As informações ?insiders?, ou sejam, aquelas reveladas por quem, por sua posição, pode estar por dentro e revelando-as, alterar o comportamento do mercado de capitais de forma substancial, são vetadas em todos os países do mundo onde funcionem Bolsas de Valores. No Brasil existe um órgão independente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para zelar que tais informações ou boatos não sejam trazidos a público provocando movimentos ascendentes ou descendentes abruptos nas ações, ensejando assim ganhos fáceis para quem se aproveita delas.

Para agir corretamente e efetivamente impedir a especulação, deve a CVM ser totalmente independente, isenta, não estando subordinada a nenhum outro órgão, nem mesmo ao governo federal.

Como tal, seu longo braço precisa alcançar quem quer que seja dentro do mercado ou a ele ligado, que possa provocar os movimentos bursáteis ensejando especulações que não raro rendem milhões para pessoas físicas ou jurídicas que estão atentas e muitas vezes integram o que se poderia chamar ?uma jogada?.

Assim, uma pessoa de prestígio ligada a um determinado setor dá uma notícia falsa e com ela provoca a alta desarrazoada de certas ações. Os espertos aproveitam-se disto e fazem posição no papel para vendê-lo logo depois a preços elevadíssimos, até que se descubra que tudo não passou de boato ou mera especulação. Um golpe. É o que está acontecendo com as ações da Petrobras.

Haroldo Lima, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), anunciou publicamente a existência de um campo de petróleo, o bloco BM-S-9, conhecido como Carioca, que teria cinco vezes mais reservas que o megacampo de Tupi, na Bacia de Santos. Seria gigantesco, talvez o terceiro maior do mundo e sua exploração colocaria o Brasil numa posição privilegiada entre os maiores produtores de petróleo do mundo. Como membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), como vaticinou numa gozação o presidente venezuelano Hugo Chávez.

O resultado da notícia, partindo de quem partiu, não poderia ser outro. O preço das ações da Petrobras estourou no Brasil e em todos os países onde são negociadas em bolsa. O noticiário de jornais do mundo inteiro deu destaque à informação. E muita gente teve seus lotes de ações petrolíferas valorizados sobremaneira de uma hora para outra.

É evidente que tais fatos provocaram uma ação da CVM, no mínimo para aquilatar o que há de verdade na notícia e se houve manipulação com fins de obtenção de ganhos fáceis. Envergonha o tratamento que os acontecimentos começam a ter no Brasil, contrariando o que se faz no mundo inteiro. Aqui, o diretor-geral da ANP declarou que nada declarou. Que apenas deu curso a uma notícia já velha de uma revista norte-americana especializada que falou, em uma matéria, na possibilidade de o novo campo de petróleo em águas brasileiras ser tão promissor.

Ele, Haroldo Lima, se saiu desde logo com a escusa ridícula que é membro do governo e não diretor da Petrobras, portanto não está sujeito a investigações e muito menos punições. O governo federal apoiou sua defesa, criando uma situação insustentável, pois se assim é, qualquer ministro da área ou outra autoridade pode inventar boatos, ganhar dinheiro com isto e fazer com que apaniguados também ganhem e todo mundo sai ileso. Menos o outro lado, aqueles que compraram a preços abusivos as ações ou as venderam quando estavam em processo ascendente.

José Sérgio Gabrielli, diretor-presidente da Petrobras, não endossou a notícia do megacampo e todos os homens do setor, ligados ou não ao governo, passaram a falar em meras conjecturas, fatos por serem provados ao longo do tempo. De um longo tempo.

Haroldo Lima foi grandiloqüente, pouco modesto, dizendo desde logo que é homem do governo e não do mercado de capitais e nenhuma satisfação deve ao mercado de capitais ou ao seu fiscal legal, a Comissão de Valores Mobiliários.

O episódio entristece e assusta. Mostra que nunca, neste País, foi tão fácil ganhar dinheiro especulando na bolsa. Basta que sejam montados boatos ou notícias não confirmadas por alguém do setor, mas que não seja do mercado, como um ?simples? diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. A este tudo é permitido, inclusive montar um gigantesco movimento especulatório com ganhos fáceis, sejam para si, como para seus apaniguados.