É preciso insistir: Lula é, de fato, um presidente com boas intenções e sensível aos problemas nacionais. Se sabe como solucioná-los, é outra coisa.

Já vai longe o dia em que falou em mostrar, de imediato, o espetáculo do desenvolvimento. Seria para julho do ano passado. Já se passou quase um ano e o espetáculo agora anunciado é, no máximo, um ensaio de opereta, recheado de promessas sempre para cumprimento futuro de obrigações que são do passado.

Lula é refém da área econômica, não só no que toca aos recursos de que precisa e lhe negam, mas de sua ideologia de entesouramento, para satisfazer o mercado financeiro. E, quem sabe, um dia, livrar o País da dependência excessiva de capitais externos, o que seria ideal, se não fosse irreal.

Reunindo o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Lula anunciou diversas medidas que seriam o dito “espetáculo do desenvolvimento”. São passos que não levam o País adiante, mas buscam recuperar espaços que deveria ter coberto antes, mas se atrasou.

Lula anunciou a liberação de R$ 2,7 bilhões para os aposentados com mais de 60 anos receberem, de uma só vez, a correção das perdas do FGTS com os planos Verão e Collor 1. Significa uma injeção substancial na economia, promovendo consumo e, com certeza, a produção. Mas é o pagamento de atrasados, dinheiro que governos anteriores se apropriaram, foi reclamado na Justiça, que o obrigou a pagar e, agora, o faz em doses homeopáticas. Facilitará um pouco para os sexagenários aposentados. Estes receberão o que nunca lhes devia ter sido subtraído. Os demais trabalhadores continuarão a receber o que é seu em suaves prestações. Não se minimize o efeito que esse dinheiro poderá ter na economia, mas se tenha presente que não é uma injeção de recursos e, sim, uma transfusão numa economia que foi vampiricamente sugada.

O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, já havia anunciado esse “espetáculo”. Os demais trabalhadores continuarão recebendo o dinheiro em parcelas. Quem tem crédito acima de R$ 8.000,00, só teve liberada a primeira de sete prestações. Alguma coisa, de quem tem créditos menores, a Caixa Econômica já pagou. É milagre: o governo pagando, mesmo atrasado, o que deve. Diga-se, a bem da verdade, que são dívidas anteriores à administração Lula e que só estão sendo quitadas porque a Justiça mandou.

Lula também anunciou que, a partir de junho, o governo vai restaurar 7.800 quilômetros de estradas federais. O otimista vê nessa decisão uma injeção de dinheiro na economia e geração de empregos. O pessimista vê estradas esburacadas, que, não recuperadas a tempo, irão obrigar o governo a gastar muito dinheiro para torná-las transitáveis.

Lula falou da reserva de vagas para estudantes carentes, negros e índios, oriundos das escolas públicas, nas faculdades também sustentadas pelo governo. Uma boa medida, mas de desenvolvimento social. Foi também o programa “Soldado Cidadão”, com 30 mil vagas para recrutas nas forças armadas. Alguns deles irão ajudar a construir casas no norte. Bom, mas sustentar as forças armadas a nação sempre o fez. Melhor utilizá-las é um progresso. Não um espetáculo. Lula falou ainda em mudanças no fracassado programa do Primeiro Emprego. É ver para crer, pois a primeira versão não teve nem atores nem platéia.

O mais positivo do que disse o presidente é que implementará um plano de saneamento básico, com orçamento de R$ 2 bilhões e 700 milhões. O demais são estórias já velhas e nada espetaculares.