O golpe militar de 64 foi algo distante para os ginasianos da primeira H, do Colégio Estadual Maringá. Na realidade, eles souberam mais tarde de seus efeitos, como a repressão. O golpe, em si, foi mixuruca. Um general acordou disposto a um golpe, botou os tanques na rua e o presidente fugiu. Os graúdos ficaram com a manga madura. A manga, no caso, o Brasil. Claro que houve um belo estrago no longo prazo. No dia do golpe foi feriado e, no seguinte, a vida era normal. Dias depois a escola ensaiava para o dez de maio.

Naquele ano o colégio passou a se chamar Gastão Vidigal e Pernambuco não foi bom aluno. Os professores o mandaram dezenas de vezes para a diretoria. Foi assim que ficou chapa do diretor, José Hiran Salée, também professor de português e desenho. Hiran era um cara bacana. Em vez de castigo humilhante mandava o serelepe ficar em pé do lado de fora da diretoria, decorando longos poemas, para recitá-los como um autômato no fim da aula. Se falhasse, diretoria de novo, no dia seguinte. Não era confortável, mas podia ser pior. Foi assim que Pernambuco decorou boa parte dos poetas brasileiros.

Hiran era músico e instrutor da fanfarra. No dia em que recrutou novos garotos, apareceu mais gente que os instrumentos de sobra. Pernambuco chegou de leve. O Gastão Vidigal era onde hoje está o Instituto. O instrutor mandou os alunos levar os instrumentos do salão nobre para o pátio. E ficou olhando os candidatos mostrarem suas habilidades. Chegou a vez de Pernambuco, ele não convenceu. O menino pediu nova chance. Hiran respondeu: “Não tem mais instrumentos”. Era verdade e Pernambuco assoprou mal a corneta. E ainda insistia.

Hiran deu a segunda chance, impossível. “Se achar uma corneta lá em cima, fica.” Pernambuco voltou ao salão nobre, abriu a porta e viu um cemitério de instrumentos. Não havia um inteiro. Era carcaça de repique, surdo, corneta e bocal de baixo tuba pelo chão. Pernambuco não pensou duas vezes. Limpou um bocal de tuba e enfiou na carcaça de corneta e voltou para o pátio, tocando sua trombeta de Jericó. Hiran arregalou os olhos: “Pernambuco, ficou maluco?”. Os outros riram. Entre eles, Iolo, o bamba da corneta.

Hiran era um cara esperto, sentiu o drama. Ele disse: “Valeu o esforço, pode ficar”. Até aquele dia Pernambuco só levou coco. Aquele foi um gesto raro. Mesmo que a fanfarra desafinasse e não se comparasse com a do Marista, com seus garotos arrogantes, de blusões amarelos com listras vermelhas e calças brancas. Tão perfeita, disciplinada e tonitruante quanto o exército alemão entrando em Paris. Mas, no dia dez de maio, a do Gastão estava aprumada. E entrou na Avenida Brasil imponente e festiva, como os franceses no Dia da Libertação.

Os rapazes de calça azul avançaram com suas camisas e luvas brancas, uma capa amarela enfunando contra o vento. Eles atravessaram o corredor formado pela multidão. Na última fila dos corneteiros, Pernambuco assoprava o bocal de tuba entalado na corneta. Naquele dia, foi feliz. E ainda em outros, quando a fanfarra do Gastão se apresentou em cidades vizinhas e a corneta de Pernambuco ganhou um bocal de corneta. Ele nunca deixou de ser grato ao professor, que soube quando ser amigo. Por isso, todos na cidade o achavam um cara bacana. E, para Pernambuco, não era pouca coisa ser amigo do professor Hiran.

Edilson Pereira (edilsonpereira@pron.com.br)  é editor em O Estado