Foto: Lucimar do Carmo

Para estimular o contato com os livros, algumas escolas de Curitiba e região criam aulas alternativas, em bosques, por exemplo.

Acomodação. Esta é a palavra usada por especialistas para definir a razão de um acontecimento cada vez mais comum dentro das salas de aula. Muitos estudantes não estão preocupados em ler, pesquisar ou aprofundar o conhecimento. A leitura deixou de ser algo prioritário. Para muitos, ler é uma perda de tempo. Imagine então o que acontece com a pesquisa para uma tarefa escolar ou universitária. Aí vem a desculpa da correria do dia-a-dia. É mais rápido e mais cômodo fazer o ?CTRL C + CTRL V? de uma página da internet. As conseqüências da falta de leitura e da falta de aprofundamento são visíveis.

Hoje em dia, os alunos já entram no ensino fundamental pensando em estudar ou decorar a matéria para aquele momento, para conseguir uma nota satisfatória. Não pensa em realmente aprender. Os estudantes não têm noção da importância da educação. Mas também não são levados a pensar diferente. ?As pessoas estão acomodadas. Ainda há tempo, mas fica cada vez mais difícil. A mente gosta de desafios. À medida que não é usada, atrofia. Se faz o mínimo possível?, opina Paulo Cardoso, professor das disciplinas de Filosofia, Sociologia e Metodologia do campus Campo Mourão da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). De acordo com ele, há um pensamento imediatista. O conhecimento é encarado como algo imediato para tirar a nota necessária para passar de ano.

A professora Marta Moraes da Costa, do curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e colaboradora da seção O Estado Educa, acredita que o ?CTRL C + CTRL V? é o verdadeiro sinal da acomodação. Isto ainda demostra o contentamento com pouco. Os estudantes copiam o que encontram na internet e ainda pegam o primeiro texto que vêem. ?Eu não sou contra computador. Mas é um absurdo o que está acontecendo. E ainda há professores que fecham os olhos para isto e dão a nota. Já estamos percebendo as conseqüências disso. A acomodação se instala em toda a sociedade, cada vez mais. As pessoas engolem o que é apresentado para elas. E pronto?, analisa.

Cardoso lembra que a tecnologia, algo irreversível na nossa sociedade, veio para facilitar os processos e dar mais condições para o conhecimento. Mas, a pressa presente em todos os setores da vida moderna acaba forçando a abreviação de tarefas. E, neste fenômeno, entrou a cópia de materiais encontrados na internet. ?O conhecimento passa a ser superficial, de aparência. O estudante não tem domínio nenhum sobre o que está sendo apresentado. Fico assustado porque tem sites que oferecem monografias prontas. E o que é mais fácil? Pesquisar, procurar, escrever ou copiar??, questiona.

O professor acredita que as ferramentas tecnológicas devem ser usadas pelos professores para atrair os alunos. Um exemplo é o uso de multimídia. Além disso, o professor precisa aliar o conhecimento aos assuntos atuais. ?O professor precisa incentivar e motivar o aluno. Os alunos estão cheios de aparatos tecnológicos, como o MP4. A velocidade para eles é enorme. Se a instituição de ensino não acompanhar, fica para trás?, considera Cardoso.

Desprestígio das obras entre estudantes é grande

Marta: ?Conversando, você percebe que há pouca informação?.

Em média, o brasileiro lê dois livros por ano. Por aí já é possível perceber como a leitura está desprestigiada. Em casa não há estímulo. Na escola, o aluno se acomoda. ?A gente sente que grande parte dos estudantes não possuem estímulo para a leitura em casa. É uma briga fazer o aluno despertar para isto. Se não fosse pela escola, muitos alunos não estariam interessados?, analisa Martinha Aparecida Vieira, professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Medianeira, de Curitiba.

Muitos estudantes não lêem como deveriam. Não lêem nem mesmo as publicações indicadas para trabalhos escolares ou concursos, como o vestibular. Afinal, o que seriam dos tais resumos, que isentam qualquer um do ?trabalho? de ler? ?A leitura não está acontecendo. Conversando com os alunos, você percebe que há pouca informação. Isto está comprovado na escola e na universidade. A leitura é uma questão complexa. De modo geral, está acontecendo uma desvalorização do conhecimento, apesar das exigências do mercado de trabalho. Já tive notícia de que, em uma sala do 1.º ano na universidade, nenhum aluno nunca tinha lido um livro inteiro sequer?, comenta a professora Marta Moraes da Costa.

A falta de leitura traz conseqüências sérias. Uma delas é a perda de visão do mundo. ?Quanto mais se limita a leitura, menor é a visão do mundo. A pessoa não consegue fazer a relação entre as coisas. É muito menor a possibilidade de pensar por si mesma?, explica Martinha.

Marta Moraes da Costa acredita que a sociedade atual é composta por um pensamento único. As opiniões de cada um são uma repetição do que ouviu falar. As pessoas que não aprofundam seu conhecimento e que não lêem regularmente só absorvem as informações passadas por outros e as transforma em suas. ?As pessoas não procuram aprofundar o que ouvem. Se contentam em repetir o que ouviram de outra pessoa. As pessoas realmente estão acomodadas?, classifica. Para a professora Marta, a solução passa pela conscientização e pela ação. E todo mundo tem responsabilidade sobre isto.

Novas iniciativas podem melhorar situação

Pedro, Álvaro e Corina são alunos do Colégio Medianeira.

Quanto mais o tempo passa, fica mais difícil inserir na rotina de alguém o hábito da leitura e estímulo de procurar por mais informação. Por isso, se tornou necessário apresentar as vantagens da leitura no processo do conhecimento cada vez mais cedo. Apesar da inércia de muitos pais e professores, há iniciativas interessantes neste sentido.

O Colégio Medianeira, por exemplo, coloca em prática desde 2000 o projeto Sujeitos Leitores, que reúne todas as estratégias de incentivo à leitura. Entre as ações estão aulas semanais em uma sala especial de leitura ou no bosque da escola. Foi o que aconteceu na semana passada com os alunos da 8.ª série do ensino fundamental. A professora Martinha Aparecida Vieira aproveitou o sol e os levou para o bosque. Lá, alunos e professora conversaram sobre a evolução na produção de textos, conforme o crescimento físico e intelectual do escritor.

No primeiro semestre do ano, os alunos também participam da Semana da Leitura, quando acontecem uma feira do livro e palestras com escritores. Além disso, os estudantes de todas as séries produzem textos durante o ano letivo, dentro das matérias programadas.

Os textos vão sendo analisados e escolhidos pelos professores, sem que os alunos saibam. No final do ano, os textos selecionados dão origem a um livro, distribuído para os próprios alunos, funcionários e professores do colégio. Com direito até a uma noite de autógrafos. ?A escrita e a leitura estão totalmente relacionadas. A partir do momento que eles escrevem e têm reconhecimento, passam a valorizar mais a leitura. Passam a entender que a escrita tem um propósito, principalmente de provocar a cabeça do leitor. A partir do momento que a leitura é inserida no dia-a-dia, ela começar a fazer parte?, conta Martinha.

A aluna da 8.ª série Corina Midori Mitani, de 13 anos, revela que despertou para o real sentido da leitura há pouco tempo. ?Comecei lendo gibi e depois fui evoluindo. Mas foi a partir de agora que realmente descobri que gosto. Leio em casa, antes de dormir?. Álvaro Sobral de Oliveira e Pedro Henrique Morcelli de Castro, também alunos da 8.ª série, dizem que adoram ler. ?Para mim, essa rotina de leitura começou com o Harry Potter. Isto foi o início para outras leituras?, conta Álvaro. ?Antes, eu gostava de ler apenas livros de detetive. Depois, aprendi a ler sobre outros assuntos?, relata Pedro Henrique.