Tanto a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil quanto o vice-presidente José Alencar vêm fazendo críticas e advertências ao governo. Entendem que há crise social grave, econômica difícil e nenhuma providência conseqüente para que as coisas melhorem. Reclamam mudanças urgentes e radicais na política econômica, apontando a crise social como tendente a levar a uma crise política. E indicam que poderemos chegar à ingovernabilidade. Não obstante, Lula tem conseguido, através de ampla propaganda, ressaltar os resultados positivos do seu governo. Alguma coisa vai bem aqui e ali. Nem tão bem quanto o necessário, mas suficiente para fazer propaganda. Tanto mais quando se comparam números positivos com outros negativos em certos setores, garimpados ao longo de meses e até anos.

O presidente Lula mantém-se simpático e dialoga bem e francamente com a nação. O próprio José Serra, que agora é candidato a prefeito de São Paulo, em recente entrevista à tevê, perguntado sobre qual o ponto positivo do governo Lula, depois de muito pensar, disse que são as boas intenções do presidente. Só elas, pois “não tem projeto nenhum para o País”. Enquanto bem intencionado e bem falante, com a caneta na mão porque é presidente e colhendo alguns resultados positivos aqui e ali, o presidente vem mantendo uma precária maioria parlamentar.

Só que agora surgiu o primeiro episódio em que perdeu no Congresso. O governo queria a reeleição de João Paulo Cunha (PT-SP) para a presidência da Câmara Federal e de José Sarney (PMDB-MA) para a chefia do Senado. Os dois têm sido esteios de sua sustentação na Presidência e de sua condição de governante com maioria parlamentar. No ano passado, houve um acordo, no Senado, pelo qual haveria alternância na presidência da Casa. Sairia Sarney e entraria outro peemedebista, o ex-collorido Renan Calheiros. Esse acordo foi repudiado e Sarney, como João Paulo na Câmara, decidiram ser candidatos à reeleição. Uma emenda constitucional foi providenciada, permitindo essa reeleição, mas acaba de ser derrubada na Câmara dos Deputados, jus tamente a Casa onde tinha mais possibilidades de aprovação. No Senado, a guerra seria mais ferrenha. Dividiram-se as bases parlamentares do governo e este acabou sendo derrotado.

Seria o início da crise política vaticinada tanto pela CNBB quanto pelo vice-presidente José Alencar e o seu PL? Ainda não, mas certamente um passo nesse sentido. As advertências sobre um horizonte cinzento que prenuncia uma crise política referem-se às convulsões sociais que se avolumam, em razão de problemas gravíssimos e longe de ser resolvidos, como o desemprego, a lenta reforma agrária, os salários que não chegam ao fim do mês, as greves, os juros altos e os desentendimentos sobre qual a política econômica mais conveniente para o Brasil, ocorrente nas próprias bases situacionistas. A ampliação da crise social poderá levar o governo a perder o apoio da maioria parlamentar, que hoje é precária, e caminhar para a ingovernabilidade. A derrota no Congresso, no episódio da reelegibilidade dos presidentes da Câmara e do Senado, pode significar uma séria rachadura no arcabouço protetor do governo, suas bases parlamentares. Nelas, já existiam discordâncias. Agora, surgem votos contrários. O episódio foi um alerta efetivo e não apenas um prognóstico negro de quem vê horizontes turbulentos a distância.