento quinta-feira pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público), falsidade ideológica, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro com origem ilícita – delitos que lhe são atribuídos pela polícia por causa do grande aumento do volume de varrição de ruas da cidade que administrou entre 2001 e 2002, situação que teria provocado rombo estimado em R$ 30, 7 milhões.

Nicanor é acusador reiterado de Palocci. Há 5 anos, o vereador questiona e põe sob suspeita atos e contratações que o petista fez. As denúncias do tucano deram suporte a parte dos 25 procedimentos de investigação que o Ministério Público conduz sobre Palocci.

Interrogado quinta-feira pela Polícia Civil do Distrito Federal, Palocci disse que ao assumir a prefeitura de Ribeirão identificou irregularidades no Programa Cidade Limpa, adotado pelo seu antecessor, Luiz Roberto Jábali (PSDB). O programa foi idealizado por Nicanor, que atuou como diretor das administrações regionais e depois secretário de Governo de Jábali.

"O vereador Nicanor Lopes patrocinava o Cidade Limpa e como eu acabei com esse programa ele começou a estimular as denúncias contra mim e contra a minha administração", acusou Palocci. O sistema de coleta de lixo é o ponto central da acusação que a polícia imputa a Palocci – no seu governo, segundo inquérito dirigido pelo delegado Benedito Antonio Valencise, dobraram os valores relativos à medição da varrição de ruas.

No último ano da administração Jábali, 2000, a planilha de serviços efetuados indicou que as equipes de limpeza atuaram em 273, 03 mil quilômetros. Em 2001, primeiro da gestão Palocci, essa quantidade pulou para 544, 9 mil quilômetros. A polícia anuncia ter identificado falsas certidões que multiplicaram artificialmente a varrição.

Irregularidades 

O Cidade Limpa consistia na transferência de serviços de varrição a associações de bairro, que se encarregavam da seleção e contratação da mão-de-obra. As despesas eram bancadas com verbas da prefeitura.

À polícia, Palocci disse que ao assumir a prefeitura de Ribeirão identificou irregularidades no programa adotado pelo seu antecessor. Segundo o ex-ministro, o Cidade Limpa provocou uma onda de ações trabalhistas contra a municipalidade porque os trabalhadores contratados recebiam salário inferior ao mínimo. Palocci resolveu acabar com o programa, repassando a uma autarquia, o Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão (Daerp) a responsabilidade pelo sistema de limpeza urbana.

O ex-ministro negou categoricamente ter cometido ou autorizado a produção de certidões frias para justificar os desembolsos em larga escala. "Fui vereador, prefeito duas vezes, deputado estadual e federal e ministro e jamais sofri qualquer processo na minha vida pública, que é longa", disse Palocci. Ao atribuir a responsabilidade do sistema de limpeza ao Daerp, Palocci acentuou que "o prefeito não assina os contratos, legalmente as autarquias tem autonomia para fazer licitações e contratações".