As pesquisas simultâneas do CNT/Sensus e Datafolha, cujos resultados foram divulgados esta semana, confirmam: sem candidato do PMDB Lula ganharia no primeiro turno. Diante da lambada dos índices folgados de Lula, os ânimos nos arraiais do PSDB e PFL chegaram ao ponto de ebulição e seus maiorais passaram a trocar – ainda evitando o baixo calão – ameaças de uns irem aos gorgomilos dos outros.

Seria cômico se não fosse trágico assistir ao profundo mal-estar de emplumados tucanos e não menos enfatuados pefelistas, qualquer que seja a coloração político-ideológica dos formadores desse conglomerado tão unido no desfrute das benesses do poder, e ao mesmo tempo tão desarvorado quando se trata de contabilizar os prejuízos infligidos pelo eleitor.

Diversos são os argumentos que justificam a firme aceitação de Lula no imaginário popular, o grosso de seu cabedal de votos se concentra nas classes pobres predominantes no nordeste, mas existe um que sobrepuja os demais. Diante das opções de conceder a Lula o segundo mandato ou franquear a Presidência da República a um político que representa o ressurgimento do esquema chefiado por Fernando Henrique Cardoso, com todo o seu dossel de inoportunas lembranças, preferível é ficar com o ex-operário metalúrgico do ABC.

A gente simples não saberia se expressar com prosápia igual a do governador Cláudio Lembo, mas conhece na carne e por experiência própria o poderio da ?elite branca e cruel? na apropriação dos benefícios sociais. Tanto que apenas nesse governo, apesar da enorme distância ainda a percorrer até a eliminação do princípio das quotas, por si mesmas um fator de acirramento da discriminação, houve acesso de negros e descendentes de nações indígenas às universidades públicas. A desigualdade social ainda é um sério desafio, mas milhões de brasileiros pobres já estão se alimentando todos os dias. E são eles que prometem votar de novo em Lula.

Outro defeito que os partidos desalojados do poder em 2002 não conseguiram corrigir nos quase doze anos passados desde o primeiro mandato de FHC, hoje assume a conotação duma praga bíblica. Não se estimulou a forja de nenhum líder capaz de galvanizar as massas em torno da social-democracia, pelas artes do próprio PSDB, uma proposta tão vazia quanto a defesa da teoria da terra plana. Alckmin, dotado de uma insipidez absoluta, debate-se há dois meses em busca de um tiquinho só de recepção e apreço eleitoral. Fagueiro, Lula segue lépido para o segundo mandato.