O ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak, declarou-se inocente das acusações de corrupção e cumplicidade nos assassinatos de manifestantes no início de seu julgamento nesta quarta-feira. Aos 83 anos, Mubarak estava pálido, deitado numa cama hospitalar no interior da jaula dos réus, ladeado por seus dois filhos, ao fazer a declaração. O julgamento, transmitido ao vivo pela televisão, representa a maior humilhação ao ex-presidente desde sua queda quase seis meses atrás, após um levante de 18 dias.

Foi a primeira vez que os egípcios viram Mubarak desde 10 de fevereiro, quando ele fez uma desafiadora declaração na televisão, recusando-se a deixar o poder. Ele renunciou no dia seguinte.

“Estou satisfeita em vê-los numa jaula. Eu sinto que a alma de meu filho está finalmente começando a descansar e que todo esse sangue vai parar de ser derramado”, disse Saeeda Hassan Abdel-Raouf, mãe de um manifestante de 22 anos que morreu durante o levante. Ela, centenas de parentes de outras vítimas e outros opositores de Mubarak se aglomeraram do lado de fora de uma academia de polícia do Cairo, onde o julgamento é realizado.

Na sala do tribunal, um promotor leu as acusações contra Mubarak: cumplicidade, juntamente com o então ministro do Interior, na “premeditação intencional e premeditada de assassinar manifestantes pacíficos” e que ele e seus filhos receberam presentes de um importante empresário em troca da garantia de preços mais baixos na compra de terras com do Estado.

“Sim, eu estou aqui”, disse Mubarak, elevando sua mão levemente quando o juiz pediu a ele que se identificasse e fizesse uma apelação. “Eu nego completamente todas essas acusações”, disse ele. Do lado de fora da academia de polícia, manifestantes que assistiam ao julgamento numa tela gigante gritaram “então, quem fez isso?” Alguns balançavam seus sapatos numa demonstração de desprezo.

Mubarak foi levado para a jaula dos réus numa cama hospitalar, com o lençol cobrindo seu corpo até o peito. Embora ele estivesse pálido e seus olhos estivessem vermelhos, ele parecia alerta e ciente do que estava acontecendo. O ex-presidente demonstrou poucas emoções. Juntamente com ele, na jaula, estavam nove corréus, dentre eles seus dois filhos – Gamal, que já foi considerado seu herdeiro, e Alaa, um rico empresário – seu ex-ministro do Interior Habib el-Adly, e seis graduados ex-oficiais da polícia.

Os réus costumam ficar em jaulas durante julgamentos no Egito. Cerca de uma hora após o início da sessão, houve um recesso e os réus puderam sair da jaula. A maior parte da sessão foi sobre assuntos processuais como o registro dos nomes dos advogados envolvidos no caso e a audiência dos argumentos de cada um.

Mubarak, el-Adly, e seis graduados oficiais da polícia são acusados de ligação com os assassinatos dos manifestantes. Todos os oito podem ser condenados à morte. A acusação diz que Mubarak “permitiu (el-Adly) usar munição de verdade” na repressão contra os manifestantes.

Separadamente, Mubarak e seus dois filhos são acusados de corrupção. Segundo a promotoria, os três receberam cinco casas de campo avaliadas em cerca de US$ 7 milhões do empresário Hussein Salem em troca do uso da influência do governante e seus filhos para que Salem conseguisse comprar, por um preço menor, terras públicas para a construção de um resort em Sharm el-Sheikh. As informações são da Associated Press.